Matt Damon e a arte de precisar ser resgatado

Durante décadas, Matt Damon acreditou que estava interpretando soldados, astronautas, gênios, espiões e aventureiros. Então a internet resolveu assistir à sua filmografia sob outro ângulo e chegou a uma conclusão inesperada: Matt Damon não interpreta heróis. Matt Damon interpreta homens que desaparecem e obrigam outras pessoas a atravessar guerras, oceanos, galáxias e planetas inteiros para trazê-los de volta.

A piada voltou a circular com força após a divulgação das primeiras imagens de The Odyssey, adaptação de Christopher Nolan para o clássico de Homero. Rapidamente, fãs perceberam um padrão curioso. Em O Resgate do Soldado Ryan, o Exército americano gasta milhões para encontrar o soldado James Ryan. Em Interestelar, uma missão espacial atravessa o universo para resgatar o Dr. Mann. Em Perdido em Marte, a NASA mobiliza recursos internacionais para recuperar Mark Watney. Agora, em The Odyssey, uma produção de cerca de US$ 250 milhões acompanha a longa jornada de Odisseu para voltar para casa.

A imagem viral que circula nas redes soma os orçamentos dessas produções e conclui que Hollywood gastou quase US$ 600 milhões tentando trazer Matt Damon de volta. A legenda é ainda melhor: “Já consideraram que talvez ele simplesmente não queira voltar?”

É uma observação engraçada. Mas também revela algo fascinante sobre Hollywood.

Quando pensamos em typecasting, normalmente imaginamos atores presos a um personagem específico. Christopher Reeve passou boa parte da carreira sendo associado ao Superman. Mark Hamill nunca escapou completamente da sombra de Luke Skywalker. Daniel Radcliffe ainda é lembrado primeiro como Harry Potter.

Mas existe um fenômeno mais sutil. Alguns atores não ficam presos a um papel. Ficam presos a uma ideia.

Jimmy Stewart passou décadas interpretando uma versão idealizada do americano comum. Era honesto, leal, gentil e moralmente íntegro. Mesmo quando Alfred Hitchcock começou a explorar lados mais obscuros dessa imagem em filmes como Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai, o impacto vinha justamente porque o público confiava nele.

Tom Cruise construiu outro arquétipo. Há mais de quarenta anos, ele interpreta homens extraordinariamente competentes. Podem ser pilotos, advogados, agentes secretos ou militares, mas o espectador sempre entra na sala de cinema sabendo que, cedo ou tarde, Tom Cruise correrá em direção ao perigo e salvará a situação.

Matt Damon ocupa um espaço diferente.

Sua carreira nunca foi construída sobre invulnerabilidade. Desde Gênio Indomável, existe algo acessível em sua presença. Damon transmite inteligência sem arrogância, competência sem perfeição e heroísmo sem grandiosidade. O público acredita que seus personagens são capazes de resolver problemas difíceis, mas também acredita que eles podem se perder no caminho.

Talvez seja por isso que a piada funcione tão bem.

Ninguém faria o mesmo meme com Arnold Schwarzenegger. Ninguém olharia para a filmografia de Dwayne Johnson e concluiria que o mundo inteiro está constantemente tentando encontrá-lo. A persona dessas estrelas foi construída sobre a ideia de força inabalável. Matt Damon, por outro lado, parece humano. Quando seu personagem fica preso em Marte, acreditamos. Quando desaparece em uma guerra, acreditamos. Quando se perde em uma galáxia distante, acreditamos.

E Hollywood continua encontrando maneiras de colocá-lo nessas situações.

O mais curioso é que os filmes citados no meme não pertencem sequer ao mesmo gênero. O Resgate do Soldado Ryan é um drama de guerra. Interestelar é ficção científica filosófica. Perdido em Marte mistura aventura e humor. The Odyssey será uma epopeia mitológica. Ainda assim, todos compartilham uma estrutura semelhante: a narrativa existe porque alguém precisa encontrar Matt Damon.

De certa forma, ele se tornou uma inversão do herói clássico.

O herói tradicional parte em uma jornada para salvar alguém. O personagem de Matt Damon frequentemente é o motivo pelo qual a jornada acontece. Tom Hanks atravessa a Europa ocupada para encontrá-lo. Matthew McConaughey cruza o espaço para encontrá-lo. Jessica Chastain lidera uma missão para trazê-lo de volta à Terra. Agora, Christopher Nolan prepara uma nova odisseia para acompanhar seu retorno para casa.

Nenhum estúdio planejou isso. Nenhum agente de carreira sentou-se à mesa e decidiu transformar Matt Damon no homem mais resgatado da história do cinema. O padrão surgiu organicamente, ao longo de décadas, até que a internet finalmente o identificou.

Talvez seja essa a melhor parte da história. Hollywood passou anos tentando vender Matt Damon como um dos grandes heróis de sua geração. Os espectadores olharam para a mesma filmografia e chegaram a uma conclusão diferente.

Ele não é exatamente o herói.

Ele é a missão.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário Adicione o seu

  1. Avatar de pudima. pudima. disse:

    Que texto maravilhoso! Curiosamente, ontem mesmo eu estava falando com um amigo sobre os resgates de Matt Damon. Ansiosa pelo novo filme, risos.

    Curtir

Deixe um comentário