House of the Dragon: o erro com Hugh Hammer vai custar caro

Há episódios em que uma guerra muda por causa de uma batalha, de uma morte ou de uma decisão tão evidentemente desastrosa que todos conseguem reconhecer o momento exato em que uma personagem começou a perder. O quarto episódio da terceira temporada de House of the Dragon faz algo mais interessante com Rhaenyra Targaryen. Ela não comete um único erro catastrófico, mas toma várias decisões pequenas, isoladas e, quando observadas separadamente, quase todas defensáveis. O problema é que serão justamente essas escolhas, combinadas, que ajudarão a lhe custar a coroa.

Rhaenyra já criou um atrito com Corlys Velaryon ao resistir à legitimação de seus filhos. É possível compreender sua posição porque a suspeita sobre a origem de Jacaerys, Lucerys e Joffrey a perseguiu durante praticamente toda a vida adulta e foi usada para deslegitimar não apenas os meninos, mas seu próprio direito ao Trono de Ferro. Além disso, ela acaba de colocar bastardos de sangue valiriano sobre dragões, alterando uma hierarquia que durante séculos sustentou o poder de sua família. Ainda assim, há uma contradição impossível de ignorar: depois de fazer tudo isso, por que negar justamente a Corlys o reconhecimento dos filhos que ele deseja assumir?

Rhaenyra também cria um problema com Daemon ao ordenar a morte da pessoa que reivindicou Sheepstealer antes mesmo de compreender quem é esse cavaleiro e qual foi seu papel na batalha. Como sabemos que se trata de Rhaena, a decisão deixa de ser apenas militar e passa a atingir diretamente a família da rainha. Daemon já escolheu proteger a filha e, sem perceber, Rhaenyra transforma uma ameaça que nem sequer compreendeu em mais um conflito dentro de sua própria casa.

Ao mesmo tempo, Rhaenyra volta atrás naquilo que prometeu a Alicent e Helaena. Aqui existe outra das ironias mais dolorosas de sua posição. Podemos concordar com sua resistência à lógica defendida por Otto Hightower e pelo próprio Daemon, segundo a qual quem ocupa o trono precisa eliminar todos aqueles que possam representar uma ameaça à sucessão. Moralmente, a recusa de Rhaenyra é compreensível. Politicamente, porém, Helaena está grávida do rei que ocupou o trono que Rhaenyra acaba de tomar. Em Westeros, isso não é um detalhe familiar, mas um problema dinástico que pode crescer rapidamente.

Todas essas decisões podem ser discutidas porque todas possuem argumentos a favor e contra. Talvez o maior erro de Rhaenyra, porém, seja justamente aquele que ela ainda não reconhece como erro, porque nasce de uma cegueira compartilhada com Daemon em relação às pessoas que estão abaixo deles na estrutura social de Westeros. Essa cegueira tem dois nomes, Hugh Hammer e Ulf White, mas é Hugh quem se torna, agora, o personagem mais interessante dessa equação.

Já falamos sobre a trajetória de Ulf e sobre como House of the Dragon construiu desde cedo as razões pelas quais ele jamais seria um homem fácil de controlar. Ulf é o ponto fraco mais evidente entre as Sementes do Dragão porque gosta do dinheiro, da bebida, da fama e, principalmente, do reconhecimento que nunca teve. Ao retornar a Flea Bottom e perceber a reação das pessoas diante de sua nova posição, ele não esconde o prazer. Todos o conhecem, todos querem alguma coisa dele e, pela primeira vez, Ulf deixou de ser o homem que contava histórias sobre uma suposta ascendência Targaryen para se tornar alguém cuja importância ninguém pode negar.

O perigo representado por Ulf está diante de todos porque ele nunca escondeu quem é. Sua ambição nasce de um ressentimento antigo e de uma sensação persistente de que o mundo lhe negou aquilo que deveria ter recebido. Ulf não acredita apenas que merece mais. Ele acredita que o mundo lhe deve mais. Silverwing não cria esse ressentimento, mas o valida, porque agora Ulf possui uma das criaturas mais poderosas de Westeros para provar que talvez estivesse certo sobre si mesmo.

Hugh é diferente, e justamente por isso pode se tornar muito mais importante.

Quem é Hugh Hammer?

Quando Hugh apareceu pela primeira vez em House of the Dragon, ainda estava muito distante do homem que os leitores de Fire & Blood conhecem como um dos grandes traidores da Dança dos Dragões. A série o apresentou como um ferreiro de King’s Landing, um trabalhador qualificado tentando sobreviver em uma cidade que se preparava para a guerra. Hugh não queria uma coroa, um castelo ou um lugar entre os grandes senhores de Westeros. Queria trabalho suficiente para sustentar a família.

Hugh tinha uma esposa, Kat, e uma filha doente, e essa escolha aparentemente simples transformou completamente o personagem. Em Fire & Blood, ele é uma figura muito menos desenvolvida psicologicamente. Sabemos que possui força física, monta Vermithor, luta por Rhaenyra e, mais tarde, muda de lado ao lado de Ulf White na Primeira Batalha de Tumbleton. Sua ambição cresce até que passa a desejar algo muito maior do que as recompensas originalmente prometidas. A trajetória existe no livro, mas a transformação de cavaleiro da rainha em homem disposto a reivindicar um poder quase real acontece de maneira relativamente abrupta.

A série começou a preparar essa mudança muito antes de Hugh sequer encontrar Vermithor. Vimos a fome em King’s Landing, a falta de recursos, a tentativa desesperada de um homem de conseguir ajuda e a doença de uma filha que ele não conseguiu salvar. Vimos Hugh trabalhar para uma Coroa incapaz de garantir comida à sua família e, acima de tudo, vimos um homem comum pagar pelo conflito entre Targaryens muito antes de qualquer um dos grandes jogadores da guerra compreender o tamanho do preço imposto ao povo.

Quando Rhaenyra convocou pessoas de sangue valiriano para tentar reivindicar os dragões sem cavaleiros de Dragonstone, Hugh não chegou ali como um aventureiro procurando poder. Chegou como alguém cuja vida já havia sido destruída pela guerra. Ao encontrar Vermithor, ele conquistou uma posição que jamais teria imaginado possuir, mas reivindicar um dragão não apagou aquilo que aconteceu antes. Hugh continuou sendo o homem que passou fome, que viu a filha morrer e que aprendeu da maneira mais brutal possível que pessoas como ele pagam pela guerra muito antes daqueles que a declaram.

Agora, Tumbleton acrescenta uma nova perda a essa história. A série não está apenas aproximando Hugh do lugar onde sabemos que sua trajetória mudará. Está tornando essa mudança emocionalmente compreensível.

Rhaenyra acredita que deu tudo a Hugh

É fácil compreender a perspectiva de Rhaenyra. Ela permitiu que homens sem títulos reivindicassem dragões da Casa Targaryen, algo que durante séculos representou o elemento mais exclusivo do poder de sua família. Depois, concedeu a esses homens reconhecimento, posição e títulos. Para uma rainha criada dentro da lógica da nobreza de Westeros, isso é uma recompensa extraordinária e, de certa forma, deveria bastar.

Na cabeça de Rhaenyra, Hugh e Ulf receberam mais do que poderiam ter imaginado. O problema é que ela nunca perguntou seriamente o que eles queriam.

Ulf quer dinheiro, bebida, conforto e reconhecimento. A série nunca tentou esconder isso. Ele gosta da fama e gosta, principalmente, da sensação de finalmente ocupar um espaço que antes lhe era negado. Sua ambição nasce de um ressentimento antigo e encontra em Silverwing a confirmação de que não precisa mais aceitar a posição que o mundo lhe impôs.

Hugh quer segurança, e essa diferença entre os dois é essencial.

Hugh não começou sua história tentando subir na hierarquia de Westeros. Queria uma casa, comida e condições para proteger a família. Mesmo depois de se tornar cavaleiro de Vermithor, suas necessidades concretas não desapareceram. Um título pode mudar a forma como outras pessoas o chamam, mas não necessariamente coloca um teto sobre sua cabeça. Prestígio não compra comida sozinho, e a honra de servir à rainha não substitui aquilo que foi prometido aos homens que agora arriscam a vida e controlam duas das criaturas mais poderosas do mundo.

Toda vez que Hugh e Ulf se aproximam para cobrar aquilo que acreditam ter sido combinado, Rhaenyra se exaspera. Daemon é ainda pior e chega a bater no rosto de Ulf quando ele insiste. A cena é importante não apenas porque Ulf é um homem perigoso e ressentido, mas porque revela que, para Rhaenyra e Daemon, a relação entre a Coroa e os novos cavaleiros ainda funciona segundo uma hierarquia que deixou de existir no momento em que Silverwing e Vermithor aceitaram seus novos montadores.

Os dois Targaryen parecem acreditar que Hugh e Ulf deveriam estar eternamente agradecidos pela oportunidade. O problema é que foram Rhaenyra e Daemon que precisaram deles. A rainha não entregou dragões a esses homens por generosidade, mas porque precisava de cavaleiros. Hugh e Ulf, portanto, não estão apenas recebendo privilégios. Estão colocando a própria vida a serviço da guerra dela.

Essa é a parte que Rhaenyra parece não compreender. Um dragão não paga comida, um título não oferece necessariamente uma casa, prestígio não substitui segurança e gratidão não é salário. Para alguém que nasceu dentro da nobreza, conceder um título pode parecer a maior recompensa possível. Para alguém como Hugh, que perdeu uma filha porque não tinha meios para protegê-la, a pergunta é muito mais simples: o que, concretamente, mudou em sua vida?

O erro que Rhaenyra não consegue enxergar

Talvez essa seja a maior ironia da política de Rhaenyra. Para sobreviver, ela precisou quebrar uma das estruturas mais antigas e exclusivas da sociedade Targaryen. Precisou admitir que o sangue valiriano existia fora das famílias oficialmente reconhecidas e abriu os dragões para bastardos e pessoas que jamais teriam sido consideradas dignas daquele poder em tempos normais.

Depois de quebrar essa hierarquia, porém, Rhaenyra continua esperando que essas pessoas se comportem como se nada tivesse mudado.

Não é possível colocar Vermithor sob o comando de um ferreiro e continuar tratando esse homem apenas como um ferreiro. Também não é possível permitir que Ulf monte Silverwing e esperar que ele aceite ser humilhado como aceitava antes. O poder modifica a relação entre quem manda e quem obedece, e Hugh e Ulf agora controlam armas das quais Rhaenyra precisa desesperadamente. A partir desse momento, a lealdade deles não pode mais ser tratada como uma consequência natural da gratidão. Precisa ser mantida.

É aqui que a diferença entre os dois homens se torna ainda mais importante. No caso de Ulf, o dragão confirma algo que sempre existiu. Ele passou a vida acreditando que merecia mais e agora possui uma criatura capaz de destruir exércitos para provar que estava certo. Seu ressentimento encontra poder.

No caso de Hugh, porém, o processo é muito mais trágico. Ele fez aquilo que lhe pediram, sobreviveu à fome, perdeu a filha, reivindicou Vermithor, lutou por Rhaenyra e agora perde novamente. Aos poucos, a pergunta deixa de ser apenas por que Hugh trairá Rhaenyra e passa a ser por que ele continuaria sendo leal.

Hugh e Ulf não são mais a mesma traição

Durante muito tempo, Hugh Hammer e Ulf White foram lembrados juntos. Os dois são as Sementes do Dragão que abandonam Rhaenyra durante a Primeira Batalha de Tumbleton e passam para o lado dos Verdes. A própria história os transformou em uma dupla e os eternizou como os Dois Traidores.

House of the Dragon, porém, está fazendo algo muito mais interessante ao separá-los.

Ulf se aproxima da traição pela ambição, enquanto Hugh se aproxima dela pela perda. Ulf descobre que possuir um dragão significa que não precisa mais aceitar o lugar que o mundo havia reservado para ele. Hugh começa a descobrir que obedecer a uma rainha não significa que essa rainha protegerá aquilo que ele ama.

Um deles quer mais porque sempre acreditou merecer mais. O outro começa a querer mais porque tudo aquilo que realmente queria foi sendo tirado dele.

Isso não significa que Hugh permanecerá para sempre o homem honrado que conhecemos. Se a série seguir o destino geral de Fire & Blood, sua trajetória ainda será marcada pela ambição, pelo desejo de poder e pela convicção de que poderia ocupar uma posição muito maior do que aquela que recebeu. A diferença está na construção dessa transformação.

A ambição não precisa surgir do nada. Primeiro pode vir a perda, depois o ressentimento e, finalmente, a percepção de que ter sido leal não salvou sua filha, não protegeu sua esposa e não lhe garantiu a vida pela qual ele entrou nessa guerra. Só então pode nascer a ideia mais perigosa de todas: se possuir Vermithor é aquilo que realmente lhe dá poder, por que continuar esperando que outra pessoa cumpra suas promessas?

A traição que Fire & Blood nunca explicou completamente

Essa talvez seja uma das mudanças mais inteligentes que House of the Dragon fez em relação ao livro de George R.R. Martin. A série não precisa mudar o fato. Pode mudar a motivação.

Hugh ainda pode trair Rhaenyra, mudar de lado em Tumbleton, tornar-se ambicioso, violento e perigoso. Quando isso acontecer, porém, não será apenas porque um homem pobre recebeu um dragão e foi subitamente corrompido pelo poder. Nós teremos acompanhado o caminho até lá e visto a fome, a morte da filha, a situação da esposa, as promessas, as cobranças, a impaciência da rainha e o desprezo de Daemon.

Teremos acompanhado, sobretudo, a lenta descoberta de que os Targaryen podem precisar de homens como Hugh, mas continuam tendo enorme dificuldade para enxergá-los verdadeiramente. Ao ignorar aquilo que Hugh realmente pede, ela pode estar fazendo muito mais do que perder um aliado. Pode estar ensinando a ele que possuir um dragão vale mais do que ser leal a uma rainha.


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