Star City transforma a corrida espacial em uma das histórias de amor mais trágicas da ficção científica recente

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

Entre espionagem soviética, paranoia política e disputas pela corrida espacial, Star City encontra espaço para algo inesperadamente íntimo: uma história de amor profundamente trágica. Derivada do universo de For All Mankind, a nova série da Apple TV retorna à realidade alternativa em que a União Soviética venceu a corrida para colocar um homem na Lua, mas escolhe olhar para além do espetáculo tecnológico e mergulhar nas vidas privadas destruídas por um sistema baseado em vigilância constante.

É justamente nesse contexto que surgem Valya e Tania, interpretados por Adam Nagaitis e Ruby Ashbourne-Serkis. O casal rapidamente se transforma no coração emocional da série, não apenas pelo romance em si, mas pela forma como Star City constrói a impossibilidade daquele amor existir plenamente dentro de um regime autoritário. Eles se amam genuinamente, mas vivem cercados por segredos, silêncio e medo.

E há uma camada especialmente interessante para quem já conhece For All Mankind. A série original já havia revelado parte do impacto histórico das ações de Valya, mas sem necessariamente humanizar completamente quem ele era ou quais motivações emocionais existiam por trás de suas escolhas. Star City faz exatamente isso: transforma um personagem antes associado a consequências políticas e históricas em alguém profundamente humano, apaixonado e desesperadamente tentando sobreviver emocionalmente dentro daquele sistema.

Adam Nagaitis, conhecido por trabalhos em produções como The Terror e Chernobyl, interpreta Valya como um homem permanentemente dividido entre dever, sobrevivência e amor. Já Ruby Ashbourne-Serkis (sim, filha de Andy Serkis) constrói Tania como alguém guiada muito mais pelo coração do que pela lógica, mesmo entendendo os riscos devastadores disso. O resultado é uma dinâmica em que cada gesto íntimo parece perigoso, porque até amar alguém se transforma em ameaça dentro daquele universo.

Durante a conversa com o Blog do Amaury Jr., via Miscelana, os atores falaram sobre a confiança frágil entre os personagens, a atmosfera opressiva da União Soviética retratada pela série e a sensação constante de que ambos estavam vivendo uma história de amor dentro de uma prisão emocional. Também comentaram a inevitabilidade do sofrimento naquele contexto, os segredos que os afastam e o fato de que Star City entende algo muito humano sobre relações em regimes autoritários: o amor nunca deixa de existir, mas sobreviver a ele pode se tornar impossível.

Eu assisti até o quinto episódio e estou desesperada para saber o que acontece, embora eu suspeite que um final feliz não esteja exatamente no horizonte. Mas existe algo muito paradoxal sobre esse casal: tudo gira em torno de confiança e, ao mesmo tempo, eles vivem cercados por segredos. Eles parecem confiar um no outro, mesmo escondendo tantas coisas. Como vocês descreveriam essa relação?

Ruby Ashbourne-Serkis: Totalmente. Acho que, como você disse, ela nasce de um amor verdadeiro, quase inocente. Existe uma pureza nessa relação que atravessa toda a mentira e toda a manipulação do resto da série. Mesmo existindo segredos, sinto que o relacionamento deles não é construído sobre maldade ou manipulação. Conforme a história avança, os segredos começam a afastá-los, claro, mas eu nunca senti que o amor entre eles estivesse realmente em risco de desaparecer.

Adam Nagaitis: E nós tivemos o benefício de mostrar como eles se conheceram e se apaixonaram, mesmo que isso apareça apenas em pequenos momentos, nas fotografias, nas lembranças. Existe alegria ali. Existe liberdade. Mesmo que seja uma liberdade momentânea, quase imaginária, ainda assim é liberdade. E quando encontramos esses personagens na série, tudo isso já mudou. Eles estão sendo observados o tempo inteiro. O compromisso que eles têm um com o outro nasce justamente disso. Os segredos não existem porque querem enganar o outro. Eles existem porque ambos estão tentando proteger um ao outro. No fundo, é uma história de amor dentro de uma prisão.

E existe algo ainda mais cruel: eles vivem em um sistema onde ninguém pode confiar em ninguém.

Ruby Ashbourne-Serkis: Exatamente. Você não podia confiar nos vizinhos. Qualquer pessoa podia denunciá-lo. Você precisava aprender a se comunicar sem realmente dizer o que queria dizer. Era preciso encontrar maneiras indiretas de existir, porque havia medo constante de estar sendo ouvido. Isso afeta completamente a maneira como eles se relacionam.

Adam Nagaitis:
E isso torna a história quase universal. Eu ouvi recentemente relatos de pessoas que viveram situações parecidas em regimes autoritários contemporâneos, como desertores da Coreia do Norte, histórias de casais separados por fronteiras políticas. Você percebe como se apaixonar se torna algo perigoso dentro desses sistemas. Existe quase uma inevitabilidade de corações partidos. Apaixonar-se por um regime autoritário sempre traz risco.

É opressivo porque o sistema não permite liberdade emocional. Não permite liberdade pessoal. As pessoas deixam de ser vistas como indivíduos. E existe algo muito doloroso porque ambos acabam colocando o amor acima do dever. Vocês fariam isso na vida real?

Ruby Ashbourne-Serkis: Acho que sim. Eu me identifico muito com a Tania nesse aspecto porque sou uma pessoa muito guiada pelo coração. Muitas vezes ignoro completamente o que minha cabeça está dizendo. E acho que ela faz exatamente isso. Existe algo inevitável naquele amor.

Adam Nagaitis: Eu escolheria o amor também. Sempre. Dever para quê? Para servir pessoas que tratam indivíduos como peças? Se você não ama as pessoas, então qual é o sentido de tudo isso? Claro que é fácil falar olhando de fora. Quando você está realmente vivendo aquilo, quando existe medo real, quando há uma arma apontada para alguém, tudo muda completamente. Mas é isso que a série consegue mostrar tão bem: o peso dessas escolhas.

Eu fiquei impressionada com a forma como Valya consegue continuar funcionando, indo da Terra para a Lua, trabalhando normalmente enquanto vive toda essa pressão emocional.

Adam Nagaitis: Isso acaba virando uma forma de sobrevivência. Ele consegue compartmentalizar tudo. Acho que muitas pessoas fazem isso o tempo inteiro sem perceber.

O que mais me destruiu foi perceber que eles nunca tiveram tempo suficiente para realmente dizer toda a verdade um ao outro. O amor existe, mas há pequenas mentiras o tempo inteiro.

Adam Nagaitis: Mas acho que, de alguma forma, eles sabem. Quando você ama alguém profundamente, existe uma conexão que ultrapassa aquilo que foi verbalizado. Você pensa: “Se algo acontecer comigo, essa pessoa sabe quem eu sou? Ela entende?” E isso é uma das coisas mais bonitas do roteiro. A série nunca oferece uma despedida perfeita. Nunca entrega encerramento completo. Na vida real, muitas vezes as relações também terminam sem esse momento ideal de explicação.

Ruby Ashbourne-Serkis: Mas isso faz o público querer gritar para a tela: “Apenas diga! Apenas conte a verdade!”

Adam Nagaitis: Claro. Mas eles simplesmente não podem fazer isso. E é justamente isso que torna tudo tão doloroso. Muitas vezes eu perguntava aos criadores: “Por que ele não faz simplesmente isso?” E a resposta era sempre: “Porque uma pessoa vivendo naquele sistema jamais faria isso.”

Momento SPOILER: fiquei genuinamente com medo quando ele foi (quase) preso.

Adam Nagaitis: Eu também fiquei. E existe algo terrível naquele momento porque você percebe que eles nem sequer têm permissão para viver um rompimento normal. Eles não podem fazer uma cena. Não podem se despedir em público. Não podem confessar nada diante dos outros. Nem o amor pertence totalmente a eles.

O que vocês levam dessa experiência pessoalmente?

Ruby Ashbourne-Serkis: Para mim, a coragem da Tania. Ela descobre que a realidade em que vivia era construída sobre segredos e mentiras, e mesmo assim precisa encontrar forças para continuar existindo sozinha. Existe muita valentia nisso.

Adam Nagaitis: Para mim, é algo ligado ao final do Valya. Sem revelar spoilers, existe uma ideia muito bonita ali: nunca é tarde demais para encontrar algum significado humano nas coisas.Mesmo nos últimos segundos da vida, ainda existe possibilidade de humanidade, de redenção, de amor. Quando li aquilo, pensei: “Muito bem, Matt e Ben. Isso é realmente bonito.”

Muito obrigada. Eu já estou preparando minhas lágrimas para o final.

Ruby Ashbourne-Serkis: (Risos)

Adam Nagaitis: Obrigado. Foi ótimo conversar com você.


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