Mariska Hargitay vai apresentar a 78ª edição dos Emmy Awards, marcada para 14 de setembro, com transmissão ao vivo pela NBC e pelo Peacock, direto do Peacock Theater, em Los Angeles. A escolha foi anunciada pela NBCUniversal e pela Television Academy em um ano simbólico para a emissora: a NBC celebra seu centenário em 2026, e poucas figuras representam tão bem sua história recente quanto a eterna Olivia Benson de Law & Order: SVU.
A notícia tem peso histórico. Mariska será a primeira mulher a comandar o Emmy em 15 anos. A última havia sido Jane Lynch, em 2011, no auge de Glee. Antes dela, neste século, o posto passou por nomes como Ellen DeGeneres, em 2001 e 2005, e Heidi Klum, que dividiu a função em 2008. Ou seja: para uma premiação dedicada à televisão, a ausência feminina no comando da cerimônia por tanto tempo diz muito.

A escolha também é curiosa porque Mariska não pertence ao perfil mais óbvio de apresentadora de premiação. Nos últimos anos, o Emmy recorreu com frequência a comediantes, nomes do stand-up, estrelas de late night ou figuras acostumadas ao humor ao vivo. Em 2025, por exemplo, o escolhido foi Nate Bargatze. Mariska, ao contrário, é uma atriz dramática, símbolo de uma série policial longeva e de uma personagem associada à gravidade, à empatia e à justiça. A Associated Press chamou a atenção justamente para isso: ela é uma rara não comediante a receber a missão.
Mas é aí que a escolha fica interessante. Mariska Hargitay é, de certa forma, um produto puro de Hollywood e, ao mesmo tempo, uma sobrevivente dele. Filha de Jayne Mansfield, um dos grandes símbolos sexuais do cinema americano dos anos 1950, ela cresceu cercada por mito, tragédia e imagem pública. A mãe morreu em um acidente de carro quando Mariska tinha apenas três anos, e essa herança foi revisitada por ela no documentário My Mom Jayne, sua estreia como diretora, que também revelou aspectos íntimos de sua história familiar.

Ao mesmo tempo, Mariska construiu uma carreira que deixou de ser apenas “a filha de Jayne Mansfield” há muito tempo. Desde 1999, ela interpreta Olivia Benson em Law & Order: Special Victims Unit, uma das personagens mais duradouras da TV americana. A série entra em sua 28ª temporada e deve ultrapassar a marca de 600 episódios. Por Benson, Mariska venceu o Emmy de melhor atriz em série dramática em 2006, recebeu outras indicações e também levou um Globo de Ouro.
Esse talvez seja o verdadeiro sentido da escolha. Mariska não chega ao Emmy para fazer o papel de comediante. Ela chega como lenda da televisão. Em quase três décadas de SVU, transformou Olivia Benson em uma personagem rara: uma figura de conforto, autoridade e confiança para o público. Também usou a visibilidade da série para se tornar uma voz ativa no apoio a sobreviventes de violência sexual e doméstica, inclusive por meio da Joyful Heart Foundation.
A reação ao anúncio foi majoritariamente positiva, mas com surpresa. A NBC e a Television Academy trataram Mariska como uma escolha afetiva e institucional: uma estrela querida, autêntica, ligada ao público e à história da emissora. A imprensa especializada também destacou o timing. O Vulture, por exemplo, brincou que ela vive um grande ano, entre SVU, a estreia na Broadway com Every Brilliant Thing, o documentário sobre Jayne Mansfield e agora o Emmy.
Nas redes e fóruns, a reação seguiu esse mesmo caminho: curiosidade, surpresa e torcida. Muita gente estranhou o fato de ela não ser uma comediante, mas outros lembraram que Mariska acabou de sair de uma experiência teatral exigente, em um espetáculo solo com participação do público, e que seu carisma em entrevistas sempre foi um de seus pontos fortes. Também não faltaram pedidos para que Christopher Meloni apareça no palco em algum momento, porque, claro, a sombra de Benson e Stabler sempre acompanha qualquer grande evento envolvendo Mariska.
O desafio será encontrar o tom certo. Se o Emmy tentar transformar Mariska em uma apresentadora de stand-up, a escolha pode soar forçada. Mas, se a cerimônia apostar nela como anfitriã — alguém capaz de celebrar a televisão, conduzir a noite com elegância e usar sua autoridade afetiva diante da indústria — a aposta pode funcionar muito bem. Em um momento em que premiações tentam equilibrar humor, reverência e relevância cultural, Mariska Hargitay pode ser menos uma escolha engraçada e mais uma escolha segura no melhor sentido da palavra.
Afinal, poucas pessoas atravessaram tantas fases da televisão americana quanto ela. Mariska nasceu dentro do mito de Hollywood, cresceu marcada por uma tragédia real, virou estrela de uma das séries mais importantes da NBC e se tornou uma presença querida pelo público e pelos colegas. Agora, ao subir ao palco do Emmy, não estará apenas apresentando uma premiação. Estará simbolizando uma ideia de TV que sobreviveu às mudanças de formato, plataforma e consumo: a televisão como hábito, companhia e memória coletiva.
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