The Lady: quando o true crime encontra a Família Real britânica

Quando comecei a escrever sobre Jane Andrews há alguns anos, a história me pareceu tão absurda que quase soava como ficção. Uma jovem de origem humilde consegue emprego ao lado de Sarah Ferguson, passa a circular pelos palácios, conhece Diana, viaja pelo mundo e se torna uma das pessoas mais próximas da então Duquesa de York. Anos depois, é presa e condenada pelo assassinato do próprio namorado. São exatamente essas contradições que fazem de The Lady uma das estreias mais curiosas do ano.

A minissérie de quatro episódios, produzida pela Left Bank Pictures — a mesma de The Crown — estreou no ITVX no Reino Unido e chegou internacionalmente pela MGM+. Até agora, apenas dois episódios foram disponibilizados, mas já é possível entender por que a produção despertou tanto interesse na imprensa britânica. Não se trata apenas de um true crime nem apenas de uma história ligada à Família Real. É uma mistura improvável das duas coisas e, mais surpreendente ainda, uma combinação que funciona.

A série acompanha Jane Andrews, interpretada por Mia McKenna-Bruce, vencedora do BAFTA Rising Star por How to Have Sex. A atriz assume um desafio enorme porque interpreta uma personagem que, dependendo de quem conta a história, pode ser vista como vítima, manipuladora, sobrevivente, assassina ou tudo isso ao mesmo tempo. Ao lado dela, Natalie Dormer interpreta Sarah Ferguson, enquanto Ed Speleers vive Thomas Cressman, o homem cuja morte transformaria Jane em uma das criminosas mais conhecidas do Reino Unido.

Nascida em Grimsby, no norte da Inglaterra, Jane cresceu em um ambiente familiar marcado por dificuldades financeiras, transtornos alimentares, depressão e relacionamentos problemáticos. Aos 21 anos, respondeu a um anúncio de emprego publicado na revista The Lady sem imaginar que a vaga era para trabalhar diretamente com Sarah Ferguson. Em poucos meses, estava vivendo uma realidade completamente diferente daquela que conhecia. Jane passou quase uma década ao lado da Duquesa de York, acompanhando viagens, organizando compromissos, participando da rotina familiar e convivendo com figuras centrais da monarquia britânica. Era tão próxima de Ferguson que recebeu dela o apelido de “Lady Jane”, referência que décadas depois acabaria dando nome à série.

Foi uma ascensão social extraordinária para alguém sem títulos, fortuna ou conexões aristocráticas. Mas os dois primeiros episódios sugerem que essa transformação teve um custo emocional alto. O grande acerto da série é perceber que o interesse da história não está propriamente no assassinato, mas na mulher que existia antes dele. Em vez de apresentar Jane como uma bomba-relógio esperando para explodir, The Lady investe em sua vulnerabilidade, em sua necessidade constante de aprovação e em sua busca quase desesperada por pertencimento. Mia McKenna-Bruce constrói essa fragilidade de forma impressionante e transforma Jane em uma personagem que desperta empatia mesmo quando o espectador conhece o destino que a espera.

Talvez seja justamente por isso que a série seja tão envolvente. O público já sabe que a história terminará em tragédia. O suspense não está no desfecho, mas no percurso. A cada episódio, cresce a sensação de que estamos observando alguém emocionalmente muito mais frágil do que aqueles ao seu redor eram capazes de perceber na época. Os transtornos alimentares, a ansiedade, os relacionamentos destrutivos e a dificuldade de lidar com rejeições aparecem não como justificativas para o que aconteceu, mas como parte de um quadro muito mais complexo do que as manchetes permitiam enxergar.

A produção também impressiona pela reconstituição de época. Não apenas pelos figurinos e locações, mas pela capacidade de recriar uma Inglaterra em que a Família Real ainda parecia um universo distante e quase mágico para quem estava fora dele. Natalie Dormer entende bem esse equilíbrio ao interpretar Sarah Ferguson. Sua Fergie é divertida, impulsiva, calorosa e, por vezes, imprudente, mas a série evita transformá-la em vilã. Curiosamente, esta talvez seja uma das raras histórias envolvendo os York em que Sarah Ferguson surge como praticamente inocente. Sim, ela permitiu que Jane se tornasse uma presença constante em seu círculo íntimo e ajudou a alimentar a fantasia de pertencimento que a ex-assistente desenvolveu. Ainda assim, nada sugere que pudesse prever os acontecimentos que viriam anos depois.

Esses acontecimentos acabaram transformando Jane Andrews em manchete internacional. Em setembro de 2000, após meses de conflitos e discussões sobre o futuro do relacionamento, Thomas Cressman foi atacado enquanto dormia. Segundo a acusação apresentada no julgamento, Jane utilizou um taco de críquete e depois uma faca para matá-lo antes de fugir. Localizada dias depois, ela foi julgada e condenada por assassinato em 2001. A defesa argumentou que sofria de graves problemas psicológicos e vivia uma relação marcada por comportamento coercitivo e abusivo. A promotoria sustentou uma leitura diferente, apresentando Jane como uma mulher incapaz de aceitar o fim de um relacionamento que simbolizava sua permanência em um mundo do qual sempre quis fazer parte.

O mérito da série é não tentar resolver essa discussão de forma simplista. Em vez de buscar uma absolvição simbólica ou uma nova condenação moral, The Lady parece interessada em compreender quem era Jane Andrews antes de ela se tornar um nome associado a um crime. Essa escolha torna os dois primeiros episódios particularmente fortes e ajuda a explicar por que tantas críticas destacaram a atuação de Mia McKenna-Bruce como o coração da produção.

Visualmente elegante, muito bem interpretada e apoiada por uma excelente reconstrução histórica, The Lady consegue transformar um caso amplamente conhecido no Reino Unido em algo que parece novo. Também realiza uma combinação que eu jamais imaginei encontrar funcionando tão bem: uma série para fãs de true crime e para quem acompanha a Família Real britânica. São dois universos que raramente se cruzam e que, aqui, acabam produzindo uma história tão fascinante quanto bizarra.

Ainda faltam dois episódios para concluir a trajetória de Jane Andrews, mas a impressão deixada até agora é extremamente positiva. Se conseguir manter o equilíbrio entre estudo psicológico, drama humano e reconstrução histórica que marcou sua primeira metade, The Lady tem tudo para se tornar uma das minisséries britânicas mais interessantes do ano. E, depois desses dois primeiros episódios, confesso que estou bastante curiosa para descobrir como a produção pretende encerrar uma história cujo final já conhecemos, mas cujos mistérios continuam despertando debates mais de duas décadas depois.


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