Quando entrevistei Anastácia para a CLAUDIA, em maio de 2020, ela estava completando 80 anos em pleno isolamento social. O aniversário seria comemorado em família, dentro de casa, enquanto a pandemia adiava os planos para um novo álbum e transformava qualquer celebração em algo necessariamente mais íntimo. Ainda assim, ela parecia extraordinariamente tranquila. “Estou pronta para o restinho que vem ainda”, disse, antes de rir.
Seis anos depois, após mais um aniversário da artista, em maio, e mais um São João que já virou festa julina, me pego pensando naquela conversa e na playlist que ela preparou para as leitoras da revista. Não porque junho tenha acabado, mas justamente porque a obra de Anastácia nunca pertenceu apenas ao calendário das festas juninas.
Anastácia escreveu canções sobre saudade. E saudade, felizmente ou infelizmente, não tem calendário.

Ela nasceu Lucinete Ferreira, no Recife, e se transformou na Rainha do Forró. Compôs mais de mil canções gravadas por artistas como Luiz Gonzaga, Gal Costa, Nana Caymmi e Gilberto Gil. Ao lado de Dominguinhos, seu parceiro musical e companheiro por mais de uma década, escreveu cerca de 250 músicas. Mas, para a maioria dos brasileiros, existe uma canção que sintetiza tudo o que Anastácia representa: “Eu Só Quero um Xodó”.
É difícil pensar em outra música popular brasileira que tenha conseguido algo semelhante. Gravada mais de 400 vezes ao longo de cinco décadas, ela atravessou gerações, gêneros e intérpretes sem perder a simplicidade original. E talvez seja justamente essa simplicidade o seu maior mistério.
Quando perguntei a Anastácia como havia nascido “Eu Só Quero um Xodó”, ela me contou uma história que parece resumir toda a grande tradição da música popular brasileira. Dominguinhos estava em casa, tocando uma melodia, enquanto ela preparava o almoço. De repente, ouviu a palavra “xodó” na cabeça. Largou o peixe no fogo, desligou o fogão e escreveu as duas estrofes da canção. Voltou, cantou para Dominguinhos e a música estava pronta.
Não houve planejamento estratégico, laboratório criativo ou busca pela canção perfeita. Houve apenas vida acontecendo.
Talvez seja por isso que “Eu Só Quero um Xodó” continue parecendo tão contemporânea. A letra não explica a ausência, não constrói uma narrativa de amor perdido e não oferece solução. Ela apenas reconhece um sentimento universal: a falta.
“Que falta eu sinto de um bem…”
Poucas vezes a música brasileira foi tão econômica e tão devastadora ao mesmo tempo.

Ao revisitar a playlist que Anastácia montou para a CLAUDIA aos 80 anos, outra coisa me chama a atenção. Ela não escolheu apenas músicas de festa. Escolheu canções sobre memória, desejo, pertencimento e, sobretudo, saudade. Ao lado de clássicos de Luiz Gonzaga, aparecem suas próprias composições com Dominguinhos, como “Sanfona Sentida”, “Eu Me Lembro” e, claro, “Eu Só Quero um Xodó”. Era menos uma seleção junina e mais uma autobiografia afetiva.
Minha música favorita de Anastácia continua sendo justamente “Eu Só Quero um Xodó”. Talvez porque ela contenha, em pouco mais de dois minutos, tudo aquilo que a compositora sempre soube transformar em arte: a ausência, o desejo e a esperança de reencontrar algo que sentimos ter perdido. E talvez seja essa a maior prova de sua grandeza.
Embora tenha recebido o título de Rainha do Forró, Anastácia nunca escreveu apenas para fazer dançar. Escreveu para explicar aquilo que, muitas vezes, sequer conseguimos nomear: a saudade de alguém, de algum lugar ou até de uma versão de nós mesmos que já não existe mais.
Por isso, mesmo quando junho acaba, as músicas de Anastácia permanecem. Porque, no fundo, elas nunca foram sobre São João.
Sempre foram sobre sentir.
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