Poucos balés ocupam um lugar tão especial na história do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro quanto Dom Quixote. Há mais de quatro décadas, o clássico de Marius Petipa acompanha diferentes gerações de bailarinos da companhia, revela estrelas, recebe alguns dos maiores nomes da dança mundial e se transforma, a cada remontagem, em um acontecimento para o público carioca. Agora, quatro anos depois de sua última temporada, o Municipal prepara o reencontro com um de seus espetáculos mais queridos para a temporada de agosto.
Depois de Le Corsaire e La Fille Mal Gardée, a escolha de trazer Dom Quixote de volta ao palco parece natural. É um balé que desafia os primeiros bailarinos, valoriza o conjunto da companhia e, ao mesmo tempo, conquista o público com humor, romance, virtuosismo e uma das partituras mais populares da história da dança, composta por Ludwig Minkus.
Embora inspirado na obra-prima de Miguel de Cervantes, o balé criado por Petipa concentra sua narrativa no romance entre Kitri e Basílio, deixando o Cavaleiro da Triste Figura como uma presença quase poética. Sempre gostei de pensar em Dom Quixote como um “Petipa apaixonado”. Mais do que adaptar um clássico da literatura, o coreógrafo francês transformou sua admiração pela cultura espanhola em um espetáculo vibrante, repleto de danças populares, cores, humor e uma alegria contagiante que atravessa gerações. Talvez por isso permaneça, mais de 150 anos depois de sua estreia, entre os balés mais apresentados do mundo.

Sua popularidade, porém, não se explica apenas pelo carisma da história. Dom Quixote é também um dos maiores desafios do repertório clássico. Kitri e Basílio exigem força, velocidade, precisão e uma impressionante capacidade de interpretação. Os famosos fouettés, os grandes saltos e os exigentes pas de deux convivem com uma narrativa teatral que pede atores tão bons quanto bailarinos. É um espetáculo que depende das estrelas, mas também de um corpo de baile coeso, musical e cheio de personalidade.
No Rio de Janeiro, Dom Quixote ganhou um significado especial em 1982, quando Dalal Achcar apresentou uma produção que passou a integrar definitivamente o repertório do Ballet do Theatro Municipal. Com os cenários exuberantes de José Varona e um inesquecível Dom Quixote vivido por Desmond Doyle, a montagem reuniu um elenco internacional que incluía Graham Bart, Mark Silver, Andrew Levinson, Fernando Bujones, Yoko Morishita, Zhandra Rodríguez e Jean-Yves Lormeau. Em meio a tantas estrelas convidadas, apenas Ana Botafogo e Sílvia Barroso representavam o elenco da casa. Foi justamente na matinê em que Ana dançou ao lado de Graham Bart que tive meu primeiro encontro com esse Dom Quixote. A parceria artística se transformaria em uma história de amor: os dois se casaram pouco depois da temporada, e Bart passou a integrar permanentemente o Ballet do Theatro Municipal até sua morte trágica, em 1988.
Essa tradição se manteve ao longo das décadas. Dom Quixote voltou em diferentes momentos importantes da história da companhia e foi escolhido, por exemplo, para celebrar os 85 anos do Theatro Municipal, em 1994, em uma temporada que reuniu Ana Botafogo e Cecília Kerche no papel de Kitri. Ao lado delas brilharam convidados como Igor Zelensky, então primeiro bailarino do Kirov Ballet. Em 2010, Marcelo Gomes e Dorothée Gilbert mantiveram viva uma tradição que sempre fez da produção carioca uma vitrine para grandes artistas da dança.

A versão atualmente em repertório nasceu em 2022, quando Hélio Bejani e Jorge Teixeira assinaram uma remontagem que respeita a tradição construída por Dalal Achcar, mas dialoga com o momento artístico vivido pela companhia. A identidade da dupla aparece de forma muito clara: um elenco masculino tão valorizado quanto o feminino, uma dança que privilegia a interpretação, o humor e a construção dos personagens, além de um espetáculo que explora a personalidade de cada artista tanto quanto sua técnica. É uma leitura contemporânea que preserva a essência do clássico sem abrir mão de aproximá-lo do público de hoje.
Essa visão conversa diretamente com a evolução recente do Ballet do Municipal. A companhia atravessa um momento de maturidade artística, com um elenco capaz de sustentar grandes clássicos e uma proposta que valoriza tanto a excelência técnica quanto a força dramática de seus intérpretes. Em Dom Quixote, isso faz toda a diferença. Mais do que executar passos difíceis, os bailarinos precisam seduzir, divertir e emocionar.

Quatro anos depois de sua última apresentação, o retorno de Dom Quixote representa muito mais do que a volta de um clássico. É o reencontro do Ballet do Theatro Municipal com uma obra que ajudou a construir sua identidade ao longo de mais de quatro décadas. Depois do sucesso de Le Corsaire e La Fille Mal Gardée, trazer novamente ao palco um espetáculo que desafia seus artistas, celebra sua história e desperta tanta saudade no público parece uma escolha inevitável. Os ensaios já acontecem a pleno vapor e tudo indica que, quando a cortina subir em agosto, Kitri, Basílio e o sonhador cavaleiro de Cervantes voltarão a provar por que Dom Quixote continua sendo um dos maiores triunfos do repertório clássico e um dos balés mais amados da história do Theatro Municipal.
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