O maior mistério de Sugar nunca foi John ser um alienígena

Há séries que fazem sucesso porque entregam exatamente o que prometem. E há séries como Sugar, que parecem prosperar justamente porque ninguém consegue explicar direito o que elas são.

Quando estreou, em 2024, a produção da Apple TV foi vendida como um elegante noir contemporâneo sobre um detetive particular especializado em encontrar pessoas desaparecidas. E, durante boa parte de sua primeira temporada, foi exatamente isso: uma carta de amor ao cinema clássico, repleta de referências a Hollywood dos anos 1940, trilha sonora melancólica, carros antigos, ternos impecáveis e uma atuação extraordinariamente contida de Colin Farrell como John Sugar.

O problema — ou a genialidade, dependendo do ponto de vista — é que Sugar escondia outro gênero dentro de si. Ao investigar o desaparecimento de Olivia Siegel, neta de um lendário produtor de Hollywood, John Sugar revela não ser apenas um detetive melancólico e apaixonado por filmes antigos. Ele é, literalmente, um extraterrestre vivendo secretamente entre humanos, integrante de uma sociedade de observadores enviada à Terra para estudar a humanidade.

A revelação foi tão inesperada que dividiu completamente a audiência. Alguns espectadores abandonaram a série imediatamente. Outros, fascinados pela audácia, decidiram embarcar na proposta. O curioso é que, mesmo depois da revelação, Sugar nunca se tornou realmente uma série de ficção científica. Continuou sendo, essencialmente, uma história sobre perda.

Ao longo da primeira temporada, descobrimos que John se tornou especialista em pessoas desaparecidas porque jamais conseguiu superar o desaparecimento de sua própria irmã, Djen. E o episódio final transforma essa dor em algo ainda mais perturbador: a pista deixada por Henry, seu amigo e mentor, sugere que ele próprio esteve envolvido no desaparecimento dela. John decide permanecer na Terra para descobrir a verdade, enquanto seus companheiros começam a partir.

Esse é justamente o ponto de partida da segunda temporada, que estreou este mês recebendo críticas mais positivas do que a primeira. Sem tentar repetir o choque da revelação extraterrestre, a nova fase parece mais confortável com sua própria identidade. John agora está praticamente sozinho na Terra, ainda obcecado pelo paradeiro da irmã, enquanto aceita um novo caso envolvendo o desaparecimento do irmão de um jovem boxeador em Los Angeles, uma investigação que rapidamente se expande para corrupção policial, crime organizado e uma conspiração muito maior do que aparentava inicialmente.

A crítica tem elogiado justamente essa mudança de foco. Em vez de tentar explicar imediatamente toda a mitologia alienígena, a série dobra a aposta em seus melhores elementos: a atmosfera noir, a melancolia existencial, a fotografia deslumbrante de Los Angeles e a atuação delicada de Farrell, que continua interpretando John Sugar menos como um extraterrestre e mais como alguém profundamente apaixonado pela humanidade. E talvez seja exatamente isso que torne Sugar uma experiência tão singular e tão frustrante.

Porque, no fundo, nunca assistimos à série para descobrir como funciona sua civilização alienígena. Assistimos porque gostamos de acompanhar John Sugar dirigindo pelas ruas de Los Angeles ao som de jazz, citando filmes antigos, vestindo ternos impecáveis e tentando entender pessoas que, paradoxalmente, parecem muito mais estranhas do que ele.

Ainda assim, depois de duas temporadas, permanece a sensação de que Sugar continua evitando responder à única pergunta que realmente importa: a história de John Sugar começou onde exatamente, e, mais importante, para onde ela pretende ir?


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