House of the Dragon reacende a lenda da loucura Targaryen

O retorno de House of the Dragon ao ar faz com que uma das perguntas mais antigas de Westeros volte a ocupar o centro das discussões entre os fãs: Rhaenyra Targaryen está realmente enlouquecendo ou a famosa maldição da família dos dragões sempre significou algo mais complexo do que simples insanidade?

“Sempre que um Targaryen nasce, os deuses jogam uma moeda para o alto e o mundo segura o fôlego para ver como ela vai cair.”

A frase popular em Westeros é repetida em diferentes momentos e por diferentes personagens, mas, nos livros, é Sor Barristan Selmy quem a recorda à própria Daenerys. Segundo ele, o avô da rainha, Jaehaerys II, costumava dizer que “a loucura e a grandeza são dois lados da mesma moeda”.

A sombra da insanidade cerca todos os Targaryens, os que gostamos e os que não gostamos, e em Game of Thrones, se transformou em uma espécie de explicação popular para os extremos da dinastia. Ao longo dos anos, muitos passaram a tratá-la como uma regra genética quase inevitável. George R. R. Martin, porém, sempre pareceu mais interessado nas ambiguidades dos Targaryen do que em oferecer respostas fáceis.

A questão se torna ainda mais fascinante porque a terceira temporada de House of the Dragon parece determinada a explorar justamente essa fronteira desconfortável. Depois das mortes dos filhos, das traições, do isolamento e da devastação provocada pela guerra, Rhaenyra se aproxima cada vez mais da figura descrita em Fire & Blood. O retrato que emerge das páginas de George R. R. Martin, entretanto, está muito longe de uma nova versão de Aerys II. O que vemos é uma mulher destruída pelo luto e cercada por inimigos reais e imaginários, em uma situação em que a sobrevivência e a paranoia frequentemente se confundem. De certa forma, é uma ambiguidade semelhante à que acabou cercando a queda de Daenerys em Game of Thrones.

Essa discussão ganha ainda mais relevância em um momento em que a franquia se prepara para revisitar o homem que acabou se tornando o símbolo máximo da chamada loucura Targaryen. A peça Game of Thrones: The Mad King, produzida pela Royal Shakespeare Company, levará aos palcos britânicos os últimos anos de Aerys II e os acontecimentos em torno do Torneio de Harrenhal, um dos episódios decisivos para a queda da dinastia. Décadas depois dos eventos de House of the Dragon, seria justamente o pai de Daenerys quem consolidaria a reputação sombria da família.

Mas nem todos os Targaryen que flertaram com os extremos seguiram o mesmo caminho. Vamos lembrar os que ganharam fama?

Maegor I, o Cruel (nascido em 12 d.C.)
Filho de Aegon, o Conquistador, Maegor é o primeiro Targaryen associado a comportamentos extremos. Seu reinado foi marcado por execuções, torturas e massacres. Mandou matar antigos aliados, exterminou construtores da Fortaleza Vermelha e foi acusado de assassinar duas esposas. Apesar da brutalidade, muitos historiadores de Westeros o consideram mais um tirano sanguinário do que alguém verdadeiramente insano.

Baelor I, o Abençoado (nascido em 144 d.C.)
Sua religiosidade extrema levantou dúvidas até entre seus contemporâneos. Jejuava por longos períodos, aprisionou as próprias irmãs para preservar sua pureza e governava guiado pela fé. Alguns o viam como santo; outros, como fanático.

Rhaegel Targaryen (nascido em 185 d.C.)
É um dos primeiros membros da família explicitamente descritos como excêntricos e mentalmente instáveis nos registros de Fire & Blood e The World of Ice and Fire. Há relatos de que dançava nu pelos salões do castelo e se comportava de maneira considerada estranha até pelos padrões de sua família.

Aerion Brightflame (nascido em 198 d.C.)
Nós o conhecemos em A Knight of the Seven Kingdoms como o príncipe arrogante, cruel e convencido de sua própria superioridade. Aerion é provavelmente o primeiro caso indiscutível de loucura na família. Terminou bebendo fogo-vivo por acreditar que se transformaria em um dragão. É difícil encontrar um exemplo mais claro de delírio.

Aegon V, o Improvável (nascido em 200 d.C.)
Muitos talvez estranhem ver Egg nesta lista. Afinal, o jovem apresentado em A Knight of the Seven Kingdoms se tornaria um dos reis mais bondosos e reformistas da dinastia. Mas vale lembrar o fim de sua história. Já nos últimos anos de vida, Aegon V se tornou cada vez mais determinado a trazer os dragões de volta ao mundo. Morreu na tragédia de Summerhall ao lado de seu herdeiro e de vários parentes e companheiros, entre eles Sor Duncan, o Alto, durante uma tentativa envolvendo fogo-vivo e ovos de dragão. Para alguns, trata-se de um exemplo de obsessão. Para mim, é um caso de loucura comparável ao de Aerion.

Aerys II, o Rei Louco (nascido em 244 d.C.)
O caso mais famoso da dinastia é, naturalmente, o Mad King. Inicialmente carismático e ambicioso, tornou-se cada vez mais paranoico depois do Desafio de Valdocaso. Passou a enxergar inimigos em todos os lugares, desenvolveu fascínio pelo fogo e demonstrava prazer em assistir a pessoas queimarem. Sua queda provocou a Rebelião de Robert e o fim do reinado Targaryen. Também manchou para sempre a vida de seus filhos, especialmente a de Daenerys.

Viserys III Targaryen (nascido em 276 d.C.)
O irmão mais velho e abusivo de Daenerys passou a vida consumido pela perda do Trono de Ferro. Violento, humilhava constantemente a irmã e vivia convencido de que o mundo lhe devia uma coroa. O trauma do exílio e a obsessão pelo poder transformaram o chamado Rei Mendigo em uma figura cada vez mais instável, até que Khal Drogo finalmente lhe deu a coroa de ouro que tiraria sua vida.

Daenerys Targaryen (nascida em 284 d.C.)
Nos livros, sua trajetória ainda está em andamento. Na série Game of Thrones, porém, sua destruição de King’s Landing levou muitos personagens e espectadores a enxergarem nela uma repetição da história do pai. Outros argumentam que sua queda foi resultado de perdas sucessivas, isolamento e da convicção crescente de que apenas o medo garantiria seu reinado. É possível que tenha sido uma combinação das duas coisas.

Rhaenyra Targaryen (nascida em 97 d.C.)
Em Fire & Blood, Rhaenyra não é descrita como uma nova Aerys II, embora seus inimigos a chamem de “Maegor com peitos”, o que tampouco é um grande elogio. A rainha é retratada como uma mulher devastada pelo luto, pela guerra e pelas traições. Sua crescente paranoia e desconfiança fazem dela um dos casos mais ambíguos da história Targaryen, justamente porque é difícil distinguir onde termina o trauma e onde começaria aquilo que Westeros chamaria de loucura. Resta saber como House of the Dragon decidirá contar essa parte da história.

No fundo, a famosa moeda dos deuses talvez nunca tenha separado apenas pessoas sãs de pessoas insanas. Em muitos casos, ela parece produzir extremos. Visionários e fanáticos. Mártires e tiranos. Homens movidos por profecias e mulheres destruídas pela dor. Rhaegar teve suas visões. Baelor, sua fé. Aegon V, os dragões. Daenerys, a convicção de que salvaria o mundo.

A maior ironia dos Targaryen é que ninguém nasce como o Rei Louco. Nem mesmo Aerys II nasceu como o homem que entraria para a história por ordenar que cidades inteiras fossem queimadas. O adorável Egg não carregava, quando criança, os fantasmas de Summerhall. E certamente era impossível olhar para a jovem Rhaenyra da primeira temporada e enxergar a mulher traumatizada que a guerra acabaria produzindo.

George R. R. Martin parece menos interessado em uma maldição genética do que em algo muito mais humano. Afinal, quando uma família cresce convencida de que foi escolhida pelos deuses, possui dragões capazes de destruir cidades e acredita carregar o destino do mundo sobre os ombros, a verdadeira pergunta talvez nunca tenha sido de que lado a moeda caiu.

A verdadeira pergunta é por quanto tempo ela continua girando.


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