The Bear e The Who: por que Love, Reign O’er Me é perfeita

Para fãs de rock, daquele rock raiz, os primeiros acordes de Love, Reign O’er Me, do The Who, tocaram uma nota ainda mais profunda quando a música surgiu no trailer da temporada final de The Bear. A escolha não parece acidental. Pelo contrário. É daquelas decisões que fazem tanto sentido que acabam revelando algo sobre a própria série. Porque, no fundo, The Bear nunca foi apenas sobre comida. Tampouco sobre um chef brilhante tentando salvar um restaurante. Desde o início, a criação de Christopher Storer falou sobre pessoas feridas tentando encontrar um lugar para si mesmas e aprendendo, com enorme dificuldade, a permitir que outras pessoas entrem em suas vidas.

Lançada em 1973, “Love, Reign O’er Me” encerra Quadrophenia, a segunda ópera-rock do The Who, escrita por Pete Townshend. Na história, o protagonista Jimmy chega ao limite. Desiludido, sozinho e sem saber mais quem é, ele abandona a ilusão de que pode controlar tudo ao seu redor. É nesse momento que surge a canção. Não como uma declaração romântica, mas como uma oração. Um pedido. Uma rendição diante da constatação de que ninguém consegue carregar o peso do mundo sozinho.

Há algo de profundamente familiar nisso para quem acompanha a trajetória de Carmy Berzatto. Ao longo de quatro temporadas, ele tentou controlar o restaurante, o legado do irmão, as próprias emoções e até mesmo as memórias que o assombram. Quanto mais buscava a perfeição, mais tudo parecia escapar por entre seus dedos. Talvez por isso a escolha da música seja tão emocionante. Porque “Love, Reign O’er Me” não fala sobre vitória. Ela fala sobre aceitação.

Pete Townshend escreveu a canção inspirado pelos ensinamentos espirituais de Meher Baba, que associava a chuva a uma forma de graça ou bênção divina. Roger Daltrey, por sua vez, transformou aquela composição originalmente mais delicada em um dos grandes momentos vocais da história do rock. O resultado é uma música que vive permanentemente entre a vulnerabilidade e a catarse, entre a oração e o grito. E é justamente nessa tensão que The Bear sempre existiu.

Durante anos, Carmy acreditou que a excelência seria capaz de salvá-lo. Mas a série foi sugerindo algo diferente. Richie encontrou propósito ao servir. Marcus transformou a dor em criação. Natalie se tornou o centro emocional daquela família improvisada. Sydney aprendeu que liderar também significa confiar. Aos poucos, a narrativa foi abandonando a ideia de que a perfeição poderia ser a resposta e abraçando algo muito mais humano: a necessidade de conexão.

Quando Richie afirma no trailer que eles podem não ter dinheiro, mas ainda têm uns aos outros, é difícil não pensar que a frase poderia estar em Quadrophenia. Porque “Only love can make it rain” sempre foi menos sobre romance e mais sobre pertencimento, amizade, comunidade e a descoberta, quase dolorosa, de que ninguém se salva sozinho.

Talvez seja por isso que “Love, Reign O’er Me” continue tão poderosa mais de cinquenta anos depois. Assim como Outside, do Staind, ou Hurt, do Nine Inch Nails, ela não oferece respostas fáceis nem promete grandes triunfos. Em vez disso, fala sobre continuar vivendo, mesmo quando a dor não desaparece. Sobre aceitar a vulnerabilidade. Sobre admitir que ser humano também significa precisar dos outros.

Existe algo particularmente simbólico em ouvir essa música justamente no encerramento de The Bear. As primeiras temporadas foram impulsionadas pelo luto, pela culpa, pela ansiedade e pelo perfeccionismo. A despedida, ao menos pelo que sugere o trailer, parece movida por algo diferente. Talvez pelo amor. E isso não significa que Carmy será curado ou que todos os problemas desaparecerão. Significa apenas que, depois de passar anos tentando salvar o restaurante, ele talvez finalmente descubra que precisava salvar a si mesmo.

A utilização da canção em The Bear é apenas mais um capítulo de uma longa história entre “Love, Reign O’er Me” e o audiovisual. O exemplo mais conhecido continua sendo Reign Over Me, drama de 2007 estrelado por Adam Sandler e Don Cheadle, cujo próprio título faz referência à música. O filme, que trata do luto e da amizade após os ataques de 11 de setembro, utiliza a composição como parte central de sua carga emocional, chegando a contar também com uma versão gravada por Eddie Vedder, do Pearl Jam.

A música também integra naturalmente Quadrophenia, adaptação cinematográfica da ópera-rock lançada em 1979, além de ter aparecido em Hunky Dory, de 2011. Mais recentemente, ela voltou a chamar a atenção ao embalar o primeiro trailer de The Hunger Games: Sunrise on the Reaping, reforçando temas de perda, sobrevivência e esperança.

Ainda assim, é difícil imaginar uma combinação mais apropriada do que a encontrada em The Bear. Afinal, uma música escrita há mais de cinquenta anos para contar a história de um jovem perdido tentando sobreviver à própria confusão emocional acaba servindo perfeitamente para outra história sobre um homem perdido tentando aprender a viver.

Talvez Pete Townshend tenha acertado sem saber. Porque, no fim das contas, quando o talento não basta, quando a perfeição se revela impossível e quando o controle finalmente falha, resta aquilo que Jimmy e Carmy parecem descobrir da maneira mais difícil possível: somente o amor pode fazer chover.


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