Toda vez que a ciência anuncia uma descoberta relacionada à consciência, a reação costuma oscilar entre dois extremos. Há quem veja nesses avanços a prova de que estamos cada vez mais próximos de explicar a mente humana em sua totalidade, enquanto outros interpretam qualquer tentativa de localizar a consciência no cérebro como uma simplificação excessiva de algo que pertence ao campo da subjetividade, da filosofia ou mesmo da espiritualidade. A verdade provavelmente está em algum lugar entre esses dois polos.
Um estudo publicado recentemente na revista Nature Human Behaviour chamou a atenção dos pesquisadores ao identificar um padrão específico de atividade no tálamo, uma pequena estrutura localizada no centro do cérebro e responsável por integrar informações vindas de diferentes regiões neurais. A equipe descobriu uma oscilação entre 20 e 45 hertz que aparece exclusivamente durante dois estados muito particulares: quando estamos acordados e quando estamos sonhando durante o sono REM. O sinal desaparece completamente durante o sono profundo sem sonhos, justamente o período em que a experiência consciente parece mais reduzida.

Os autores do estudo acreditam ter encontrado algo próximo de uma assinatura biológica da consciência, um marcador objetivo capaz de distinguir momentos em que existe experiência subjetiva daqueles em que essa experiência parece estar ausente ou significativamente diminuída.
A descoberta é importante, mas talvez não pelas razões que muitos imaginam.
O fascínio provocado pela consciência existe porque ela permanece um dos maiores mistérios da condição humana. Sabemos que o cérebro produz pensamentos, emoções, lembranças, sonhos e percepções, mas continuamos sem entender plenamente como uma rede de células e impulsos elétricos se transforma na experiência íntima de existir. Continuamos sem saber por que um conjunto de processos biológicos produz aquilo que chamamos de “eu”. Continuamos sem compreender como a matéria se converte em experiência subjetiva.
Quando os pesquisadores identificam um padrão neural associado à consciência, eles não estão respondendo a essas perguntas. Estão respondendo a outra questão, igualmente importante, mas diferente: quais mecanismos cerebrais tornam possível a experiência consciente?
Essa distinção é fundamental porque ajuda a compreender por que descobertas como essa interessam tanto à neurociência quanto à psicanálise, embora por razões completamente diferentes.
Sigmund Freud provavelmente teria acompanhado esse estudo com enorme curiosidade. Antes de criar a psicanálise, ele foi neurologista e passou boa parte da juventude tentando compreender a mente a partir do funcionamento cerebral. Em 1895, escreveu o chamado Projeto para uma Psicologia Científica, uma tentativa ambiciosa de construir uma teoria da mente baseada em processos biológicos. O próprio Freud reconheceu que a ciência de sua época ainda não possuía instrumentos capazes de sustentar esse projeto, razão pela qual ele acabou desenvolvendo um modelo essencialmente psicológico.
O sonho de encontrar pontes entre cérebro e mente, porém, nunca desapareceu.

Mais de um século depois, os avanços tecnológicos permitiram observar regiões profundas do cérebro com uma precisão que Freud jamais poderia imaginar. Ainda assim, permanece uma pergunta que atravessa toda a história da psicanálise: mesmo que descubramos os mecanismos da consciência, isso será suficiente para explicar a experiência humana?
A resposta provavelmente é não.
O aspecto que mais chama a atenção no estudo é o fato de que o mesmo padrão neural aparece tanto durante a vigília quanto durante o sono REM. Em outras palavras, o cérebro parece utilizar uma atividade semelhante quando estamos observando o mundo ao nosso redor e quando estamos imersos em sonhos vívidos.
Essa observação dialoga de maneira surpreendente com uma das intuições mais famosas da psicanálise. Desde A Interpretação dos Sonhos, Freud argumentava que o sonho não representa um desligamento da mente, mas uma forma diferente de atividade psíquica. Enquanto dormimos, desejos, conflitos, fantasias e lembranças continuam operando, embora submetidos a regras distintas das que organizam a vida desperta.
Naturalmente, o estudo não comprova a teoria freudiana dos sonhos. Seria um erro intelectual transformar uma descoberta neurocientífica em validação automática de uma teoria psicológica. Ainda assim, existe algo fascinante na ideia de que o cérebro mantém uma assinatura associada à consciência justamente nos momentos em que estamos sonhando. De certa forma, a pesquisa reforça a noção de que o sonho está longe de ser um simples estado passivo ou um desligamento temporário da mente.
Ao mesmo tempo, a descoberta também evidencia os limites de qualquer explicação puramente biológica da experiência humana.
Um neurocientista pode identificar os circuitos envolvidos na consciência, mas isso não explica por que uma pessoa sonha repetidamente com alguém que perdeu décadas atrás. Não explica por que certos traumas insistem em retornar. Não explica por que algumas relações amorosas parecem reproduzir o mesmo roteiro ao longo de uma vida inteira. Não explica por que indivíduos diferentes atribuem significados radicalmente distintos a experiências semelhantes.
É justamente nesse ponto que a psicanálise continua encontrando seu espaço.
Enquanto a neurociência procura compreender os mecanismos que tornam possível a consciência, a psicanálise se dedica a investigar os significados produzidos por essa consciência e, sobretudo, por tudo aquilo que permanece fora dela. Afinal, desde Freud sabemos que grande parte da vida psíquica opera em territórios que escapam ao controle consciente. O sujeito não coincide inteiramente com aquilo que sabe sobre si mesmo. Existem desejos, conflitos, medos e fantasias que continuam atuando mesmo quando não são reconhecidos.

Essa talvez seja a provocação mais interessante que o estudo oferece para os psicanalistas. Afinal, se os pesquisadores realmente encontraram uma assinatura biológica da consciência, o que fazer com tudo aquilo que não se reduz à consciência? O que fazer com o inconsciente, com os sintomas, com os atos falhos, com as repetições aparentemente irracionais que organizam tantas escolhas humanas? A descoberta do ritmo cerebral não elimina essas questões. Na verdade, pode até torná-las mais evidentes.
Existe uma tendência contemporânea de apresentar neurociência e psicanálise como disciplinas rivais, envolvidas em uma disputa sobre quem possui a verdadeira explicação da mente humana. Talvez essa oposição seja menos produtiva do que parece. Afinal, ambas continuam investigando o mesmo objeto a partir de perspectivas distintas.
A neurociência tenta compreender como a experiência consciente emerge do cérebro. A psicanálise procura compreender como essa experiência ganha significado dentro da história singular de cada sujeito. Nenhuma das duas perguntas invalida a outra. Ao contrário, elas parecem se tornar cada vez mais necessárias à medida que avançamos na compreensão do cérebro.
O estudo pode ter encontrado um dos interruptores da consciência. A pergunta sobre o que fazemos com ela, porém, continua aberta. E talvez seja por isso que Shakespeare siga tão atual mais de quatro séculos depois: há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia. A neurociência acaba de iluminar mais um canto da mente humana. O que permanece nas sombras continua sendo igualmente fascinante.
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