Madonna transforma Confessions II em um filme de 13 minutos e lembra por que ainda é única

Se alguém ainda tinha dúvidas de que Madonna encararia Confessions II como um evento e não apenas como um álbum, os 13 minutos de Confessions II: The Film acabaram de responder à pergunta.

O curta, dirigido pela dupla TORSO (David Toro e Solomon Chase), não funciona como um simples vídeo musical expandido. Tampouco é um “visual album” convencional. O que Madonna entrega é uma espécie de manifesto visual, um desfile de referências à própria carreira, à cultura pop, à moda, à fama, ao desejo e à obsessão por celebridades. Tudo embalado pela sonoridade eletrônica que fez de Confessions on a Dance Floor um dos discos mais importantes de sua carreira.

O resultado é tão excessivo quanto fascinante.

Madonna sempre entendeu algo que muitos artistas esquecem: quando você é uma figura cultural há mais de quatro décadas, sua própria imagem se torna matéria-prima. Em vez de fugir disso, ela transforma sua mitologia em narrativa.

O filme costura as seis primeiras faixas do álbum em uma única experiência contínua, sem interrupções claras entre as músicas. As cenas surgem como sonhos conectados por uma lógica emocional mais do que narrativa. Há paparazzi transformados em forças paramilitares, encontros em banheiros, pistas de dança, acidentes, performances aéreas, florestas surreais, lasers e imagens que parecem saídas diretamente do subconsciente coletivo da cultura pop.

Mas talvez a grande diversão esteja nos easter eggs.

Assim como o álbum original de 2005 dialogava com a história da disco music, Confessions II parece dialogar com a própria história de Madonna. Há ecos de Like a Virgin, referências a Deeper and Deeper, lembranças da Nova York dos anos 1980 e até uma sensação constante de que estamos percorrendo diferentes versões da artista ao longo das décadas.

E então vêm as participações.

Madonna reuniu um elenco improvável e deliciosamente caótico que mistura moda, música, cinema, televisão, futebol e família. O filme traz Arca, Benedict Cumberbatch, Cole Palmer, Debi Mazar, Gwendoline Christie, Honey Dijon, João Pedro, Kate Moss, Odessa A’zion, Richard E. Grant, Shygirl, Lourdes Leon, Archie Madekwe e Julia Garner, além de participações ligadas às novas músicas do álbum.

A escolha das presenças parece menos aleatória do que parece à primeira vista.

Kate Moss simboliza a conexão histórica de Madonna com a moda. Debi Mazar funciona quase como um elo vivo com a Nova York que as duas compartilharam antes da fama. Arca e Shygirl representam uma geração de artistas experimentais que herdou parte da liberdade criativa que Madonna ajudou a normalizar. Já Benedict Cumberbatch, Gwendoline Christie e Richard E. Grant trazem uma estranheza teatral que combina perfeitamente com o universo exagerado do filme.

Há ainda um elemento particularmente interessante: Julia Garner.

Escalada há anos para interpretar Madonna na cinebiografia da cantora, Garner aparece no curta em um momento simbólico no qual a própria Madonna se transforma nela. É um gesto visual inteligente. Ao mesmo tempo em que anuncia o próximo capítulo da cinebiografia, Madonna parece passar o bastão de sua própria narrativa para uma atriz que irá reinterpretá-la na tela.

Outro detalhe que chama atenção é a presença de Lourdes Leon.

Durante a estreia em Tribeca, Madonna revelou que mãe e filha escreveram juntas a faixa “The Test”, uma das canções mais pessoais do álbum. Lourdes também encerra o filme com uma frase final que funciona quase como uma piscadela para o público.

Visualmente, o projeto também marca mais uma aproximação da cantora com o universo da alta moda. A relação recente com Dolce & Gabbana já vinha se tornando cada vez mais evidente ao longo dos últimos meses, e o filme reforça essa estética operística, provocativa e exageradamente glamourosa que sempre fez parte do DNA de Madonna.

O mais impressionante, porém, talvez seja perceber que Madonna continua fazendo exatamente o que sempre fez melhor: provocar.

Não apenas provocar moralmente, como fazia nos anos 1980 ou 1990. Hoje ela provoca a própria ideia de envelhecimento no pop. Provoca a expectativa de que artistas veteranos devam se tornar versões domesticadas de si mesmos. Provoca a cultura da nostalgia ao revisitar Confessions sem transformá-lo em peça de museu.

Em vez disso, usa o passado como combustível.

Por isso, os 13 minutos de Confessions II: The Film acabam funcionando menos como promoção de um álbum e mais como uma declaração de princípios. Madonna não está interessada em ser uma lembrança. Ela ainda quer ocupar espaço, gerar discussão, confundir, fascinar e desafiar.

Quarenta anos depois de revolucionar a cultura pop, continua fazendo exatamente isso.


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