Há alguns anos, Hollywood decretou a morte das estrelas de cinema. A narrativa era simples: os astros haviam sido substituídos pelas franquias e pelo reconhecimento de marca. O público não iria mais ao cinema por causa de Tom Cruise, Brad Pitt ou qualquer outro ator, mas por causa da Marvel, de Star Wars ou de propriedades intelectuais já conhecidas. Joseph Kosinski aparentemente nunca acreditou nessa teoria.
Na mesma semana em que F1 completou aproximadamente seis meses na liderança dos filmes mais vistos do Apple TV, outro fenômeno chamou minha atenção. Quase quatro anos depois de sua estreia nos cinemas, Top Gun: Maverick se mantém no primeiro lugar entre os filmes mais assistidos da Paramount+.
Nenhuma dessas histórias deveria ser particularmente normal. O streaming costuma premiar a novidade. Um lançamento chega ao topo, permanece ali por alguns dias ou algumas semanas e acaba substituído pelo próximo sucesso. Mas Top Gun: Maverick e F1 parecem obedecer a uma lógica diferente. Em vez de desaparecerem, continuam sendo revisitados.


Os números tornam esse comportamento ainda mais impressionante. Nos Estados Unidos, Top Gun: Maverick acumula cerca de 21 meses na liderança da Paramount+. Globalmente, o filme soma mais de 220 dias como número 1 da plataforma. Já F1, que se transformou na maior bilheteria da carreira de Brad Pitt e no primeiro verdadeiro fenômeno popular da Apple, completou aproximadamente seis meses na liderança do Apple TV e cerca de 182 dias entre os dez filmes mais vistos do serviço.
São números mais associados a clássicos de catálogo do que a sucessos convencionais do streaming.
Essa história tem menos a ver com caças supersônicos ou carros de Fórmula 1 e mais com um cineasta de 51 anos que discretamente pode ter descoberto como fabricar clássicos populares em pleno século 21.
Formado em arquitetura por Columbia e Yale, Joseph Kosinski chegou a Hollywood por um caminho pouco convencional. Sua estreia aconteceu em 2010 com Tron: Legacy, filme que acabou se tornando cult e é lembrado até hoje pela estética futurista e pela trilha sonora do Daft Punk. Três anos depois veio Oblivion, sua primeira colaboração com Tom Cruise. Embora o longa tenha sido ofuscado posteriormente pelo fenômeno Top Gun: Maverick, é impossível revisitá-lo hoje sem perceber que muitas das obsessões visuais e emocionais do diretor já estavam presentes ali.
A parceria entre Kosinski e Cruise já dura treze anos. Juntos, eles realizaram Oblivion e depois Top Gun: Maverick, filme que arrecadou quase US$ 1,5 bilhão em todo o mundo, se transformou na maior bilheteria da carreira de Tom Cruise e ainda conquistou uma indicação ao Oscar de Melhor Filme. Mais do que isso, a produção acabou sendo vista como um dos símbolos da recuperação da indústria cinematográfica após a pandemia.
Quando Top Gun: Maverick se tornou um fenômeno, muita gente tratou seu sucesso como uma exceção, um raio em garrafa impossível de ser repetido. F1 mostra que não era.

As conexões entre os dois filmes são numerosas. Jerry Bruckheimer produz ambos. Claudio Miranda assina a fotografia dos dois. Ehren Kruger participou dos roteiros de ambos. E, acima de tudo, existe uma linguagem compartilhada. Kosinski filma a velocidade como poucos cineastas contemporâneos. Em Top Gun: Maverick, a câmera colocava o espectador dentro do cockpit. Em F1, essa mesma filosofia foi transportada para os circuitos.
Mas a verdadeira fórmula Kosinski está em seus protagonistas.
Pete “Maverick” Mitchell e Sonny Hayes são praticamente variações do mesmo personagem. Ambos são homens extraordinariamente talentosos em profissões que mudaram radicalmente. Ambos vivem cercados por pessoas mais jovens e por sistemas que parecem determinados a substituí-los. Ambos carregam culpas antigas e encontram sua identidade justamente naquilo que fazem melhor.
Existe uma melancolia curiosa nesses personagens. Eles sabem que o mundo mudou. Sabem que pertencem a outra geração. Mas se recusam a aceitar que envelhecer significa se tornar irrelevante.
Tom Cruise e Brad Pitt ocupam exatamente esse mesmo lugar em Hollywood. Nenhum dos dois precisou vestir uma capa de super-herói ou entrar em um universo compartilhado para continuar relevante. Pelo contrário. Os filmes de Kosinski apostam em algo que Hollywood parecia ter abandonado: o blockbuster adulto.

São produções caras, ambiciosas e espetaculares, mas voltadas para um público que cresceu acompanhando Tom Cruise e Brad Pitt e continua interessado em histórias protagonizadas por adultos. Existe uma sinceridade quase antiga em Top Gun: Maverick e em F1. São filmes que acreditam em profissionalismo, excelência, amizade e segundas chances. Não parecem constrangidos por serem emocionais e tampouco tratam seus personagens com ironia.
Em uma época em que tantos blockbusters parecem desconfiar das próprias emoções, os filmes de Kosinski abraçam justamente aquilo que Hollywood costumava fazer tão bem.
Isso explica por que Top Gun: Maverick e F1 se comportam menos como sucessos passageiros e mais como clássicos de catálogo. Assim como aconteceu com Titanic, Jurassic Park ou De Volta para o Futuro, as pessoas não voltam para essas histórias porque esqueceram o final, mas porque gostam da experiência. Gostam da companhia daqueles personagens e da sensação que esses filmes proporcionam.
Há uma ironia bonita nisso tudo.
O homem que ajudou a reconstruir a persona de Tom Cruise nas telas está fazendo exatamente a mesma coisa com Brad Pitt. No caso de Cruise, o resultado foi a maior bilheteria de sua carreira. Com Pitt, F1 se transformou no maior sucesso comercial de sua trajetória e no primeiro fenômeno de massa da Apple.
E os três continuam olhando para frente.

No momento, Tom Cruise desenvolve novos projetos ao lado de Christopher McQuarrie e voltou a falar sobre uma continuação de Days of Thunder. Brad Pitt prepara The Continuing Adventures of Cliff Booth, retomando um dos personagens mais amados de sua carreira, o que rendeu seu Oscar. Enquanto isso, Joseph Kosinski trabalha em uma nova versão de Miami Vice e em um thriller de conspiração alienígena para a Apple.
Nenhum dos três parece disposto a desacelerar. Por isso, é fácil afirmar que os sucessos do diretor não foram um acidente. Os rankings do streaming mostram isso semana após semana. Em uma indústria obcecada pela próxima novidade, Joseph Kosinski encontrou um biotipo, uma linguagem visual e um tipo de personagem que se encaixam perfeitamente em atores como Tom Cruise e Brad Pitt, provando que grandes estrelas ainda importam.
Mas seu maior mérito talvez seja outro. Enquanto Hollywood passa boa parte do tempo tentando descobrir qual será a próxima tendência, Kosinski continua fazendo algo muito mais difícil. Filmes para os quais as pessoas gostam de voltar.
E, no fim das contas, a explicação é bem menos complicada do que parece. O público volta porque gosta daqueles personagens. Porque gosta da companhia de Maverick e Sonny Hayes. Porque gosta da sensação que esses filmes deixam depois dos créditos. Em uma indústria que vive olhando para a frente, Joseph Kosinski entendeu algo bastante humano.
As pessoas sempre voltam para aquilo que amam.
Talvez essa seja, afinal, a verdadeira fórmula Kosinski.
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