Enquanto reclamo que Silo e Sugar precisam urgentemente de uma reviravolta capaz de reorganizar suas histórias, Cape Fear segue na direção oposta. A série é um mar revolto de revelações, traições, cadáveres, recaídas, segredos de paternidade, prisões e personagens tomando decisões cada vez mais absurdas. Tudo é apresentado como uma surpresa. Pouca coisa, porém, ainda consegue realmente surpreender.
Já falei do meu desapreço por esta nova versão, exageradamente dramática e completamente afundada na cafonice. Nem mesmo as ótimas atuações de Amy Adams, Patrick Wilson, Javier Bardem e do restante do elenco conseguem salvar uma narrativa que confunde intensidade com excesso. Cape Fear nunca entra simplesmente em uma situação perigosa quando pode acrescentar drogas, alucinações, filhos secretos, corpos mutilados, pais abusivos e mais uma chantagem emocional.


O mérito da série talvez seja deixar cada vez mais claro — isto é, cada vez mais confuso — o quanto Anna e Tom Bowden estão distantes de qualquer integridade moral. Nick Antosca disse que pretendia criar uma versão com mais ambiguidade, na qual nem mesmo Max Cady fosse apresentado de maneira tão simples quanto nos filmes anteriores. A intenção era retirar dos Bowden a posição confortável de vítimas irrepreensíveis e explorar culpa, vergonha e responsabilidade.
O problema é que a série foi tão longe nessa direção que acabou retirando também nossa ligação emocional com praticamente todos. Esta já não é apenas uma história sobre uma família ameaçada por um criminoso. É uma história povoada por criminosos, manipuladores, mentirosos e pessoas dispostas a violar qualquer limite para conservar a versão de si mesmas que construíram.
Não há exatamente por quem torcer. Resta apenas antecipar o próximo banho de sangue, a próxima surpresa e a próxima derrota.
A vingança de Max Cady chegou ao ápice. Em tese
No oitavo episódio, intitulado “Los tiempos de Dios son Perfectos”, Max Cady consegue praticamente tudo o que desejava desde que saiu da prisão. Tom é preso. Anna volta a beber. Zack continua internado involuntariamente depois de seu colapso. Natalie descobre que Max pode ser seu pai biológico, atira nele e também termina sob custódia. Ao fim do capítulo, três integrantes da família estão presos ou internados, enquanto Anna permanece sozinha e armada.
A breve vitória dos Bowden dura apenas alguns minutos. Depois de usarem Brandon, pai de Anna, para plantar drogas na casa de Max, Tom e Anna comemoram enquanto ele é levado pela polícia. A cena parece anunciar que o casal finalmente decidiu enfrentar Cady em seu próprio terreno. Na verdade, confirma apenas que eles ainda não aprenderam nada.
Natalie encontra o corpo esquartejado de Ray dentro de uma caixa térmica no fundo da piscina da família. Os projéteis retirados do cadáver apontam para uma arma de nove milímetros, e Tom percebe que sua Glock foi adulterada. Em vez de contar imediatamente à polícia, ele esconde a arma comprometida e entrega outra aos investigadores, tomando mais uma decisão que parece concebida especificamente para ajudá-lo a ser preso.
Tom está certo ao afirmar que seria particularmente estúpido matar Ray, esquartejá-lo e abandonar o corpo na própria piscina. Infelizmente, toda a temporada foi construída sobre personagens inteligentes tomando decisões tão inacreditavelmente ruins que essa defesa já não parece suficiente.
A situação se torna ainda pior quando Brandon aparece na televisão ao lado de Max e revela que foi contratado para plantar as drogas. Tom não é preso apenas pelo assassinato de Ray, mas também porque sua tentativa de incriminar Cady fornece o motivo necessário para que a polícia acredite que ele teria eliminado o investigador. Max não precisa inventar a culpa dos Bowden. Precisa apenas organizar suas escolhas para que pareçam ainda mais criminosas do que já eram.
Este continua sendo o método mais eficiente de Cady. Ele não obriga a família a se destruir. Apenas cria as condições e observa enquanto cada integrante escolhe o pior caminho possível.

A paternidade de Natalie destrói o que restava do casamento
As fotografias recuperadas do material de Ray incluem uma imagem de Anna beijando Max. Tom finalmente exige uma explicação para aquilo que Cady vem insinuando desde o início da temporada: a possibilidade de Natalie não ser sua filha.
Anna não consegue oferecer uma resposta definitiva porque não sabe o que aconteceu. Quando conheceu Max, ela enfrentava um período grave de alcoolismo, passava por apagões e frequentemente não se lembrava do que havia feito. Ela revela que saiu para beber com Cady enquanto ainda acreditava em sua inocência, mas não sabe se os dois tiveram uma relação sexual. Se Anna estava incapaz de consentir, naturalmente não estaríamos falando apenas de uma traição, mas de uma possível violência.
A série introduz essa ressalva importante, mas a envolve em tantas revelações simultâneas que até uma possível agressão sexual corre o risco de se transformar em mais uma peça do melodrama. O que poderia reorganizar completamente nossa compreensão da relação entre Anna e Max é lançado junto da dúvida sobre a paternidade de Natalie, da prisão de Tom, da recaída de Anna e da dissolução do casamento.
Tom não consegue mais confiar na mulher. Anna não consegue reconstruir com segurança a própria memória. Natalie percebe que sua identidade foi construída sobre um silêncio que os pais decidiram preservar durante 17 anos. O segredo que deveria proteger a família torna-se exatamente aquilo que permite a Max destruí-la.
O melhor momento do episódio surge quando Anna finalmente conversa com a filha. Natalie não a absolve de todas as escolhas, mas compreende que uma mulher inconsciente não poderia consentir com uma relação sexual. É uma rara tentativa de transformar uma revelação em algo emocionalmente significativo, em vez de utilizá-la apenas para preparar a próxima prisão.
Naturalmente, Cape Fear não consegue permanecer nesse registro por muito tempo.
Anna volta a beber e diz à filha que a perseguição só terminará quando Max estiver morto ou quando todos eles estiverem. Natalie interpreta a frase quase literalmente, pega uma arma e vai até a casa dele.

Natalie atira em Max, mas entrega exatamente o que ele queria
Natalie finalmente parece compreender que Cady a manipulou. Ela já sabe que ele matou Ray, percebe que foi usada durante a viagem a Cape Fear e começa a enxergar o homem por trás das histórias sobre destino, família e justiça.
Ainda assim, decide confrontá-lo sozinha.
Max a provoca até que ela atire em seu abdômen. O ferimento é grave o suficiente para transformar Natalie em agressora e Cady em vítima, mas não para impedi-lo de continuar sua vingança. Cercado por policiais e rapidamente atendido, ele consegue mais uma vez usar a violência sofrida como prova pública de que os Bowden são exatamente as pessoas que sempre afirmou que eram.
Natalie é presa. Quando Anna pergunta o que aconteceu, a filha responde apenas que errou o tiro.
O problema é que nunca acreditamos que Max morrerá naquela cena. A série já repetiu tantas vezes a mesma estrutura — Cady provoca, um Bowden perde o controle, Max transforma a agressão em vantagem — que até suas maiores reviravoltas se tornaram previsíveis. O excesso de acontecimentos não produz necessariamente movimento. Em alguns casos, apenas repete uma fórmula em volume mais alto.
É justamente o oposto do que acontece em Silo e Sugar. Nelas, a história parece temer a virada capaz de romper o impasse. Em Cape Fear, os roteiristas parecem temer qualquer minuto no qual nada esteja explodindo.
Nos três casos, o problema acaba sendo semelhante. Uma reviravolta só importa quando modifica nossa compreensão da história. Não basta piorar a situação dos personagens.
Quando todos são moralmente condenados
Max acredita ter vencido. No hospital, explica a Anna que seu objetivo nunca foi simplesmente matá-la. Ele queria destruir sua família, retirar sua liberdade, separar o casal e obrigá-los a experimentar a mesma impotência que ele sentiu durante os 17 anos em que esteve preso.
Anna quase o estrangula ali mesmo, confirmando mais uma vez como ele consegue conduzir cada integrante da família até o comportamento que deseja expor. Depois, localiza o barco de Crystal em Cape Fear, pega um revólver e parte sozinha.
A série prepara, enfim, o retorno ao lugar que dá nome à história. Ainda temos dois episódios: “The Scar”, em 24 de julho, e “The Executioners”, em 31 de julho. O título do capítulo final recupera diretamente o nome do romance de John D. MacDonald que originou as adaptações anteriores.
Isso sugere que os últimos episódios devem discutir não apenas quem sobreviverá, mas quem assumirá o direito de executar uma sentença. Max acredita estar aplicando sua própria justiça. Anna parece pronta para abandonar definitivamente a lei. Tom tentou fabricar provas. Natalie tentou matar Cady. Nevaeh ajudou o pai a invadir e aterrorizar os Bowden. Até os adolescentes foram arrastados para a lógica de vingança dos adultos.
O confronto final no rio Cape Fear continua parecendo inevitável, embora a série ainda possa modificar completamente a estrutura conhecida dos filmes. Anna está seguindo a localização de Crystal, personagem que conhece a infância de Max, o observou durante anos e pode ser sua inimiga, sua protetora ou as duas coisas ao mesmo tempo. Essa possível aliança é, por enquanto, a única pista concreta sobre o movimento seguinte.
Também permanecem abertos a verdadeira paternidade de Natalie, a responsabilidade de Max pela morte original, o destino de Zack, a situação de Tom e a função final de Nevaeh. Com apenas dois episódios, Cape Fear ainda precisa resolver tudo isso, conduzir os personagens até o rio e encontrar espaço para alguma nova revelação que provavelmente tentará superar todas as anteriores.
Estou sem a menor paciência.

Talvez Max já tenha vencido
O aspecto mais interessante do episódio é que a vitória de Cady independe de ele sobreviver ao final. Caso Anna o mate, ele poderá morrer tendo transformado uma advogada em assassina, destruído seu casamento e colocado seus filhos dentro do sistema criminal que ela dizia combater. Caso sobreviva, continuará controlando uma história na qual aparece como um homem injustamente condenado e depois atacado pela família responsável por sua prisão.
Essa é uma construção inteligente. Também é uma armadilha para a própria série, porque torna qualquer novo sofrimento dos Bowden apenas uma confirmação daquilo que Max já anunciou.
A ambiguidade moral pretendida por Cape Fear deveria tornar a história mais complexa. Em vez disso, muitas vezes deixa um vazio. Max é um assassino, manipulador e torturador. Anna e Tom mentiram, manipularam provas e esconderam partes fundamentais do passado. Natalie e Zack foram abandonados emocionalmente por adultos ocupados demais protegendo seus segredos. Nevaeh foi transformada pelo pai em instrumento de vingança.
Quando todos estão moralmente condenados, não há exatamente uma disputa entre bem e mal. Há apenas pessoas tentando decidir quem terá a oportunidade de causar o último dano.
Talvez seja por isso que o excesso de reviravoltas já não me prenda. Não estou esperando que os Bowden vençam. Tampouco quero assistir a Max conquistar mais uma vitória acompanhada daquele sorriso satisfeito. Estou apenas aguardando que a série cumpra o destino prometido por seu próprio título e leve todos até o rio.
Desta vez, sinceramente, espero que pereçam na tempestade que se aproxima. Se é que haverá uma.
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