A cada quatro anos, bilhões de pessoas participam voluntariamente de uma experiência psicológica coletiva que, em qualquer outro contexto, pareceria absurda. Adultos choram diante da televisão. Desconhecidos se abraçam nas ruas. Países inteiros entram em estados alternados de euforia, esperança, superstição e luto. E tudo isso por causa de um jogo cujo resultado ninguém controla.
A Copa do Mundo talvez seja o maior experimento de psicologia das massas já criado.
Freud escreveu, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, que, ao ingressar em uma multidão, o indivíduo abre mão de parte de sua identidade para participar de algo maior. No futebol, isso acontece de forma literal. Não dizemos “o Brasil venceu”. Dizemos “nós vencemos”. Não dizemos “a Argentina perdeu”. Dizemos “eles perderam”. O time nacional deixa de ser uma equipe esportiva para se tornar uma extensão do nosso próprio eu.
Talvez por isso a Copa produza emoções tão violentas. Não assistimos apenas a partidas. Assistimos a versões dramatizadas de nossas próprias fantasias.
E, em 2026, essa dinâmica aparece de forma particularmente interessante.

O Brasil, único pentacampeão do mundo, entra no mata-mata cercado por algo relativamente raro em sua história: a desconfiança. Pela primeira vez em décadas, boa parte dos brasileiros parece acreditar mais na possibilidade de uma conquista da Argentina ou da França do que na própria seleção. Psicologicamente, isso produz um fenômeno curioso: quando a identificação narcísica enfraquece, cresce a ansiedade. O torcedor deixa de esperar a confirmação de sua grandeza e passa a se preparar para a frustração.
Ao mesmo tempo, surgem as narrativas que talvez sejam as mais poderosas de toda Copa: as histórias de Davi contra Golias.
Já foram Camarões em 1990. Já foi Gana em 2010. Hoje, sem dúvida, é Cabo Verde.
Por que nos apaixonamos por essas seleções?


Porque elas representam algo muito maior do que futebol. Elas encarnam uma das fantasias mais fundamentais da experiência humana: a possibilidade de que o improvável aconteça. De que os pequenos possam derrotar os grandes. De que talento, coragem e acaso sejam capazes de desafiar estruturas aparentemente imutáveis de poder.
Torcer por Cabo Verde não é apenas torcer por Cabo Verde. É torcer pela ideia de que o mundo talvez seja mais justo, mais surpreendente e menos previsível do que imaginamos.
Por outro lado, as grandes seleções representam algo diferente. Argentina, França, Brasil ou Alemanha funcionam como projeções de fantasias de ordem, poder e continuidade histórica. Esperamos delas não apenas vitórias, mas a confirmação de que certas hierarquias continuam fazendo sentido.
Os craques ocupam um lugar ainda mais complexo.
Eles não são apenas jogadores. São recipientes para desejos coletivos. Messi representou a redenção. Mbappé representa a potência absoluta. Pelé representou a perfeição possível. Maradona representou a rebeldia triunfante. Cada geração escolhe seus heróis não apenas pelo talento que possuem, mas pelas fantasias que precisam sustentar.
E então chegamos ao mata-mata, talvez a invenção psicológica mais cruel do esporte.


A fase de grupos ainda preserva a ilusão de controle. Existe amanhã. Existe recuperação. Existe reparação. O mata-mata, ao contrário, introduz algo profundamente humano e profundamente aterrador: a finitude.
Um único erro ou um único gol e tudo acaba.
Não é coincidência que as partidas eliminatórias sejam vividas quase como experiências traumáticas coletivas. Elas reproduzem uma das maiores angústias humanas: a descoberta de que certos acontecimentos são irreversíveis.
Talvez seja justamente por isso que a Copa do Mundo continue fascinando bilhões de pessoas. Porque, sob a aparência de um torneio esportivo, ela encena algo muito mais antigo. Uma história sobre pertencimento e exclusão. Sobre heróis e monstros. Sobre esperança e fracasso. Sobre o desejo permanente de acreditar que, desta vez, o impossível pode acontecer.
E talvez seja exatamente por isso que, mesmo sabendo que se trata apenas de futebol, continuamos sofrendo como se fosse a nossa própria vida.
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