Cabo do Medo é ótima, mas preciso me forçar a continuar

Eu sigo acompanhando Cabo do Medo, mas preciso admitir: estou me forçando.

Não porque seja uma série ruim. Muito pelo contrário. O elenco é extraordinário, as interpretações são excelentes, a produção é sofisticada e a fotografia tem uma personalidade que raramente encontramos nas séries atuais. Javier Bardem construiu um Max Cady magnético, repulsivo e imprevisível. Amy Adams transforma Anna Bowden em uma mulher que parece estar permanentemente prestes a desmoronar. Patrick Wilson é perfeito como Tom, um homem cuja aparência de normalidade vai se desfazendo à medida que seus segredos aparecem.

Ainda assim, assistir a Cabo do Medo não tem sido exatamente um prazer.

A série é baseada no romance The Executioners, de John D. MacDonald, que já havia inspirado os filmes de 1962 e 1991, mas seria um erro tratá-la apenas como uma versão prolongada da história conhecida. O Max Cady permanece, assim como a ideia de um homem que sai da prisão disposto a destruir a família das pessoas que considera responsáveis por sua condenação. Praticamente todo o restante foi reconstruído para uma narrativa muito mais intrincada, sexual, familiar e deliberadamente desagradável.

Agora, Anna e Tom Bowden são advogados. Ela defendeu Cady; ele trabalhou na acusação. Os dois acabaram se casando depois do julgamento e construíram uma família aparentemente perfeita, mas a libertação de Max não cria as rachaduras naquele casamento. Apenas ilumina as que sempre estiveram ali.

É isso que separa a série dos filmes. Cady não está simplesmente invadindo uma família saudável para destruí-la. Ele está entrando em uma casa que já foi construída sobre mentiras, silêncios e versões cuidadosamente editadas do passado.

O sétimo episódio levou essa ideia ao limite.

A grande revelação é que Max Cady afirma ser o pai biológico de Natalie. Durante anos, Anna sustentou a história de que o pai da filha era Paul, o homem com quem estava comprometida antes de deixá-lo e se casar com Tom. Agora descobrimos que ela se envolveu com Cady durante o julgamento e que Natalie pode ter sido concebida nessa relação. A mãe de Max confunde a jovem com Anna e fala sobre o envolvimento dos dois; pouco depois, Cady diz diretamente a Natalie que é seu pai. A série apresenta o momento como uma revelação, ainda que um teste de DNA possa, naturalmente, acrescentar outra reviravolta.

Portanto, Anna teve uma filha com Cady e, posteriormente, um filho, Zack, com Tom.

Isso já seria suficientemente perturbador, mas Cabo do Medo não trabalha com a ideia de “suficiente”. Nevaeh, a jovem que se aproximou dos dois filhos dos Bowden, viveu escondida dentro das paredes da casa e drogou Zack até fazê-lo chamar Max de pai. Também é filha de Cady. Natalie e Nevaeh são, assim, meias-irmãs, depois de já terem mantido uma relação sexual sem conhecer o parentesco.

O que poderia ser apenas uma vingança criminal transforma-se em uma espécie de teia familiar grotesca. Cady não está do lado de fora tentando entrar. Biologicamente, psicologicamente e sexualmente, ele já está dentro daquela família.

Até a presença de Juliette Lewis participa dessa perversão. No filme de Martin Scorsese, lançado em 1991, ela interpretava Danielle Bowden, a adolescente perseguida e manipulada pelo Max Cady de Robert De Niro. Agora retorna como Crystal, irmã de Cady e uma das poucas pessoas capazes de despertar medo, vulnerabilidade e fúria no personagem de Bardem. Não é a mesma personagem, mas a escalação produz uma inversão perturbadora: a antiga vítima reaparece simbolicamente incorporada à família do monstro.

Crystal também nos conduz à infância de Max. O episódio revela que o pai dele, interpretado por Ron Perlman, o mantinha preso em uma jaula, chamava o filho de vira-lata, obrigava-o a agir como um cachorro e o agredia quando ele não falava inglês. É um homem que ainda domina a mulher, aparentemente afetada por demência, e que, mesmo envelhecido, consegue transformar o aterrorizante Max Cady novamente em uma criança amedrontada.

A revelação não absolve Cady. Trauma não é salvo-conduto para assassinato, abuso, manipulação e violência. Mas oferece uma origem para sua obsessão com controle, submissão, paternidade e pertencimento. Max foi tratado como um animal e agora transforma todos ao seu redor em criaturas condicionadas a obedecê-lo.

Não por acaso, ele droga Zack e o convence a chamá-lo de pai. Depois conduz Natalie ao rio Cape Fear e realiza com ela uma espécie de batismo, reproduzindo um ritual que seu próprio pai lhe impôs quando criança, embora ele nem soubesse nadar. Max não deseja apenas matar Tom e Anna. Quer reescrever a identidade dos filhos deles.

O mais perturbador é que Cady não é o único produto de uma família monstruosa.

O pai de Anna também retorna neste episódio. A série ainda não explicou exatamente o que ele fez no passado, mas a repulsa da filha indica uma história muito mais grave do que a vaga admissão de que ele “não foi o melhor pai”. Anna passou anos mantendo-o longe de sua casa e de seus filhos. Quando precisa que ele plante drogas na residência de Cady, ele transforma a ajuda em negociação: aceita participar do crime desde que receba jantares mensais e acesso aos netos.

É uma forma diferente de monstruosidade, mas reconhecível. Ele usa a vulnerabilidade da filha para comprar uma posição dentro da família. Até sua tentativa de exercer a função de avô surge contaminada pela chantagem.

Talvez seja essa familiaridade com a violência que ajude a explicar a ligação entre Anna e Max. Ela não se aproximou necessariamente de Cady apesar de sua escuridão. Pode ter reconhecido nele alguma coisa que já conhecia desde a infância. Não porque fossem moralmente equivalentes, mas porque relações construídas sobre dominação, medo e segredo lhe eram emocionalmente familiares.

Tom também carrega uma história familiar escondida. Seu irmão mais velho não morreu em um acidente de carro, como ele contou ao filho. Morreu por suicídio, e Tom encontrou o corpo quando ainda era adolescente. Até agora, nada indica que Tom tenha matado literalmente o irmão. O segredo está no encobrimento da causa da morte e na culpa que ele aparentemente ainda carrega. Quando Zack começa a apresentar sinais de sofrimento psíquico, Tom não consegue falar sobre o próprio trauma. Prefere mentir, controlar a situação e até interromper a terapia quando o assunto se aproxima demais do passado.

Cada personagem parece reproduzir, de alguma forma, a violência que recebeu.

O pai de Cady o transformou em animal. Cady transforma os próprios filhos e os filhos dos Bowden em instrumentos. O pai de Anna tenta negociar seu retorno à família. Anna mente sobre a paternidade da filha e recorre ao pai, que a rejeita quando precisa cometer um crime. Tom esconde o suicídio do irmão, não consegue lidar com a depressão do filho e, pressionado por Cady, deixa emergir uma violência que sempre acreditou controlar.

Não há inocência verdadeira naquele universo. Mas também quase não há alívio.

A fotografia reforça essa sensação. No episódio mais recente, a imagem aparece estourada, leitosa, borrada e febril. Há momentos em que os rostos parecem perder os contornos e o excesso de luminosidade não esclarece o que estamos vendo, mas o torna mais instável. Não é um defeito casual. Os diretores de fotografia Eben Bolter e Celiana Cárdenas desenvolveram uma linguagem visual baseada em calor, umidade, voyeurismo, lentes longas, ângulos desequilibrados e alterações de imagem destinadas a reproduzir a desorientação dos personagens. No episódio anterior, Cárdenas chegou a mudar lentes e proporções de tela para representar a experiência alucinógena da família.

Agora, com Zack intoxicado, Natalie drogada, a mãe de Cady presa em lembranças fragmentadas e Max confrontando a própria infância, a imagem parece contaminada pela memória. Tudo está superexposto e, ao mesmo tempo, escondido. É como se estivéssemos enxergando uma lembrança traumática que não consegue permanecer em foco.

É uma escolha interessante, coerente e tecnicamente admirável. Também é cansativa.

Esse é o paradoxo de Cabo do Medo. Eu reconheço o trabalho extraordinário de Bardem, Adams e Wilson. Acho brilhante a utilização de Juliette Lewis. Gosto da coragem de não refazer simplesmente a história de Robert De Niro e Nick Nolte. Vejo uma série com direção, fotografia, trilha e atuações muito acima da média.

Mas admirar uma produção não é a mesma coisa que desejar permanecer dentro dela.

A narrativa acumula incesto acidental, drogas, assassinatos, automutilação, suicídio, abuso infantil, violência doméstica, manipulação sexual, chantagem emocional, paternidades escondidas e pessoas morando dentro das paredes. A cada episódio, surge um novo trauma, uma nova relação secreta ou mais um membro monstruoso de alguma família. Em determinado momento, a complexidade começa a se aproximar do excesso.

O problema não é apenas que todos sejam moralmente comprometidos. Grandes séries são construídas em torno de personagens terríveis. O problema é que Cabo do Medo quase nunca oferece um ponto emocional de descanso. Não existe uma relação que não esteja contaminada, um espaço realmente seguro ou uma pessoa que consiga permanecer fora da engrenagem de Cady.

Até o prazer do suspense é substituído por outra coisa. Eu não termino os episódios ansiosa para descobrir o que acontecerá. Termino tentando processar o que acabei de assistir e reunindo disposição para voltar na semana seguinte.

Talvez esse seja justamente o objetivo. Cabo do Medo quer incomodar. Quer que o espectador sinta que algo está errado mesmo nas cenas aparentemente tranquilas. Quer destruir a distância confortável entre o monstro e a família normal, porque não existe família normal naquela história. Existem apenas pessoas tentando esconder as maneiras pelas quais foram feridas, e as maneiras pelas quais passaram a ferir os outros. Funciona tão bem que, neste momento, acompanhar a série também exige um esforço consciente.


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