O que a música que você ouve diz sobre você?

O que você escuta quando está sozinho? Não é a música que toca no elevador, no supermercado ou durante uma corrida na esteira, mas aquela canção que você procura quando está feliz, triste, apaixonado, nostálgico ou simplesmente tentando entender o que está sentindo. Talvez essa pergunta revele mais sobre uma pessoa do que imaginamos.

Vivemos em uma época em que a música está em toda parte. Ela nos acompanha enquanto trabalhamos, caminhamos, dirigimos, estudamos, cozinhamos ou tentamos dormir. Criamos playlists para viagens, para términos de relacionamentos, para momentos de concentração e para celebrações. Algumas dessas músicas desaparecem rapidamente de nossas vidas, mas outras permanecem conosco durante décadas. Elas sobrevivem a mudanças de cidade, de emprego, de relacionamentos e até mesmo de identidade. Continuam ali porque parecem guardar algo que vai além do gosto musical.

A psicanálise oferece uma pista interessante para compreender esse fenômeno. Ela sugere que nossa relação com a música não é apenas estética. Também é emocional, afetiva e profundamente ligada ao inconsciente. Freud escreveu relativamente pouco sobre música, mas deixou uma observação reveladora ao admitir que frequentemente se sentia emocionado por determinadas composições sem conseguir explicar racionalmente por quê. Para alguém que dedicou a vida a investigar os mecanismos ocultos da mente, havia algo intrigante na experiência de ser atravessado por uma emoção cuja origem não podia ser totalmente traduzida em palavras.

Talvez isso aconteça porque a música alcança regiões da experiência psíquica que existem antes mesmo da linguagem. Antes de aprendermos a falar, já respondemos a ritmos, pausas, vozes e melodias. O bebê não compreende o significado das palavras que escuta, mas reconhece a musicalidade da voz de quem cuida dele. Existe uma experiência sonora do mundo que antecede a fala e que continua nos acompanhando ao longo da vida. É por isso que uma música pode nos emocionar mesmo quando não entendemos sua letra ou sequer falamos o idioma em que ela foi composta.

Jacques Lacan desenvolveu uma reflexão que ajuda a compreender esse processo. Para ele, a voz possui um efeito que ultrapassa o significado das palavras. O timbre, o ritmo e a sonoridade carregam algo capaz de tocar diretamente o sujeito. Em muitos casos, aquilo que nos afeta em uma canção não é exatamente o que ela diz, mas a forma como ela ressoa dentro de nós. Talvez seja por isso que determinadas músicas pareçam nos escolher em vez de serem simplesmente escolhidas por nós.

Essa relação se torna ainda mais evidente quando pensamos na maneira como a música se conecta à memória. Existem canções capazes de nos transportar instantaneamente para momentos específicos da vida. Ao ouvir os primeiros acordes, voltamos para uma viagem de infância, um namoro da juventude, uma noite inesquecível com amigos ou um período particularmente difícil. Não se trata apenas de lembrar o que aconteceu. Muitas vezes somos tomados pelas emoções que acompanhavam aquelas experiências, como se elas permanecessem preservadas em algum lugar à espera de serem despertadas.

Foi justamente essa ideia que me fez pensar em Greatest Hits, filme lançado em 2024. Na trama, Harriet, interpretada por Lucy Boynton, descobre que determinadas músicas funcionam literalmente como portais temporais. Sempre que escuta certas canções, ela retorna a momentos específicos de seu relacionamento com Max, o namorado que morreu dois anos antes. A partir dessa descoberta, passa a revisitar essas lembranças repetidamente na esperança de encontrar uma forma de mudar os acontecimentos e impedir a tragédia.

O que torna o filme interessante não é a fantasia em si, mas o fato de que ela transforma em realidade narrativa uma experiência emocional que todos conhecemos. Quem nunca ouviu uma música e sentiu que estava sendo transportado para outro tempo? Quem nunca foi surpreendido por uma canção que trouxe de volta uma pessoa, uma fase da vida ou uma versão antiga de si mesmo que parecia esquecida? O filme apenas leva às últimas consequências algo que fazemos o tempo inteiro. A música talvez não abra portais temporais, mas certamente abre portais psíquicos.

A leitura psicanalítica de Greatest Hits se torna ainda mais rica quando percebemos que Harriet não parece estar tentando salvar apenas Max. Em muitos momentos, a sensação é de que ela tenta preservar a si mesma antes da perda. Quando alguém morre ou quando um relacionamento termina, não perdemos apenas a outra pessoa. Também perdemos projetos, expectativas e futuros imaginados. Uma parte importante do luto consiste justamente em aceitar que determinadas possibilidades deixaram de existir. Harriet permanece retornando ao passado porque, de certa forma, ainda tenta negociar com essa realidade.

Essa ideia dialoga diretamente com um dos conceitos mais conhecidos de Freud: a repetição. O psicanalista observou que frequentemente revisitamos experiências não porque elas nos dão prazer, mas porque ainda estamos tentando compreendê-las ou elaborá-las. Nem toda repetição é agradável. Muitas vezes ela representa um esforço inconsciente para organizar algo que permanece aberto dentro de nós. Talvez seja por isso que tantas pessoas escutam a mesma música dezenas de vezes após um término amoroso, uma perda ou uma grande decepção. Do lado de fora, pode parecer apenas insistência ou apego. Do lado de dentro, porém, existe frequentemente uma tentativa de dar forma a sentimentos que ainda não encontraram uma linguagem adequada.

Nesse sentido, a música triste não cria a tristeza. Ela oferece uma maneira de habitá-la. Ela organiza emoções dispersas, dá contornos a experiências difíceis e transforma algo caótico em narrativa. Talvez seja por isso que artistas como Leonard Cohen, Françoise Hardy, ou The Cure continuem encontrando ouvintes em diferentes gerações. Eles não prometem soluções para o sofrimento nem oferecem respostas fáceis. O que fazem é algo mais raro: transformam a dor em algo compartilhável.

Erich Fromm provavelmente enxergaria nesse fenômeno algo ainda mais profundo. Ao longo de sua obra, ele argumentou que boa parte do sofrimento humano nasce de conflitos universais ligados ao amor, à solidão, ao pertencimento e ao medo da separação. Talvez seja por isso que determinadas músicas atravessem gerações e contextos tão diferentes. Quando uma canção fala de perda, desejo, abandono ou esperança, ela não está abordando apenas a história particular de quem a compôs. Está tocando questões que fazem parte da experiência humana. A música nos emociona porque frequentemente encontramos nela não apenas nossas próprias histórias, mas também dilemas compartilhados por praticamente todas as pessoas.

Donald Winnicott acrescentaria outra camada a essa discussão ao afirmar que a arte ocupa um espaço intermediário entre a realidade externa e o mundo interno. Trata-se de uma área onde podemos experimentar emoções intensas de maneira relativamente segura, sem que precisemos agir sobre elas. A música permite justamente isso. Ela nos oferece a possibilidade de reviver uma saudade, revisitar um amor, entrar em contato com uma perda ou até imaginar uma vida diferente da nossa sem que precisemos transformar essas experiências em ações concretas. Durante alguns minutos, habitamos um território emocional que existe entre a fantasia e a realidade.

Essa dinâmica se torna especialmente evidente na adolescência, período em que muitos dos nossos vínculos musicais mais duradouros são formados. Não é coincidência que tantas pessoas permaneçam profundamente ligadas aos artistas que descobriram aos quinze ou dezesseis anos. A adolescência é também o momento em que tentamos responder à pergunta sobre quem somos e quem gostaríamos de ser. Os artistas que nos acompanham nessa fase frequentemente acabam incorporados à própria construção da identidade. Quando alguém critica uma banda ou um cantor que marcou nossa juventude, a reação costuma ser desproporcional justamente porque não sentimos que estão criticando apenas uma obra. Parece que estão questionando uma parte da nossa própria história.

As plataformas digitais transformaram essa relação em algo ainda mais curioso. Hoje os algoritmos sabem quais músicas ouvimos, quantas vezes repetimos determinada faixa e até quais canções escolhemos em diferentes horários do dia. Eles conseguem mapear padrões de comportamento com impressionante precisão. O que continuam incapazes de explicar é por que uma determinada música nos emociona, por que uma voz específica nos acompanha por décadas ou por que certas canções permanecem vivas dentro de nós muito depois de terem desaparecido das paradas de sucesso.

Talvez a psicanálise não ofereça respostas definitivas para essas perguntas, e talvez esse nem seja seu objetivo. Seu interesse está justamente no espaço de mistério que existe entre a música e quem a escuta. Quando ouvimos uma canção, raramente estamos lidando apenas com uma sequência de sons. Frequentemente estamos entrando em contato com memórias, fantasias, perdas, desejos e experiências que permanecem vivas dentro de nós, mesmo quando acreditamos que já ficaram para trás.

Talvez seja por isso que uma playlist possa funcionar como um diário emocional mais honesto do que muitas autobiografias. Ela registra não apenas quem fomos, mas também quem desejávamos ser, quem perdemos pelo caminho e aquilo que continuamos procurando ao longo da vida. No fim das contas, poucas coisas revelam tanto sobre uma pessoa quanto a música que ela escolhe ouvir quando ninguém está olhando.


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