Se você pudesse apagar hoje a lembrança mais dolorosa da sua vida, faria isso?
A resposta parece óbvia. Quase todos nós gostaríamos de esquecer uma perda, uma traição, um luto, um trauma ou aquele momento que continua voltando à cabeça mesmo depois de tantos anos. Quando estamos em sofrimento, nossa fantasia costuma ser a mesma: recomeçar do zero. Como se fosse possível apertar um botão, apagar uma memória e seguir em frente sem carregar o peso do passado.
É justamente essa fantasia que o episódio mais recente de Silo transforma em uma das discussões mais interessantes da temporada.

Em uma conversa aparentemente técnica, um médico explica que a substância utilizada pelo sistema não destrói as memórias. Ela apenas impede que as pessoas tenham acesso a elas, como se erguesse uma ponte levadiça entre o sujeito e a própria história. As lembranças continuam existindo, mas deixam de ser acessíveis. Esse intervalo cria uma oportunidade para que uma nova narrativa ocupe o seu lugar. Se você já não consegue acessar quem foi, torna-se muito mais fácil acreditar quando alguém lhe diz quem você é.
Essa talvez seja a revelação mais perturbadora da série.
Ao longo de gerações, os habitantes dos dezoito silos não foram controlados apenas pelo isolamento físico, mas também pelo isolamento da própria memória. Sem acesso ao passado, resta apenas a versão da realidade transmitida pelas autoridades. A experiência deixa de construir a história; a história passa a ser construída pelo discurso. Quem controla essa narrativa controla também a identidade.
Foi impossível assistir a essa cena sem pensar na psicanálise.
Não porque Freud, Lacan ou qualquer outro autor tenha imaginado uma droga capaz de bloquear lembranças. A aproximação acontece em outro lugar. Silo faz uma pergunta que atravessa toda a história da psicanálise: afinal, somos definidos pelo que vivemos ou pela maneira como aprendemos a dar sentido ao que vivemos?

Freud, fundador da psicanálise, provavelmente seria o primeiro a discordar da solução apresentada pela série. Desde seus primeiros estudos, ele percebeu que lembrar não basta. Muitos pacientes conseguiam relatar acontecimentos importantes da infância com riqueza de detalhes e, ainda assim, permaneciam presos aos mesmos sintomas, aos mesmos conflitos e às mesmas escolhas repetitivas. O problema nunca foi apenas a memória. Foi a impossibilidade de elaborar aquilo que continuava produzindo efeitos no inconsciente.
Jacques Lacan, que décadas depois reinterpretou grande parte da obra de Freud, desloca essa discussão para outro lugar. Quando afirma que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, ele propõe que nossa identidade não nasce apenas dos acontecimentos que vivemos, mas da maneira como esses acontecimentos passam a fazer sentido para nós.
A lembrança é vizinha da fantasia porque raramente chega até nós em estado puro. Costuma retornar atravessada pelos afetos, pelas defesas e pelos significados que construímos ao longo da vida. Em outras palavras, não nos lembramos apenas do que aconteceu, mas também daquilo que sentimos, do que imaginamos, do que tememos e da narrativa que fomos construindo sobre aquela experiência.
É justamente por isso que, antes mesmo de aprendermos a falar, já recebemos nomes, expectativas, desejos, proibições e histórias familiares. Crescemos ouvindo quem somos, quem deveríamos ser e quem nunca deveríamos nos tornar. Aos poucos, essas palavras deixam de pertencer aos outros e passam a organizar a maneira como enxergamos a nós mesmos. É isso que Lacan chama de significantes: palavras que não apenas descrevem a realidade, mas ajudam a constituir o próprio sujeito.
Nesse sentido, talvez Silo esteja menos interessada em apagar memórias do que em controlar significados. A substância bloqueia o acesso ao passado, mas o verdadeiro poder está em preencher esse vazio com uma nova narrativa. Se ninguém consegue confrontar a história oficial com a própria experiência, essa história passa a funcionar como verdade. A ficção científica imagina esse processo como uma tecnologia enquanto a psicanálise mostra que, de formas muito mais sutis, todos nós também somos atravessados pelas histórias que ouvimos sobre quem somos.
É por isso que tantas pessoas procuram uma análise quando estão sofrendo. Raramente alguém chega ao consultório dizendo que deseja compreender melhor a própria história. As pessoas chegam dizendo que querem mudar. Querem deixar de repetir relacionamentos destrutivos, controlar reações impulsivas, diminuir a ansiedade, superar um trauma ou simplesmente deixar de sentir uma dor que parece nunca terminar. Mas essa talvez seja uma das maiores divergências entre o desejo de quem sofre e a proposta da psicanálise. Será que mudar significa apagar? Será que significa esquecer? Ou significa construir uma nova relação com aquilo que continuará fazendo parte da nossa história?

Ao longo do último século, diferentes psicanalistas responderam a essa pergunta de maneiras distintas. Donald Winnicott entendia o amadurecimento como a possibilidade de viver de forma mais integrada e espontânea. Juan-David Nasio costuma dizer que a dor psíquica precisa voltar a circular para deixar de aprisionar quem a sente. Apesar das diferenças entre eles, existe um ponto de encontro: nenhum acredita que a transformação aconteça porque esquecemos quem fomos. É aí que Silo encontra sua pergunta mais profunda: na série, mudar uma pessoa significa interromper o acesso ao seu passado para escrever uma nova história. Na psicanálise, a transformação segue o caminho oposto. Ela não promete apagar a dor nem recomeçar do zero, mas compreender como essa história foi construída para que ela deixe de conduzir a vida em silêncio.
No fim das contas, talvez a pergunta nunca tenha sido se é possível esquecer, mas sim se um dia fosse possível apagar completamente a lembrança mais dolorosa da sua vida, você realmente continuaria sendo a mesma pessoa?
Justamente por isso que a psicanálise nunca promete o esquecimento. Ela sempre está interessada em algo muito mais difícil: compreender por que certas histórias insistem em se repetir e como podemos, finalmente, deixar de ser governados por elas.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
