Durante décadas, os leitores de Anne Rice sabiam que esse momento chegaria. Desde a publicação de O Vampiro Lestat, em 1985, o personagem já carregava tudo aquilo que associamos às grandes estrelas do rock: carisma, excesso, teatralidade, narcisismo, sensualidade e uma necessidade quase desesperada de ser visto. Antes mesmo de pegar uma guitarra, Lestat de Lioncourt já se comportava como alguém que vivia permanentemente sob um refletor. A terceira temporada de Interview with the Vampire finalmente transforma essa ideia em realidade e faz algo que parecia impossível: leva um personagem literário para o palco como se ele fosse um artista de verdade.
Mais do que adaptar a fase rockstar do vampiro, a AMC decidiu torná-la concreta. Em vez de apenas mencionar a carreira musical de Lestat ou usar canções genéricas como pano de fundo, a produção criou músicas originais, lançou singles nas plataformas de streaming, produziu um álbum completo e colocou Sam Reid diante de uma plateia real. O resultado é uma experiência curiosa em que as fronteiras entre literatura, televisão, música e performance começam a desaparecer.

O mais fascinante é que essa não é uma invenção da série. Está tudo nos livros. Quando Anne Rice publicou O Vampiro Lestat, ela já compreendia que o personagem não poderia permanecer para sempre escondido nas sombras. Depois de séculos sendo observado pelos outros, Lestat queria contar sua própria história. Queria responder às acusações de Louis. Queria apresentar sua versão dos acontecimentos. Queria, acima de tudo, ser ouvido. A música surge justamente como a ferramenta perfeita para isso.
A decisão faz sentido porque Lestat nunca foi um vampiro tradicional. Enquanto Louis se perde em reflexões filosóficas sobre culpa, moralidade e sofrimento, Lestat sempre desejou viver intensamente. Ele quer experimentar tudo, conhecer tudo, provocar tudo. Quer ser amado e odiado na mesma medida. Quer transformar a própria existência em espetáculo. O palco não representa uma mudança de personalidade. Representa apenas a consequência natural daquilo que ele sempre foi.
Existe também um contexto histórico interessante. Quando Rice escreveu O Vampiro Lestat, os anos 1980 eram dominados por artistas que transformavam suas vidas em performances públicas. David Bowie, Prince, Freddie Mercury, Lou Reed e tantos outros mostravam que a música podia ser tão teatral quanto uma peça de teatro. Lestat encaixava-se perfeitamente nesse universo. Bonito, andrógino, provocador e emocionalmente explosivo, ele parecia um personagem criado para existir entre o glamour e a decadência do rock.
A adaptação compreendeu isso perfeitamente. Em vez de tentar transformar Lestat em um músico contemporâneo genérico, abraçou suas influências clássicas. O resultado mistura glam rock, rock alternativo, teatralidade gótica e uma energia que lembra artistas para quem identidade e performance eram inseparáveis. Não é difícil perceber ecos de Bowie, Billy Idol e Iggy Pop espalhados pelas canções da temporada.

Parte desse mérito pertence a Daniel Hart, compositor responsável pela trilha sonora da série desde a primeira temporada. Embora seu trabalho já fosse amplamente elogiado pelos fãs, a terceira temporada apresentou um desafio completamente diferente. Hart não precisava apenas compor músicas para uma produção de televisão. Precisava imaginar quais canções um vampiro francês de mais de duzentos anos escreveria caso decidisse se tornar uma estrela do rock.
Essa diferença é fundamental. As músicas da temporada não funcionam apenas como trilha sonora. Elas funcionam como capítulos da narrativa. Pela primeira vez, começamos a conhecer Lestat não através das memórias de Louis ou dos questionamentos de Daniel Molloy, mas através das próprias palavras do personagem. A música se torna uma nova forma de narração.
Canções como Long Face e All Fall Down ajudam a construir essa identidade. A primeira apresenta o lado mais debochado, provocador e performático de Lestat. É uma música que parece rir da própria condição vampírica enquanto brinca com sua imagem pública. Já All Fall Down revela uma faceta mais sombria e melancólica, lembrando que por trás do espetáculo ainda existe um homem condenado à solidão, à perda e ao peso dos séculos.
Talvez a escolha mais divertida seja o cover de Dancing With Myself, clássico de Billy Idol. A canção parece ter sido escrita para Lestat décadas antes de Anne Rice colocá-lo nos palcos. Afinal, estamos falando de uma música sobre desejo, isolamento, narcisismo e performance. Poucos personagens da cultura pop combinam tanto com esses temas. O resultado é tão natural que em certos momentos parece menos uma reinterpretação e mais uma música que simplesmente sempre pertenceu a ele.

Se Daniel Hart precisava criar a voz musical de Lestat, Sam Reid precisava se transformar nela. E esse talvez tenha sido o aspecto mais arriscado de toda a produção. Diferentemente de Jacob Anderson, que já possuía experiência como músico sob o nome Raleigh Ritchie, Reid construiu sua carreira exclusivamente como ator. Quando surgiu a notícia de que ele próprio interpretaria as canções da temporada, muitos fãs ficaram curiosos para descobrir se conseguiria sustentar a proposta.
A resposta veio rapidamente. Reid não apenas abraçou o desafio como parece ter compreendido algo essencial sobre o personagem. Em vez de tentar cantar como um astro do rock convencional, procurou entender como Lestat se apresentaria diante de uma multidão. O resultado é uma performance que mistura arrogância, vulnerabilidade, charme e exagero, exatamente como o vampiro criado por Anne Rice.
Essa transformação ficou ainda mais evidente durante o espetáculo especial realizado no Beacon Theatre, em Nova York, para celebrar a chegada da temporada. O evento reuniu milhares de fãs, apresentações musicais e uma prévia do novo ano da série. Mais do que uma ação promocional, o show funcionou como uma demonstração de confiança da AMC em seu projeto. Poucas produções se arriscariam a colocar um personagem fictício diante de uma plateia real antes mesmo da temporada estrear.

O mais curioso é que funcionou. Os relatos dos fãs mostram uma reação próxima daquela normalmente reservada a artistas musicais de verdade. Pessoas cantando as músicas, discutindo letras, analisando referências e tratando Lestat como uma estrela em atividade. Em determinados momentos, a separação entre Sam Reid e o vampiro praticamente desapareceu.
Talvez esse seja o maior triunfo da terceira temporada. Durante quarenta anos, a ideia de um Lestat rockstar parecia uma das excentricidades mais deliciosamente absurdas de Anne Rice. Funcionava perfeitamente nos livros, mas parecia difícil de transportar para outra mídia sem cair na caricatura. A série encontrou uma solução elegante: levou a ideia a sério.
E talvez seja justamente por isso que os fãs estejam respondendo de forma tão apaixonada. Eles não estão apenas ouvindo músicas inspiradas em um personagem. Estão testemunhando a realização de uma fantasia literária que existe desde 1985. Depois de séculos escondido nas sombras, Lestat finalmente está sob os refletores. E olhando para a reação do público, parece que esse sempre foi o lugar onde ele deveria estar.
P.S.: Você já segue o artista The Vampire Lestat no Spotify? Claro que estou!
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