Quando Yellowstone terminou e Taylor Sheridan anunciou dois spin-offs ambientados no presente — Marshals, centrado em Kayce Dutton, e Dutton Ranch, acompanhando Beth e Rip em uma nova vida no Texas — havia uma pergunta inevitável: qual dessas séries herdaria o verdadeiro espírito da produção original?
A resposta, depois da primeira temporada de Dutton Ranch, parece bastante clara.
A série não apenas confirmou uma das maiores teorias dos fãs — a de que o Rancho 10 Petal operava em associação com um cartel mexicano — como também provou algo que muitos espectadores suspeitavam havia anos: Beth Dutton e Rip Wheeler sempre foram o verdadeiro centro emocional do universo de Yellowstone.

A revelação envolvendo Mariano Reyes e o tráfico de fentanil escondido no gado funciona como um eficiente gancho para a segunda temporada. Mas talvez a maior descoberta de Dutton Ranch seja outra: retirar Beth e Rip da órbita de John Dutton finalmente permitiu que os dois personagens se tornassem adultos.
Em Yellowstone, Beth e Rip existiam quase exclusivamente para servir ao patriarca. Ela era sua guerreira mais feroz; ele, seu executor mais leal. Mesmo sendo os personagens mais populares da série, suas vidas estavam congeladas pela devoção absoluta ao pai, ao patrão e ao rancho.
Em Dutton Ranch, pela primeira vez, eles precisam sobreviver sem uma rede de proteção. Perdem a propriedade em Montana. Investem praticamente todo o dinheiro em uma fazenda no Texas. Precisam lidar com doenças no rebanho, dificuldades financeiras e, talvez o mais aterrorizante de tudo, com a criação de um adolescente.
É verdade que, no universo de Taylor Sheridan, jovens costumam funcionar menos como personagens e mais como instrumentos de irritação do público. A lista é longa: Ainsley em Landman, os filhos em Lioness, os jovens de The Madison e, agora, Carter em Dutton Ranch. Sheridan parece escrever adolescentes a partir da premissa de que eles devem ser, simultaneamente, ingratos, impulsivos e profundamente exaustivos. Mas, curiosamente, Carter funciona justamente porque expõe algo que Beth e Rip jamais precisaram enfrentar: a possibilidade de falhar como pais.
E talvez seja exatamente aí que Dutton Ranch se diferencia de Yellowstone. A série original era sobre pessoas poderosas tentando preservar um império. Dutton Ranch é sobre duas pessoas quebradas tentando construir uma vida. Isso não significa que Sheridan tenha abandonado seus velhos truques. Muito pelo contrário.

Beth e Rip continuam sendo personagens profundamente exagerados, operando numa frequência emocional que pertence mais à novela do que ao realismo. Existe uma cafonice absolutamente irresistível nas trocas constantes de “Honey” e “Baby”, sobretudo quando acontecem imediatamente antes ou depois de atos de extrema violência. Existe também uma espécie de coreografia de super-heróis quando os dois entram em ação: olhares silenciosos, planos compartilhados sem explicação, uma compreensão mútua tão absoluta que beira o sobrenatural.
E funciona.
Funciona porque Kelly Reilly e Cole Hauser entendem perfeitamente que Beth e Rip nunca foram pessoas reais. Eles são arquétipos românticos. São Bonnie e Clyde vestidos de cowboy. São protagonistas de um novelão operístico disfarçado de western contemporâneo.
Taylor Sheridan, afinal, talvez seja o maior noveleiro da televisão americana atual. Ele compreende intuitivamente algo que muitos roteiristas contemporâneos parecem ter esquecido: clichês não são um problema. Clichês mal executados são. Quando bem utilizados, tornam-se ferramentas emocionais quase infalíveis.
Isso não significa, porém, que Dutton Ranch não apresente problemas.
A principal inconsistência da temporada talvez seja justamente Beulah Jackson. Annette Bening constrói uma personagem fascinante, mas a série nunca decide exatamente quem ela é. Beulah é vítima ou vilã? Uma mulher traumatizada tentando proteger sua família ou uma criminosa que construiu um império apoiado no narcotráfico?

Essa indecisão fica particularmente evidente no final da temporada. A mesma mulher que sofre um infarto após ser atingida por uma cabeça de boi decorativa parece reagir com surpreendente serenidade ao assassinato brutal do próprio filho dentro de casa. Sim, Rob-Will Jackson era impulsivo, violento e claramente problemático. Mas a própria série passou oito episódios insistindo que Beulah estava disposta a sacrificar absolutamente tudo para preservar o futuro dele.
A morte de Rob-Will, portanto, deveria representar a destruição completa de seu mundo. Em vez disso, ela parece apenas mais uma tragédia entre tantas outras.
Talvez seja uma inconsistência. Talvez seja apenas mais uma demonstração de como os personagens de Sheridan frequentemente obedecem mais à lógica do melodrama do que à da psicologia. E, honestamente, talvez seja exatamente por isso que continuamos assistindo.
Porque, no fundo, Dutton Ranch não é uma série sobre realismo. É uma novela sobre amor, lealdade, violência e família, e Beth Dutton e Rip Wheeler continuam sendo o casal mais improvável e irresistível que Taylor Sheridan já criou.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
