Antes de ser a exceção, descubra qual é a regra

Nos últimos meses, acompanhando a separação de uma amiga, me peguei pensando em uma pergunta desconfortável. Não porque a história dela fosse particularmente extraordinária. Pelo contrário. Talvez justamente porque fosse tão humana.

Em algum momento, em meio às conversas inevitáveis que acompanham o fim de um relacionamento, surgiu uma pergunta que me pareceu familiar. Quando escutamos a história amorosa de alguém e percebemos certos padrões, por que insistimos em acreditar que conosco será diferente?

Não falo isso em tom de julgamento. Pessoas mudam. Relacionamentos mudam. Um erro não condena ninguém para sempre. Talvez por isso eu tenha me lembrado de uma brincadeira que circulou nas redes sociais. Pedimos referências antes de contratar uma babá ou um funcionário, mas nunca pensamos em pedir referências dos ex-namorados. A autora da observação dizia, em tom de humor, que estaria perfeitamente disposta a conversar com as futuras companheiras de todos os seus ex.

A graça da piada está justamente em sua impossibilidade. Nenhuma ex é capaz de prever o futuro. Mas talvez ela esconda uma questão mais interessante. Por que, quando nos apaixonamos, tendemos a acreditar que seremos a exceção?

A pergunta não é se as pessoas podem mudar. A pergunta é por que estamos tão convencidos de que será o nosso amor que produzirá essa mudança. Como se fôssemos capazes de interromper sozinhos uma história inteira. Como se décadas de medos, defesas e padrões pudessem ser dissolvidas pela chegada da pessoa certa.

Talvez a força dessa fantasia venha do fato de que fomos educados por ela. Desde a infância, aprendemos que existem pessoas escolhidas. Entre todas as mulheres do reino, Cinderela é a única em quem serve o sapatinho de cristal. Em A Bela e a Fera, o amor de Bela salva a Fera de si mesma.

Décadas de romances, novelas e comédias românticas continuaram a repetir a mesma ideia. Em Uma Linda Mulher, Vivian transforma Edward. Em Grease, Sandy e Danny mudam um pelo outro. Em Sex and the City, Carrie nunca abandona completamente a esperança de que Big finalmente seja diferente.

Talvez uma das maiores dificuldades da ficção esteja justamente aí. Ela sabe contar histórias de paixões impossíveis, de triângulos amorosos e de grandes tragédias, mas raramente parece saber o que fazer com casais felizes. Já escrevi outras vezes sobre como filmes, livros e séries insistem em associar amor verdadeiro a sofrimento. Como se intensidade fosse prova de autenticidade. Como se a dor fosse uma medida do amor.

A música popular não é muito diferente. Boa parte da obra de Taylor Swift é atravessada por essa esperança. Em Cardigan, existe a crença de que, depois de todas as escolhas erradas, alguém acabará retornando ao seu verdadeiro lar. Em Peter, permanece a expectativa de que uma promessa antiga finalmente seja cumprida. Em You’re Losing Me, o amor esbarra na dolorosa descoberta de que amar alguém não é suficiente para fazê-lo lutar pela relação. Mais recentemente, Opalite parece voltar a uma pergunta que atravessa boa parte de sua obra: até que ponto a esperança de uma transformação é uma forma de amor e em que momento ela se transforma em uma aposta na fantasia de que, desta vez, o resultado será diferente?

Shania Twain transformou em hino uma versão mais feliz dessa mesma crença. You’re Still the One celebra a ideia de que, entre todos os relacionamentos, um foi capaz de sobreviver.

Não há nada de ridículo nisso. Pelo contrário. Talvez toda pessoa apaixonada carregue uma pequena dose de arrogância. Não no pior sentido da palavra, mas na crença profundamente humana de que conseguirá aquilo que ninguém conseguiu antes e é acreditar que comigo será diferente.

Freud provavelmente desconfiaria dessa ideia. Em Além do Princípio do Prazer, ele descreveu aquilo que chamou de compulsão à repetição. Existe em nós uma tendência a reviver padrões familiares, inclusive aqueles que nos fazem sofrer. Não porque desejemos a dor, mas porque aquilo que conhecemos costuma ser menos assustador do que aquilo que desconhecemos.

Jung ofereceu uma formulação que se tornaria ainda mais famosa. “Até que você torne o inconsciente consciente, ele dirigirá sua vida e você o chamará de destino.” Aquilo que parece azar, coincidência ou uma sucessão inexplicável de histórias semelhantes talvez seja, em parte, uma repetição que ainda não conseguimos reconhecer.

Isso não significa que as pessoas estejam condenadas aos mesmos erros. Se fosse assim, a própria análise não faria sentido. A questão é que a mudança não acontece por milagre. Freud jamais diria que ninguém muda. Mas provavelmente perguntaria algo menos romântico e mais difícil: o que essa pessoa fez com as histórias anteriores? O que aprendeu? O que elaborou?

Porque não se transforma aquilo que se nega. E talvez seja por isso que conhecer a história amorosa de alguém não devesse servir para procurar culpados, mas para compreender padrões. Como essa pessoa lida com conflitos? Com rejeições? Com a intimidade? Com frustrações? E, mais importante ainda, quais são os meus próprios padrões?

Porque a verdade desconfortável é que nós também repetimos. Também escolhemos pessoas parecidas. Também voltamos aos mesmos lugares emocionais. Também somos os ex de alguém.

A cultura pop prefere acreditar que uma pessoa especial muda a outra. Freud e Jung talvez apostassem em algo mais modesto e, paradoxalmente, mais esperançoso. Pessoas mudam. Relações se transformam. Mas o amor, sozinho, dificilmente produz essa mudança.

Talvez o amor mais maduro comece justamente quando abandonamos a pergunta romântica — “por que ele mudaria por mim?” — e passamos a fazer outra, muito menos cinematográfica e muito mais importante: existe algo nessa pessoa que mostra que ela já começou a mudar por si mesma?

Porque talvez o problema seja que entramos nos relacionamentos procurando ser a exceção, sem perceber que a exceção não é o começo da história.

Ela é, quando existe, resultado de consciência, elaboração e transformação.


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