Será que confundimos amor com narrativa?

Em junho, quase sempre, as demandas das duas primeiras semanas esbarram de alguma forma em uma curadoria do que ver ou rever no Dia dos Namorados. A data puramente comercial é uma âncora inevitável, mas também leva à repetição. E repetição, afinal, é o coração da psicanálise. POr isso, em 2026, resolvi mudar um pouco a lente para revisitar o tema.

Ao longo dos últimos anos escrevi sobre o papel do acaso nas comédias românticas, sobre a influência quase incontornável de Jane Austen nas histórias de amor que consumimos hoje, sobre Nora Ephron, Ted Lasso e até sobre a dificuldade que a televisão contemporânea parece ter em manter casais felizes juntos por mais de uma temporada. Mas, enquanto revia alguns clássicos e observava lançamentos recentes, comecei a perceber que talvez todas essas discussões apontassem para uma questão maior. Não se trata apenas de saber por que os roteiristas insistem em separar casais, nem por que tantas histórias de amor dependem de obstáculos artificiais para continuar existindo. A pergunta que ficou comigo é mais desconfortável: será que confundimos amor com narrativa?

A ideia parece estranha à primeira vista, mas quanto mais penso nela, mais difícil fica ignorá-la. Afinal, a maioria das histórias de amor que atravessaram gerações não é história sobre relacionamentos bem-sucedidos, nem sobre convivência, parceria ou construção. São histórias sobre desejo. São histórias sobre pessoas tentando alcançar algo que ainda não possuem, preservar algo que estão perdendo ou recuperar algo que acreditam ter deixado escapar. Quando pensamos nos casais mais famosos da literatura ocidental, raramente pensamos em pessoas compartilhando uma vida. Pensamos em Romeu e Julieta morrendo antes que a realidade pudesse alcançá-los. Pensamos em Anna Karenina abandonando tudo por uma paixão que promete libertação e entrega sofrimento. Pensamos em Gatsby dedicando a própria existência a uma fantasia. Pensamos em Cathy e Heathcliff presos a uma dinâmica que muitas adaptações insistiram em transformar em amor épico, embora eu sempre tenha enxergado nela algo muito mais próximo da obsessão e da destruição.

Talvez isso aconteça porque amor e narrativa obedecem a lógicas diferentes. Desde Aristóteles aprendemos que histórias dependem de conflito, transformação e resolução. Uma narrativa existe porque algo está fora do lugar e precisa ser reorganizado. O herói precisa encontrar algo, conquistar alguém, resolver um problema ou sobreviver a uma ameaça. Quando a questão central é respondida, a história termina. O amor, porém, costuma começar exatamente nesse ponto. A vida compartilhada surge quando os obstáculos iniciais desaparecem, quando o casal finalmente fica junto e quando a grande pergunta que sustentava a narrativa deixa de existir.

Não é coincidência que tantas comédias românticas terminem no primeiro beijo, no casamento ou na grande declaração. Orgulho e Preconceito termina quando Elizabeth Bennet e Darcy conseguem superar os equívocos que os mantinham separados. Harry e Sally terminam quando ambos admitem aquilo que o público já sabia desde o início. Sintonia de Amor constrói duas horas inteiras em torno da expectativa de um encontro que acontece nos minutos finais. Mesmo as histórias mais modernas continuam organizadas em torno da mesma estrutura. O que importa não é a convivência. O que importa é a conquista.

Mas seria injusto afirmar que a arte nunca tentou olhar para o que acontece depois. Na verdade, boa parte da produção cultural do século 20 foi uma tentativa de responder justamente a essa pergunta. O problema é que, quando escritores, dramaturgos e cineastas decidiram acompanhar a vida depois do encontro, nem sempre encontraram aquilo que os românticos gostariam de encontrar.

Ingmar Bergman talvez seja o exemplo mais famoso. Em vez de encerrar a história quando duas pessoas ficam juntas, ele decidiu acompanhar aquilo que acontece depois. Em Scenes from a Marriage, o casamento não aparece como ponto de chegada, mas como ponto de partida para uma investigação brutal sobre intimidade, ressentimento, desejo, frustração e incompatibilidade. O que Bergman encontra não é a confirmação do amor eterno, mas a dificuldade permanente de duas pessoas permanecerem alinhadas ao longo do tempo. Algo semelhante acontece décadas depois em Before Midnight, quando Richard Linklater leva Jesse e Céline para um território raramente explorado pelas narrativas românticas. Depois de dois filmes construídos em torno do encanto do encontro e da promessa de um futuro compartilhado, surge a pergunta inevitável: o que acontece quando o cotidiano finalmente chega?

Talvez nenhuma obra tenha respondido essa pergunta de forma tão devastadora quanto Revolutionary Road. O romance de Richard Yates e sua adaptação para o cinema permanecem entre os retratos mais duros já feitos sobre um amor incapaz de sobreviver ao confronto entre fantasia e realidade. O mais perturbador na história de Frank e April Wheeler é que eles não fracassam por falta de amor. Eles fracassam porque amor não resolve tudo. Durante boa parte da narrativa, os dois acreditam compartilhar um sonho, uma visão de futuro e uma identidade construída em oposição à mediocridade que enxergam ao redor. Quando a realidade começa a desmontar essa fantasia, descobrem que desejar a mesma vida idealizada não é necessariamente o mesmo que conseguir construí-la juntos. O romance de Yates é particularmente cruel porque desmonta uma das promessas mais sedutoras da modernidade: a de que existe uma vida melhor esperando logo depois da próxima decisão. Paris, para April, funciona menos como um lugar real e mais como um recipiente para a fantasia de que a felicidade está em outro lugar. O problema é que a realidade tem o péssimo hábito de nos acompanhar.

Essa talvez seja uma das ideias mais difíceis de aceitar na cultura romântica. Gostamos de acreditar que encontrar a pessoa certa resolve os grandes problemas da existência. A literatura romântica, Hollywood e boa parte da cultura popular foram construídos sobre essa promessa. Mas autores como Bergman, Yates, Cassavetes e tantos outros passaram décadas questionando exatamente essa crença. O amor pode existir e ainda assim não ser suficiente. Duas pessoas podem admirar uma à outra e ainda assim fracassar. Sonhos compartilhados podem não sobreviver aos compromissos da vida cotidiana. O encontro não elimina automaticamente as diferenças, os limites ou as frustrações.

Talvez seja nesse ponto que a pergunta inicial finalmente encontre uma resposta. Amor e narrativa não são a mesma coisa, mas aprendemos a compreender o amor através das histórias. Durante séculos, romances, poemas, peças de teatro, filmes e séries nos ensinaram como reconhecer uma paixão, uma perda, um reencontro ou um coração partido. Aprendemos a identificar o amor através de estruturas narrativas e, por isso, muitas vezes esperamos que a vida emocional siga as mesmas regras da ficção.

A diferença é que a narrativa existe para registrar transformação. Uma história começa quando algo muda e termina quando essa mudança produz uma consequência. O amor, ao contrário, é constantemente testado por aquilo que acontece depois da transformação. Se a narrativa se interessa pelo acontecimento, o amor precisa sobreviver às suas consequências.

Narrativa é aquilo que acontece quando algo muda. Amor é aquilo que precisa sobreviver depois da mudança.

Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas se sintam frustradas pelos relacionamentos contemporâneos. Durante séculos a fantasia dominante foi a de que a felicidade dependia de encontrar a pessoa certa. Hoje, especialmente na era digital, parece que caminhamos para uma simplificação oposta. Se antes a cultura prometia completude através do amor, agora frequentemente sugere que a solução está em não precisar de ninguém. A lógica continua binária. Ou o amor é fusão absoluta ou a independência é a única forma aceitável de liberdade emocional. Em ambos os casos desaparece a complexidade da experiência humana.

O curioso é que essa mudança acontece ao mesmo tempo em que passamos a discutir conceitos como dependência emocional, apego ansioso, relacionamentos tóxicos e codependência com muito mais frequência. Trata-se de uma evolução importante, especialmente porque durante décadas comportamentos destrutivos foram romantizados pela cultura. Mas, em alguns momentos, parece surgir uma armadilha inversa. Se antes toda intensidade era celebrada como amor verdadeiro, agora qualquer necessidade do outro corre o risco de ser vista como fraqueza ou patologia. Como acontece com quase tudo na vida contemporânea, a nuance parece ser a primeira vítima.

É nesse ponto que a psicanálise continua oferecendo contribuições valiosas. Freud nunca acreditou na independência absoluta. Winnicott tampouco. E Lacan, apesar de todas as interpretações simplificadas que circulam sobre sua obra, também não defendia a ideia de que a solução para o sofrimento humano fosse eliminar o desejo. O que esses autores observam, cada um à sua maneira, é que existe uma falta estrutural na experiência humana. Procuramos vínculos porque somos seres relacionais. Procuramos reconhecimento porque precisamos dele. Procuramos amor porque a vida compartilhada continua sendo uma das formas mais profundas de experiência humana.

Talvez a leitura popular de Lacan tenha produzido uma simplificação particularmente sedutora. Costuma-se repetir que desejamos aquilo que não temos, como se o desejo fosse apenas uma corrida atrás do objeto ausente. Mas a questão parece mais complexa. Muitas vezes não desejamos apenas o objeto. Desejamos a fantasia construída em torno dele. E talvez seja por isso que tantas pessoas passem a vida inteira correndo atrás da próxima experiência, da próxima paixão, da próxima possibilidade ou da próxima versão de si mesmas. O desejo se alimenta da falta. O amor, porém, é confrontado diariamente pela presença.

Isso não significa que a permanência seja simples ou que Bergman esteja errado. Pelo contrário. Talvez o século 20 tenha sido justamente o período em que a cultura percebeu que o “felizes para sempre” era menos um destino e mais um trabalho contínuo. A arte moderna não abandonou o amor; ela passou a desconfiar dele. Bergman, Yates, Baumbach e tantos outros não estavam afirmando que o amor era impossível. Estavam questionando se ele seria suficiente para sustentar todas as expectativas que projetamos sobre ele. E talvez essa pergunta continue sem resposta.

Quanto mais penso nisso, menos me convenço de que o problema esteja nas histórias de amor. Elas fazem aquilo que narrativas sempre fizeram: organizam conflitos, desejos e transformações. Talvez a questão esteja na forma como passamos a utilizá-las como modelo para compreender a própria vida. Esperamos que o amor produza os mesmos picos emocionais que encontramos na ficção. Esperamos que relações reais reproduzam a intensidade dos encontros extraordinários. Esperamos que a felicidade tenha a mesma estrutura de uma boa narrativa. Mas relacionamentos raramente obedecem a esse tipo de lógica.

Talvez por isso continuemos voltando às mesmas histórias. Não porque elas expliquem o amor, mas porque tentam dar forma a algo que resiste a ser organizado. A narrativa sabe falar muito bem sobre o desejo. Também sabe falar sobre perda, fracasso e separação. O que continua sendo raro é encontrar histórias capazes de tratar a permanência como uma realização tão interessante quanto a conquista ou tão dramática quanto a ruptura.

Talvez porque a narrativa tenha sido construída para registrar momentos de transformação, enquanto o amor, na maior parte do tempo, seja construído pela continuidade.

Talvez o amor não seja uma história. Talvez seja aquilo que acontece depois que a história termina.


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