Primavera encontra a história que faltava a Antonio Vivaldi

Mesmo que você não goste de música clássica, é virtualmente impossível que jamais tenha escutado As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi. Poucas obras atravessaram tantos séculos, gerações e fronteiras culturais. Sua música há muito tempo deixou as salas de concerto para se tornar parte do imaginário coletivo. Sendo assim, sem conhecer o livro que inspirou o filme, fui assistir a Primavera esperando uma cinebiografia mais convencional, como Ravel, ou talvez uma reimaginação histórica à maneira de Hamnet. Em algum nível, talvez esperasse até um novo Amadeus: uma narrativa exuberante, centrada no temperamento, nos excessos e na genialidade de um dos maiores compositores da história da música ocidental.

Encontrei algo completamente diferente.

Primavera é, para mim, uma espécie de primo distante de um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, O Mestre da Música, de Gérard Corbiau. Não apenas porque ambos tratam a música como vocação, obsessão e herança, mas porque compartilham uma percepção rara: a de que a história mais importante nem sempre pertence ao artista cuja biografia acreditamos estar assistindo. E o mais surpreendente é que Primavera não é realmente sobre Antonio Vivaldi. É sobre as mulheres que a história decidiu esquecer, apesar de seus talentos terem ajudado a moldar uma das obras mais importantes da cultura ocidental.

O filme marca a estreia no cinema do celebrado diretor de ópera Damiano Michieletto, que faz algo muito mais interessante do que simplesmente contar a trajetória do compositor veneziano. Ele se pergunta quem eram as mulheres que ajudaram a construir o nome Antonio Vivaldi.

Baseado livremente em Stabat Mater, romance publicado por Tiziano Scarpa em 2008 e vencedor do Prêmio Strega, Primavera acompanha Cecilia, interpretada pela extraordinária Tecla Insolia, uma jovem violinista criada no Ospedale della Pietà, instituição veneziana que acolhia meninas abandonadas e que, entre os séculos 17 e 18, se transformou em um dos centros musicais mais importantes da Europa.

A escolha de Scarpa, e posteriormente de Michieletto, é fascinante porque parte justamente daquilo que a história oficial decidiu esquecer. Sim, Antonio Vivaldi existiu. Sim, trabalhou durante quase trinta anos na Pietà. E sim, compôs centenas de concertos para as jovens musicistas da instituição. O que raramente nos perguntamos é quem eram essas mulheres e quanto daquilo que hoje chamamos de “o som de Vivaldi” nasceu da convivência diária com elas.

O Ospedale della Pietà não era apenas um orfanato. Localizada às margens da lagoa veneziana, próxima à Praça São Marcos, tornou-se uma das mais prestigiosas escolas de música do continente. Suas alunas, muitas delas abandonadas ainda bebês, recebiam uma formação musical sofisticada e se apresentavam para visitantes de toda a Europa. A ironia é que quase nunca podiam ser vistas: tocavam atrás de grades e telas decorativas, transformando seus concertos em experiências quase fantasmagóricas.

Entre essas jovens estava Anna Maria della Pietà. Abandonada ainda bebê, ela se tornaria uma das maiores violinistas do século 18. Vivaldi escreveu dezenas de obras especificamente para ela, e muitos musicólogos acreditam hoje que parte do extraordinário virtuosismo que associamos ao compositor só foi possível porque existia uma intérprete capaz de levá-lo aos seus próprios limites criativos. Talvez Anna Maria não tenha sido exatamente a “musa” de Vivaldi no sentido romântico que o cinema tantas vezes procura, mas certamente foi uma de suas maiores inspirações artísticas.

É nesse universo que surge o Vivaldi interpretado por Michele Riondino. E aqui está uma das decisões mais inteligentes do filme: Michieletto se recusa a transformá-lo em gênio romântico ou herói biográfico. Seu Vivaldi é brilhante, certamente, mas também inseguro, doente, ambicioso e, por vezes, incapaz de compreender completamente o talento extraordinário que tem diante de si.

Primavera entende que a arte nunca é um ato solitário. Cecilia não é apenas discípula. Não é apenas musa. Não é apenas inspiração. Ela é a própria pergunta que o filme deseja fazer: quantas mulheres talentosas precisaram desaparecer para que a narrativa do “gênio solitário” pudesse sobreviver por três séculos?

A resposta nunca é dada explicitamente. E talvez não precise ser.

Visualmente, Michieletto também toma decisões surpreendentes. Sua Veneza está muito distante dos cartões-postais. É uma cidade úmida, escura, melancólica e quase claustrofóbica. O Ospedale della Pietà funciona simultaneamente como refúgio e prisão, enquanto a música aparece como única possibilidade de transcendência para aquelas jovens. O resultado é um filme menos interessado na reconstrução histórica do que na experiência emocional da criação artística.

Essa abordagem encontrou eco no circuito internacional. Primavera estreou mundialmente na seção Special Presentations do Festival de Toronto em 2025 e, desde então, percorreu festivais em Chicago, Palm Springs, Seattle, Toulouse, Victoria, Gasparilla e diversos eventos dedicados ao cinema italiano ao redor do mundo. O filme conquistou o prêmio do público no Festival de Chicago, venceu o prêmio principal em Victoria, levou os prêmios do júri e do público em Gasparilla e recebeu quatro David di Donatello, incluindo trilha sonora, figurino, cabelo e som.

Talvez a maior ironia da história de Antonio Vivaldi seja que parte da música que associamos ao seu gênio só tenha sido possível porque mulheres cujos nomes quase esquecemos eram talentosas o suficiente para expandir sua própria genialidade.

Ao final da Primavera, surge um desejo quase inevitável de ouvir As Quatro Estações mais uma vez. Mas, desta vez, a escuta é diferente. Pela primeira vez, imaginamos as mulheres que tocaram essa música antes de nós. E compreendemos que talvez nunca tenhamos escutado apenas Antonio Vivaldi


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