A cada novo episódio de Cape Fear, fica mais difícil ignorar uma sensação que eu já tinha desde o anúncio da série: algumas histórias simplesmente não precisam ser transformadas em oito ou dez horas de televisão.
A história de vingança criada por John D. MacDonald, sobre um criminoso que merecia estar preso, mas foi condenado também graças às traições e irregularidades cometidas por sua própria advogada, já havia saído da literatura para chegar ao cinema em duas versões muito elogiadas. A segunda, dirigida por Martin Scorsese e estrelada por Robert De Niro, tornou-se um clássico justamente porque entendia que aquela era uma narrativa de intensidade, paranoia e violência concentradas. Em pouco mais de duas horas, construía um dos antagonistas mais aterrorizantes da história do cinema.

A ideia de revisitar essa história para colocar Javier Bardem no papel de Max Cady certamente deve ter sido irresistível. Se existe um ator contemporâneo capaz de rivalizar com o poder de intimidação que De Niro trouxe ao personagem, esse ator é Bardem. Poucos intérpretes em atividade conseguem transmitir, ao mesmo tempo, ameaça física, inteligência e imprevisibilidade com tamanha naturalidade.
O problema é que escalar Bardem não resolve a questão fundamental: transformar uma história concebida para duas horas em uma série de oito ou dez episódios exige muito mais do que adicionar cenas e personagens. Exige encontrar uma nova história para contar. E Cape Fear claramente não encontrou.
Chegamos ao sexto episódio mais irritados com os protagonistas do que com o próprio Max Cady. Patrick Wilson e Amy Adams, ambos parecendo desconfortáveis em seus papéis, continuam escondendo um segredo que o próprio Max aparentemente já conhece, o fato de terem participado da conspiração que levou à sua condenação. Como insistem em mentir, omitir e agir de forma inexplicavelmente ambígua, acabam tornando impossível acreditar em qualquer tentativa da série de nos convencer de que Max talvez esteja se aproximando da família com boas intenções.
No esforço de expandir a narrativa, a adaptação ainda toma decisões cada vez mais estranhas. Juliette Lewis surge em um papel que permanece praticamente inexplicável até agora, interpretando uma mulher do passado de Max que o atormenta. A série também inventa uma filha jovem para o personagem, aparentemente como forma de driblar a perturbadora obsessão sexual que ele desenvolvia pela filha dos Bowden nas versões anteriores. Ao mesmo tempo, transfere para essa nova personagem alguns dos atos mais violentos e perversos tradicionalmente associados a Max.


O resultado é curioso: ao tentar tornar a história mais contemporânea e psicologicamente sofisticada, Cape Fear acaba enfraquecendo justamente aquilo que tornava sua premissa tão poderosa. E pior: os Bowden não se tornam personagens mais humanos ou complexos. Tornam-se apenas profundamente irritantes.
Apenas nos minutos finais do sexto episódio, o casal finalmente parece voltar a ocupar o mesmo lado da história: o lado contrário a Max Cady. Mas talvez já seja tarde demais. Restando apenas quatro episódios, é difícil acreditar que a série conseguirá resolver adequadamente uma trama que passou mais da metade de sua duração andando em círculos. E, se conseguir, a conclusão inevitável será ainda mais frustrante: a de que toda essa história poderia, mais uma vez, ter sido contada em duas horas.
Nem mesmo a extraordinária trilha de Elmer Bernstein escapa ilesa. Reutilizada constantemente, ela acaba reforçando uma sensação de melodrama excessivo, quase como se a série precisasse lembrar continuamente o espectador da grande obra que está tentando reproduzir.
Cape Fear tinha todos os elementos para ser um dos grandes dramas televisivos do ano: uma obra-prima como material de origem, Javier Bardem no auge da carreira e recursos praticamente ilimitados. Até agora, porém, o resultado parece apenas uma demonstração cara de que nem todo clássico precisa ser transformado em série. Uma bola fora impressionante e um desperdício ainda mais impressionante de talento e dinheiro.
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