No lançamento de Star City, quando conversei com Adam Nagaitis e Ruby Ashbourne Serkis, intérpretes de Valya e Tanya Mironov, uma resposta me chamou a atenção quando perguntei se, colocados na mesma situação dos personagens, eles fariam a mesma escolha. Ambos responderam que sim. Escolheriam o amor. Naquele momento, a série ainda estava no começo, mas a resposta acabou revelando exatamente o que Star City queria falar. Não era apenas uma história sobre foguetes, espionagem ou a disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética. Era sobre pessoas tentando preservar a própria humanidade dentro de um sistema construído para apagar a individualidade.
Ao longo de oito episódios, acompanhamos cientistas, cosmonautas e agentes da KGB obrigados a esconder desejos, sacrificar relações e transformar sentimentos em segredos de Estado. No fim, quase todos chegam ao mesmo dilema: obedecer ao regime ou permanecer fiéis às pessoas que amam. É isso que torna “The Wolves”, o último episódio, tão poderoso. A corrida espacial continua sendo importante, mas deixa de ser o verdadeiro centro da narrativa.

Entre várias trágicas trajetórias, a de Valya Mironov é uma das mais tristes. Herói soviético e um dos astronautas mais dedicados, reconhecido e respeitado, vimos Valya ser traído pelo melhor amigo e pela esposa, que mantiveram um romance escondido dele justamente porque, vivendo o drama de chantagem pela CIA, ele queria proteger a esposa e se tornou um espião. Sua honra foi superada pelo amor que sentia por Tanya e a vida de pelo menos outro astronauta foi perdida por sua causa.
Descoberto por Irina, sua morte era inevitável desde muito cedo, tanto que falei sobre isso com Nagaitis e ele não desfez. A série praticamente anunciava esse destino desde o início, mas ainda assim conseguiu adiar a tragédia o suficiente para alimentar uma esperança quase irracional de que haveria outra saída. Tipo: quando o fogo é controlado e a Venera sobrevive, passamos a acreditar que talvez os três cosmonautas realmente consigam voltar para casa. Então vem o sacrifício. Valya aceita embarcar sozinho na cápsula destinada a Vênus para corrigir a trajetória da nave, sabendo que nunca retornará. Ele morre como o primeiro ser humano a alcançar outro planeta, mas também como alguém que compreende que não existe mais futuro para si na Terra. A conquista científica e a tragédia pessoal acontecem exatamente no mesmo instante em uma atuação sensível e emocionante de Nagaitis.
Confesso que essa sequência me deixou profundamente triste. Não apenas pela morte de Valya, mas porque ele e Tanya jamais tiveram a oportunidade de reconstruir a própria história. Durante toda a temporada, os dois foram vítimas de um sistema que transformava qualquer escolha individual em ameaça política. No fim, Valya parte acreditando que talvez Tanya nunca compreenda completamente seus motivos. E Tanya permanece viva, em Paris, sem saber que o homem que amava morreu tentando salvar os amigos e lhe garantir uma chance de recomeçar.

Ao mesmo tempo, Star City constrói uma segunda história de amor igualmente devastadora. Sasha e Anastasia começam como um casamento imposto pelo Estado e terminam fazendo exatamente a escolha que o regime tentava impedir. Anastasia abandona sua missão para salvar o marido. Sasha cruza a fronteira com Lakshmi, mas decide voltar ao ver Anastasia ser capturada. A liberdade deixa de importar quando a única pessoa que dá sentido àquela liberdade permanece do outro lado da cerca. É um gesto desesperado, romântico e profundamente coerente com tudo o que a série construiu até aqui.
Talvez seja justamente aí que esteja a força da temporada. Há vários casais em Star City, mas nenhum deles existe apenas para criar romance. Tanya e Valya representam o amor interrompido antes que pudesse ser plenamente vivido. Sasha e Anastasia representam um amor que nasce justamente quando o Estado tenta transformá-lo em propaganda. O Chief Designer e sua esposa mostram um casamento consumido por décadas de silêncio e renúncia. Até Sergei, que os fãs de For All Mankind já conhecem pelo relacionamento com Margo Madison, começa sua trajetória escolhendo pessoas antes de escolher instituições. Não é coincidência. Cada um desses personagens precisa decidir, em algum momento, entre servir ao sistema e preservar aquilo que ainda os torna humanos.
Essa leitura conversa diretamente com o que Adam Nagaitis e Ruby Ashbourne Serkis me disseram. Ambos falaram menos sobre política do que sobre sobrevivência emocional. Ruby descreveu Tanya como alguém que busca desesperadamente liberdade, conexão e expressão em um ambiente que sufoca qualquer demonstração de individualidade. Adam explicou que Valya não se via como uma dissidente, porque aquele sistema era o único que conhecera desde a infância; seu conflito era preservar as pessoas que amava sem deixar de acreditar no sonho da exploração espacial.

O episódio final também consolida outro grande arco da temporada: o do Chief Designer. Durante boa parte da série, ele sacrifica indivíduos em nome do programa espacial soviético. No desfecho, acontece exatamente o contrário. Pela primeira vez, ele coloca seus “Eagles” acima do Estado, arrisca a própria liberdade para salvá-los e aceita ser tratado como traidor por um regime ao qual dedicou toda a vida. É uma mudança silenciosa, mas talvez a mais importante da temporada.
Enquanto isso, Irina segue o caminho oposto. Ver Agnes O’Casey interpretar uma Irina ainda idealista sabendo quem ela se tornará décadas depois em For All Mankind produz um efeito quase arrepiante. Sua aproximação de Lyudmila Raskova não parece nascer de uma simples conversão ideológica. A temporada sugere algo mais complexo: admiração, necessidade de sobrevivência e ambição passam a caminhar juntas. Ainda assim, muitas perguntas permanecem. Por que Tanya desperta tamanha obsessão? O que realmente aconteceu no passado de Irina? Quem é o pai de sua filha? A série claramente guarda essas respostas para o futuro.
E esse talvez seja o maior mérito de Star City. Em vez de encerrar a história, ela reorganiza todo o universo de For All Mankind. Sabemos agora quem era Arseni Vetrov, como Anastasia chegou à Lua, como Sergei e Irina começaram suas trajetórias e que a missão a Vênus realmente existiu, mas foi apagada da história oficial. Ao mesmo tempo, o spin-off deixa abertas novas possibilidades: Tanya em Paris sob vigilância, Sergei preso, Sasha e Anastasia enfrentando um futuro incerto, o Chief Designer transformado em prisioneiro do próprio regime e uma Irina cada vez mais próxima da mulher que conheceremos anos depois.

Se houver uma segunda temporada — e espero sinceramente que exista — ela provavelmente deixará de ser apenas uma história sobre exploração espacial. Boa parte dos maiores heróis soviéticos termina atrás das grades ou a caminho da Sibéria: engenheiros brilhantes, cosmonautas celebrados e até o homem responsável por levar a União Soviética à frente da corrida espacial. Há um universo inteiro para explorar a partir daí.
No fim das contas, Star City não encerra sua primeira temporada celebrando quem chegou mais longe. A maior conquista não é Vênus. É mostrar que, mesmo em um sistema construído para transformar pessoas em símbolos do Estado, ainda existiam homens e mulheres capazes de escolher o amor, a amizade e a lealdade. Talvez seja justamente por isso que a morte de Valya doa tanto. Não perdemos apenas um cosmonauta. Perdemos alguém que, quando finalmente precisou escolher entre sobreviver e permanecer fiel àquilo que amava, decidiu que sua última viagem seria também seu último ato de liberdade.
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