Marilyn Monroe é certamente uma das maiores estrelas da história do cinema, mas talvez sua atemporalidade permita dizer algo ainda mais raro: que ela tenha se tornado a figura definitiva da própria mitologia de Hollywood. Não se trata apenas de discutir talento, prêmios ou performances — embora sua carreira frequentemente tenha sido subestimada por décadas —, mas de entender a dimensão simbólica que Marilyn alcançou dentro da cultura popular.
Mais de 60 anos depois de sua morte, ela continua sendo um dos rostos mais reconhecíveis do planeta em qualquer geração, idioma ou país. Pouquíssimos artistas sobreviveram de forma tão absoluta às transformações do tempo, da indústria e até do próprio sistema de estúdios que os criou. Marilyn ultrapassou o cinema. Tornou-se linguagem visual, referência estética, fantasia coletiva e projeção emocional de Hollywood para o mundo.


Talvez por isso seu centenário não pareça apenas uma celebração nostálgica, mas quase um reencontro inevitável com uma imagem que o imaginário popular nunca conseguiu abandonar completamente. E é justamente essa Marilyn — mais complexa, estratégica e consciente da própria construção como ícone — que a nova exposição Marilyn Monroe: Hollywood Icon, inaugurada pelo Museu da Academia em Los Angeles, tenta revisitar.
Apesar de inúmeros filmes, livros, documentários sobre sua curta vida de apenas 36 anos, tanto Marilyn Monroe quanto Norma Jeane ainda são um mistério, frequentemente mal interpretado e ainda incompreendido. E a exposição do Museu da Academia propõe justamente nos ajudar a vê-la como uma mulher que construiu, negociou e administrou a própria persona dentro do sistema mais rígido da história do cinema.
Marilyn Monroe: Hollywood Icon celebra Marilyn como atriz visionária e criadora da própria imagem e examina as muitas formas pelas quais ela construiu e moldou sua persona pública dentro do sistema clássico dos estúdios de Hollywood, através de centenas de objetos originais, incluindo pôsteres, retratos, fotografias, documentos de produção, cartas e materiais pessoais raramente vistos, muitos deles exibidos pela primeira vez. Também reúne uma ampla seleção de figurinos usados por ela em cena, de um vestido de Love Happy (1949) a peças de seu último filme, inacabado, Something’s Got to Give (1962). Entre os destaques estão dois figurinos de Orry-Kelly para Some Like It Hot (1959) e o célebre vestido rosa criado por William Travilla para Gentlemen Prefer Blondes (1953), raramente exibido.


A mostra tem curadoria de Sophia Serrano, curadora associada do Museu da Academia, com apoio da curadora assistente Simran Bhalla, que conversou com a CLAUDIA sobre a tentativa de revisitar Marilyn para além do mito. Na entrevista, Bhalla fala sobre a inteligência estratégica da atriz, sua relação obsessiva com fotografia, figurino e construção de imagem, além do desejo da exposição de apresentar Marilyn não apenas como símbolo sexual ou vítima da fama, mas como uma artista profundamente consciente da própria carreira e uma das primeiras mulheres de Hollywood a lutar por autonomia criativa dentro da indústria.
CLAUDIA: A exposição enfatiza que Marilyn não era apenas uma estrela de cinema, mas uma atriz visionária, uma criadora de imagem. Por que é importante enquadrá-la dessa maneira em 2026, o centenário de seu nascimento?
Simran Bhalla: Como o Museu da Academia é focado em cinema, nós realmente queríamos destacar a carreira cinematográfica de Marilyn Monroe e suas contribuições para a história do cinema. E quando nós, Sophia Serrano, que é a curadora principal da exposição, e eu começamos a pesquisar e olhar mais profundamente para ela, para a forma como construiu sua carreira, percebemos que, mesmo estando em um sistema de estúdio hollywoodiano muito restritivo, Marilyn ainda conseguiu abrir um caminho para si mesma e moldar sua carreira até certo ponto.
E acho que é uma história importante de ser contada porque desfaz alguns dos mitos sobre ela, que a transformam naquela “loira burra” que interpretava em alguns filmes. E isso não é verdade.
A verdade era muito mais complexa, e ela era uma figura realmente interessante e trabalhou incrivelmente duro para construir a carreira que teve. E sua prática constante e esforço como atriz realmente aparecem quando você assiste a todos os filmes dela.


CLAUDIA: É verdade, mas às vezes ainda existe uma imagem muito estreita e estereotipada dela. E quais aspectos da inteligência de Marilyn, do controle artístico e da construção da própria imagem você sente que foram mais ignorados pela história? E o que podemos descobrir dentro dessa exposição?
Simran Bhalla: Uma grande história é que Marilyn Monroe fundou sua própria produtora chamada Marilyn Monroe Productions em 1956. E isso era relativamente incomum para mulheres e atrizes naquela época. Ela fundou a empresa junto do fotógrafo Milton Greene, que foi um de seus principais colaboradores.
Marilyn entrou na indústria como todas as estrelas da época, contratada por um estúdio. No caso dela, ela foi brevemente contratada pela Columbia, mas passou a maior parte da carreira na 20th Century Fox. E os executivos do estúdio realmente tiveram um papel em colocá-la nesses papéis de “loira burra” ou “loira fatal”, como quiser chamar, mas ela sempre quis explorar outros tipos de personagens e disse famosamente que adoraria estrelar uma adaptação de Os Irmãos Karamázov, que nunca aconteceu.
Ela era autodidata e muito culta, mas sabia que a única forma de defender a si mesma era construir essa imagem icônica ao lado de fotógrafos, figurinistas, maquiadores e outros colaboradores. E, quando conquistou fama suficiente, conseguiu fundar sua própria produtora.
Eles produziram ou coproduziram O Príncipe Encantado (The Prince and the Showgirl), filmado no Reino Unido com Laurence Olivier. E depois, mesmo quando os filmes posteriores não eram feitos pela produtora dela, Marilyn usou a autonomia conquistada para negociar contratos em que pudesse escolher com quais diretores e diretores de fotografia trabalharia.
Então contamos essa história. Falamos das colaborações dela na construção da própria imagem através dos figurinos, maquiagem, objetos, fotografias. Ela tinha uma grande participação na escolha das fotos que seriam publicadas.
E também falamos da produtora através de materiais originais, incluindo contratos, sua cadeira de diretora e roteiros anotados por ela. Então temos muitos tipos diferentes de objetos que ajudam a desenvolver essa história.


CLAUDIA: Isso muda muito. Ela foi muito subestimada ao longo de biografias e documentários porque, como você disse, ela tinha agência, tinha intenção por trás de tudo que fazia.
Simran Bhalla: Tinha, sim. E claro que ela ainda era limitada de formas que estavam fora de seu controle. E também teve dificuldades. Mas acho que, dentro daquele sistema, ela certamente fez tudo que pôde para continuar fazendo filmes interessantes e performances interessantes.
CLAUDIA: É verdade. E dá para argumentar — eu penso muito nisso — que ela ainda é uma grande estrela através de diferentes gerações. Da minha avó, enquanto era viva, até mim, e novas gerações ainda continuam se apaixonando por Marilyn. E muito disso vem do que ela sabia fazer, como as fotografias e tudo mais. Então isso se conecta à exposição. Houve algo particularmente surpreendente para você nesse processo? Desculpe perguntar: Quando você descobriu Marilyn? Você parece ser muito jovem!
Simran Bhalla: (risos) Isso é muito gentil. É engraçado, você não é a primeira entrevistadora que pergunta isso. Acho que as pessoas se interessam pela relação de diferentes gerações com Marilyn Monroe.E acho que, como você disse, toda geração descobre Marilyn. Uma das coisas que queríamos abordar é que a imagem dela circula tanto que todo mundo reconhece o rosto de Marilyn Monroe. Muitas pessoas fazem referência a ela na cultura pop, artistas usam sua imagem, suas fotografias continuam circulando.
Então queríamos mergulhar em como ela construiu essa imagem tão consistente, reconhecível e icônica, e qual foi o papel dela nisso.
E também queríamos mergulhar nos filmes porque sentimos que as pessoas conhecem a imagem, mas hoje não conhecem tão bem os filmes dela. Talvez tenham visto um ou dois, mas há muito a se apreciar em sua carreira cinematográfica.


CLAUDIA: Você tem um favorito?
Simran Bhalla: Tenho. Meu favorito provavelmente ainda é Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot), que é um dos mais conhecidos. Mas pesquisando para essa exposição eu me apaixonei completamente por um noir menos conhecido do início da carreira dela chamado Almas Desesperadas (Don’t Bother to Knock), no qual ela entrega uma performance incrível.
CLAUDIA: Sim, uma performance incrível. Muito ignorada pela Academia, de certa forma. O meu acho que é Niagara.
Simran Bhalla: Sim, eu ia dizer que ela realmente faz um trabalho fantástico nele em um papel noir de femme fatale. E isso acabou sendo ignorado com o tempo. Mas nós realmente amamos esses primeiros filmes e tivemos sorte de poder destacá-los na exposição.

CLAUDIA: Voltando aos objetos e tudo mais. O vestido rosa de Os Homens Preferem as Loiras está na exposição e é tão icônico. Você tem alguma teoria sobre por que ele é tão poderoso?
Simran Bhalla: Essa é uma ótima pergunta. Aquele não era originalmente o figurino planejado para “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Havia um figurino muito mais ousado que o figurinista William Travilla havia criado. Era feito de tela e strass, e nós temos uma peça desse figurino original em exibição também.
Mas durante as filmagens de Os Homens Preferem as Loiras, a imprensa descobriu que alguns anos antes Marilyn, ainda tentando se firmar como atriz, havia posado nua para um fotógrafo. Naqueles dias, essas imagens circulavam em calendários e coisas do tipo.
E o estúdio disse: “Não queremos ela usando nada escandaloso. Queremos algo mais modesto.” Então, no último minuto, Travilla criou o vestido rosa.
Mas aquilo virou uma sensação enorme. Acho que foi uma combinação da genialidade dele, do fato de Marilyn ser perfeita para aquele vestido, da coreografia e do design do cenário daquela sequência. Todos esses fatores se uniram para tornar o vestido tão famoso quanto se tornou.
CLAUDIA: É perfeição. É um daqueles momentos da história do cinema que são perfeitos. E funciona toda vez. Não importa. Você para e olha. E ela está linda nele. Então muito do legado de Marilyn existe em fragmentos, projetos inacabados e narrativas conflitantes. Como é recuperar a pessoa por trás de uma das imagens mais reproduzidas do século 20? Porque sentimos que sabemos tanto sobre ela, vimos tudo, mas ela ainda é um mistério. Como foi montar esse quebra-cabeça?
Simran Bhalla: Acho que no fim das contas sabemos que nunca é possível conhecer completamente uma figura como Marilyn Monroe.
O foco da exposição é realmente falar sobre sua carreira e seus filmes. Falamos um pouco sobre Norma Jeane e sobre a vida pessoal de Marilyn nos bastidores, mas tudo isso faz parte da história de como ela construiu sua carreira cinematográfica.
Por exemplo, temos objetos da infância dela. Ela colecionava cartões de cigarro nos anos 1930. Crianças colecionavam esses cartões que tinham imagens de estrelas de cinema e pequenas biografias.
Marilyn tinha um álbum desses cartões, incluindo artistas que idolatrava, como Bette Davis, com quem depois viria a atuar. Isso mostra como, desde muito jovem, ela amava Hollywood, amava filmes e idolatrava outras estrelas femininas, como Jean Harlow e Marlene Dietrich. Ela modelou parte do visual a partir delas.
Então usamos essas histórias de bastidores para construir um retrato maior da persona cinematográfica dela.


CLAUDIA: Pensando na geração TikTok e nas redes sociais, o que você espera que as pessoas levem dessa exposição sobre Marilyn?
Simran Bhalla: Essa é uma ótima pergunta. Acho que diferentes partes da exposição vão atrair diferentes pessoas.
Espero que as pessoas saiam da exposição interessadas em assistir aos filmes dela e descobrir mais do que conheciam antes de entrar.
Acho também que muita gente vai ficar fascinada pelos figurinos, pelo nível de habilidade necessário para construí-los e pela forma como Marilyn colaborava com figurinistas para decidir o visual de cada filme.
Também temos maquiagens que pertenceram a ela e falamos um pouco sobre como ela e seu maquiador Alan Snyder desenvolveram aquele visual icônico de Marilyn. Acho que gerações mais jovens vão se interessar bastante por isso.
CLAUDIA: Ela passou a carreira inteira tentando ser levada a sério. Uma das frases que mais me marca é quando ela diz na última entrevista: “Please don’t make me look like a joke.” Ela realmente queria ser levada a sério. Você acha que hoje a indústria finalmente alcançou isso? Que está pronta para olhar para ela de forma mais séria e não apenas explorá-la?
Simran Bhalla: Eu espero que sim. Acho que esperamos ter feito justiça a ela e que nossa admiração e respeito apareçam na exposição.
Não sei se posso falar pelo resto do mundo, mas acho que as pessoas estão reconsiderando Marilyn e percebendo que ela era muito talentosa e muito inteligente.


CLAUDIA: Depois de passar tanto tempo imersa nos arquivos e na história pessoal de Marilyn, o que você acha que as pessoas ainda entendem errado sobre ela?
Simran Bhalla: Acho que, embora ela fosse uma atriz séria e talentosa, também era verdade que ela era um símbolo sexual e abraçava sua sexualidade.
Na época isso parecia uma contradição para o público. Mas hoje conseguimos perceber que ela era extremamente inteligente na forma como administrava sua imagem como sex symbol e, ao mesmo tempo, aspirava ser levada a sério como atriz.
E acho que devemos respeitar essas duas coisas.
CLAUDIA: E o que você leva pessoalmente dessa experiência?
Simran Bhalla:
Foi fascinante remover as camadas de alguém que eu também entendia principalmente como um ícone, mas não necessariamente como uma profissional da indústria, alguém cujo trabalho era sua vida.
Olhar além dos papéis famosos e da imagem famosa para ver tudo que ela fez na carreira, incluindo esse incrível corpo fotográfico que ajudou a desenvolver.
Talvez eu tivesse apenas uma noção vaga disso antes, mas agora, depois de mergulhar nesse universo, tenho muita admiração por ela.


CLAUDIA: Então a exposição abriu no dia 31 de maio? Qual a programação no aniversário dela, 1º de junho?
Simran Bhalla: Teremos dois eventos. Um deles é um lançamento de livro de Joshua Miller e Mark Fortin. Eles escreveram juntos um livro sobre a relação de Marilyn Monroe com o fotógrafo Bruno Bernard, também conhecido como Bernard of Hollywood. Joshua Miller é neto de Bruno Bernard e também produtor e ator.
Depois haverá uma conversa deles com a jornalista Nancy Jo Sales e o ator Jack Huston, seguida de uma sessão de The Asphalt Jungle, considerado um dos papéis de estreia mais importantes de Marilyn.
E no dia 31 o museu exibirá Os Homens Preferem as Loiras. Mas além dos figurinos e retratos incríveis, temos uma galeria dedicada à publicidade e à cobertura da imprensa sobre Marilyn Monroe durante sua vida, além de alguns de seus momentos públicos mais marcantes.
Temos pequenas seções sobre “Happy Birthday, Mr. President”, sobre sua turnê pela Coreia no início dos anos 1950 e sobre sua lua de mel no Japão com Joe DiMaggio.
E também temos uma seção sobre a última entrevista dela para a revista Life. Incluímos trechos do áudio dessa entrevista, fotografias da publicação e objetos da casa dela em Brentwood — a única casa que comprou e decorou sozinha, com objetos encontrados no México.
Então há um toque muito pessoal ali, como se você estivesse no espaço dela ouvindo aquela entrevista em que Marilyn se abriu para o público.
Acho que esses são elementos muito especiais também.
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