A proposta de acompanhar um detetive particular que, além de cinéfilo, elegante e obcecado por pessoas desaparecidas, também é extraterrestre continua sendo um tanto bizarra. Talvez seja exatamente por isso que Sugar me conquiste. Como John Sugar, amo os filmes clássicos, a Los Angeles imaginada na era de ouro de Hollywood, as músicas, as locações e uma fotografia que parece encontrar beleza até nos cantos mais abandonados da cidade. Um episódio capaz de reunir “As Time Goes By”, “Moonglow” e ainda “In Dreams”, de Roy Orbison, já me ganhou antes mesmo de conseguir provar que sabe para onde está levando sua história.
Eu embarco, portanto, embora cada vez mais tenha a sensação de estar dentro de um barco à deriva. Adoraria conversar por horas com John Sugar sobre cinema, ouvir suas referências e acompanhá-lo em mais um passeio pelo estúdio da Paramount. Não tenho a mesma certeza de que confiaria nos roteiristas para me explicar qual é, afinal, o destino dessa viagem.
O quinto episódio da segunda temporada, “Unknowns”, não resolve esse problema, mas oferece sinais de que os dois mistérios de Sugar talvez estejam começando a caminhar um na direção do outro. Talvez. Ainda estamos no território das pistas e das associações, não das respostas. Ao mesmo tempo, o capítulo reforça algo que a série vem fazendo melhor do que parece: usar a premissa excêntrica de um detetive alienígena para modernizar o noir sem abandonar aquilo que torna o gênero tão sedutor.

Ji Moon está vivo, mas oficialmente deixou de existir
O episódio confirma que o plano de Sugar funcionou. Ele provocou a overdose de Ji Moon, trouxe-o de volta com Narcan e agora completa a encenação: leva Ji para uma clínica de reabilitação discreta, consegue um atestado de óbito falso e registra que seu corpo teria sido enviado para a Coreia. Para convencer Vega de que acredita na morte, Sugar ainda invade a festa de aniversário de uma criança e acerta um soco no policial corrupto. É violência, mas também representação. Como tantas vezes acontece na série, John Sugar está interpretando uma cena que aprendeu no cinema.
A referência escolhida é Um Corpo que Cai. Sugar recorda que Hitchcock também usou uma morte falsa, embora espere que sua versão tenha menos emoção. Logo depois, visita novamente o estúdio da Paramount e conversa com uma guia que já conhece sua paixão pela história do cinema. A cinefilia não funciona apenas como uma coleção de citações para quem consegue reconhecê-las. É a linguagem pela qual Sugar compreende o mundo e, muitas vezes, decide como agir.
Ji está protegido, ao menos temporariamente, e Danny sabe que o irmão continua vivo. A possibilidade de lutar em Las Vegas também reaparece, como se o desaparecimento oficial de Ji tivesse libertado Danny para retomar a própria vida. Naturalmente, tudo parece organizado demais para durar. Vega percebe que alguma coisa está errada e volta ao local da suposta overdose, onde encontra um pequeno detalhe fora do lugar. Sugar sabe que o noir vive desses detalhes, mas também pode ser traído por eles.
O caso, porém, já não se resume a proteger uma testemunha de um policial assassino. Sugar descobre que o preço do fentanil caiu cerca de 90% na região controlada por Vega. Alguém parece estar inundando bairros pobres com droga barata para desestabilizar o mercado e assumir seu controle. Os policiais não estão apenas recebendo dinheiro do tráfico: podem ter se transformado em participantes diretos de uma operação muito maior.
A morte de Sandra reforça essa dimensão. Sugar a encontra depois de uma overdose e recupera, dentro de sua bolsa, o celular de Chuy, que pode conter a prova de que ele também sabia demais. No necrotério, descobre que aquela foi a quinta overdose recebida apenas naquele dia, apesar dos índices oficiais indicarem uma queda. A cidade mente sobre os mortos da mesma forma que Sugar acabou de mentir sobre Ji. A diferença é que sua mentira tenta salvar uma vida; a outra permite que muitas desapareçam sem provocar perguntas.
A busca pela irmã finalmente encontrou uma pista concreta
Ao mesmo tempo, Sugar continua investigando o senador Pavich, convencido de que ele sabe algo sobre o desaparecimento de Djen. Seguindo seus contatos, chega ao professor Stanley Ondaatje, invade sua casa e encontra um desenho com círculos, retângulos e equações que se parece com os registros alienígenas vistos anteriormente. Ainda não sabemos o que o diagrama representa, mas a imagem é a pista mais direta até agora de que Pavich e o professor podem ter algum conhecimento sobre a tecnologia dos visitantes.
Isso não prova que o esquema do fentanil, os policiais corruptos, Pavich e o desaparecimento de Djen fazem parte da mesma conspiração. A série ainda não chegou tão longe. Entretanto, “Unknowns” aproxima as histórias de maneira mais inteligente do que simplesmente revelar que todos trabalham para o mesmo vilão. Enquanto finge ter encerrado o caso de Ji, Sugar usa o tempo livre e a vigilância de Vega como cobertura para se aproximar do professor. A investigação profissional passa a abrir espaço para a pessoal.
Talvez os crimes venham a se conectar de forma literal. Também é possível que a verdadeira ligação seja inicialmente temática. Ji, Chuy, Sandra e Djen são pessoas que desapareceram ou foram apagadas por estruturas maiores do que elas. O próprio Sugar é um desconhecido vivendo entre os humanos, transmitindo mensagens para companheiros que já não respondem. O título “Unknowns” se refere aos mortos sem identificação ou sem parentes que ocupam o necrotério, mas se espalha por todo o episódio. Todos ali correm o risco de se tornarem alguém cuja ausência não produz qualquer consequência.

Um alienígena pode ser o detetive noir perfeito
É nesse ponto que a premissa mais estranha de Sugar começa a fazer sentido. O detetive do noir clássico sempre foi um estrangeiro dentro da própria cidade. Ele circulava entre ricos, criminosos, policiais e pessoas desesperadas sem pertencer completamente a nenhum desses mundos. Sugar transforma essa metáfora em condição biológica. Ele não se sente deslocado apenas porque escolheu uma profissão solitária. Ele literalmente não pertence àquele planeta.
No entanto, a série moderniza o gênero ao retirar de seu protagonista uma das características mais tradicionais desses detetives: o cinismo. Sugar testemunha crueldade, corrupção e violência, mas continua acreditando que as pessoas merecem ser salvas. Colin Farrell já destacou justamente essa ausência de cinismo e a fé do personagem nos seres humanos como um contraponto ao mundo sombrio que ele observa.
O noir de Sugar não abandona as sombras, a narração em primeira pessoa, o carro impecável, os hotéis, os policiais corruptos ou as mulheres misteriosas. Ele preserva tudo isso porque ama o gênero. A novidade está no olhar. Seu detetive não é um homem endurecido tentando não se importar. É um alienígena que se importa demais e talvez esteja se tornando humano justamente por não conseguir manter a distância que deveria.
Essa assimilação se torna mais evidente no episódio. Sugar reconhece que está aprendendo a mentir, sente-se cada vez mais sozinho, tenta novamente entrar em contato com os outros visitantes e não recebe resposta. Depois, come seu primeiro cheeseburger, passa a noite conversando com Charlotte e imagina Peg advertindo que ele está indo para o inferno. Tornar-se humano, para a série, não significa apenas descobrir prazeres, desejos ou vínculos afetivos. Significa também adquirir nossa capacidade de enganar, ferir e justificar aquilo que fazemos.
Esse talvez seja o aspecto mais interessante da modernização do noir. Nos filmes clássicos, o detetive entrava em uma cidade corrompida e descobria que não poderia atravessá-la sem também se comprometer. Em Sugar, o processo recebe outro nome: assimilação. O alienígena que chegou para observar a humanidade começa a incorporar aquilo que admira e aquilo que deveria temer nela.

A Los Angeles atual substitui a antiga femme fatale
“Unknowns” também atualiza o gênero ao deslocar o perigo. O grande monstro não é apenas um criminoso elegante, uma mulher fatal ou uma família rica escondendo segredos. É uma estrutura capaz de transformar pessoas pobres, dependentes químicas, imigrantes e moradores de rua em corpos anônimos, armazenados em caixas depois que ninguém aparece para buscá-los.
A sequência final no necrotério é menos glamorosa do que os passeios de Sugar por Hollywood, mas talvez seja a imagem mais noir de toda a temporada. A cidade dos sonhos continua produzindo desaparecidos. A diferença é que agora sabemos quem costuma desaparecer primeiro.
Por isso, a nostalgia da série não é inteiramente vazia. “As Time Goes By” pode nos levar de volta a Casablanca. “In Dreams”, eternamente ligada ao uso perturbador que David Lynch fez da música em Veludo Azul, carrega consigo o encontro entre beleza, desejo e ameaça. A trilha, as locações e os enquadramentos criam uma Los Angeles que só existe porque o cinema a inventou, mas os crimes pertencem ao presente.
Ainda assim, chegamos ao quinto de oito episódios sem saber até que ponto a série possui um destino. O celular de Chuy, o diagrama encontrado na casa de Ondaatje e a desconfiança de Vega precisam produzir rapidamente algo maior do que novas pistas. O amor pelo noir sustenta Sugar, mas não pode substituir indefinidamente a evolução da trama.
Continuo embarcando porque adoro estar naquele universo. Adoro a música, o carro, os filmes, a melancolia e, sobretudo, John Sugar. Ele é o tipo de personagem com quem eu realmente gostaria de sentar para conversar. Talvez essa seja a maior força e também o maior risco da série: gosto tanto da companhia do detetive que quase aceito acompanhá-lo sem saber para onde estamos indo.
Quase.
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