Talvez o maior mérito da nova série da Amazon Prime, Ride or Die, seja também o mais simples: colocar Hannah Waddingham e Octavia Spencer no centro da tela e sair do caminho.
As duas já haviam feito algo semelhante antes, embora oficialmente ocupassem posições de apoio. Octavia ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Histórias Cruzadas, em uma atuação que dificilmente alguém que assistiu ao filme consideraria secundária. Hannah ganhou o Emmy de Melhor Atriz Coadjuvante em Comédia por Rebecca Welton em Ted Lasso, outra personagem que cresceu muito além da função que aparentemente teria dentro de uma série liderada por Jason Sudeikis. As duas receberam seus maiores prêmios como “coadjuvantes” depois de, na prática, roubarem para si parte das histórias em que estavam.
Em Ride or Die, finalmente não precisam roubar nada. A série já é delas. E ainda bem, porque são justamente Hannah e Octavia que transformam uma trama que, retirada a presença das duas, é praticamente uma coleção de todos os clichês que o gênero de espionagem acumulou nas últimas décadas.
Temos a organização internacional secreta de assassinos, com seu misterioso chefe e suas regras próprias. Temos matadores profissionais traumatizados por infâncias de abandono e rejeição. Temos o agente que esconde durante décadas sua verdadeira identidade da pessoa mais próxima. Temos o civil arrastado acidentalmente para aquele universo e que, apesar de não ter treinamento algum, demonstra uma improvável combinação de inteligência, coragem e uma quantidade quase sobrenatural de sorte. Temos conspirações, perseguições, reviravoltas, traições, romances, mortes, humor no meio do perigo e segredos dentro de outros segredos.
Vimos tudo isso antes.
O que não vimos tantas vezes foi Hannah Waddingham e Octavia Spencer fazendo tudo isso juntas aos 51 e 56 anos, respectivamente, sem que a idade seja tratada como impedimento, piada ou explicação para estarem ali. Pelo contrário: as duas estão lindíssimas, sensuais, engraçadas e completamente donas da tela. Spencer resumiu bem a intenção ao dizer que mulheres na faixa dos 50 continuam tão capazes, bonitas e sexy quanto antes: simplesmente estão envelhecendo.
É surpreendente que isso ainda pareça revolucionário em 2026.

Hannah Waddingham encontrou sua mulher de ação
Hannah, especialmente, é uma revelação deliciosa como heroína de ação.
E pensar que uma parcela enorme do público a conheceu irreconhecível como a aterrorizante Septa Unella de Game of Thrones, responsável por tocar aquele inesquecível sino de “shame” atrás de Cersei Lannister. Depois veio Rebecca Welton, em Ted Lasso, revelando não apenas uma atriz dramática excelente, mas uma presença cômica extraordinária e um magnetismo que a série nunca tentou esconder.
Ride or Die reúne tudo.
Sua Judith pode ser ameaçadora, vulnerável, sofisticada, ridícula, sexy e genuinamente engraçada sem que nenhuma dessas características anule a outra. Mais importante: acreditamos nela como uma mulher capaz de matar alguém.
Waddingham fez grande parte de suas próprias sequências físicas e levou o treinamento seriamente. Ela contou que queria que o público percebesse que era realmente ela nas cenas e falou particularmente com orgulho da luta no banheiro usando um vestido dourado. Em outra entrevista, explicou que Judith não poderia lutar de maneira hesitante: estamos falando de uma assassina lendária com décadas de experiência, portanto, seus movimentos precisavam parecer rápidos e naturais.
Pois funcionou. Depois de tantos anos em que Helen Mirren parecia ocupar quase sozinha o trono da mulher madura que podia entrar em um filme de ação, pegar uma arma e fazer todo mundo acreditar imediatamente que sabia perfeitamente o que estava fazendo, Hannah Waddingham está praticamente arrancando a coroa de sua cabeça. Sem deixar de ser engraçada. Nem sexy. Muito menos feminina.
E isso é importante porque Hollywood passou décadas confundindo força feminina com a necessidade de apagar tudo o que pudesse parecer feminino. Judith não precisa disso.
Octavia Spencer também nunca precisou ser apenas “a amiga”
Do outro lado está Octavia Spencer, fazendo algo talvez ainda mais difícil.
Debbie começa como a “civil” da dupla. Em mãos menos talentosas, seria simplesmente a personagem encarregada de fazer perguntas para que o roteiro pudesse explicar ao público o que está acontecendo, tropeçar durante perseguições e oferecer alívio cômico. Octavia não permite que isso aconteça.
Debbie é engraçada sem virar caricatura, inteligente sem adquirir milagrosamente superpoderes e vulnerável sem se transformar em peso morto. Mais do que isso, Octavia parece extraordinariamente à vontade sendo protagonista.
Ela também está linda, sexy e com uma veia cômica que nem sempre Hollywood lhe permitiu explorar com essa liberdade. Há algo especialmente prazeroso em vê-la reagindo ao absurdo crescente da situação porque Spencer tem aquele raro domínio do tempo cômico em que basta um olhar ligeiramente atrasado para melhorar uma cena inteira.
Talvez não seja coincidência que tenha entrado no projeto com tamanha rapidez.
A origem de Ride or Die ajuda a explicar por que as duas parecem tão perfeitamente encaixadas. Octavia Spencer foi procurada pela então Skydance dentro de seu acordo de desenvolvimento com o estúdio e ouviu a ideia criada por Tessa Coates. Aceitou praticamente de imediato. Segundo Spencer, entre centenas de pitches que ouviu ao longo da carreira, aquele a conquistou por colocar duas mulheres “de certa idade”, inteligentes e capazes, fazendo ação e comédia, sem abandonar o coração da história.
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E havia uma coincidência interessante: Spencer e os produtores chegaram independentemente ao mesmo nome para Judith. Hannah Waddingham.
Quando as três fizeram uma reunião por Zoom, Hannah ouviu toda a história e ficou tão encantada que perguntou quem teria a sorte de interpretar Judith ao lado de Octavia. Achava que talvez estivesse ali para sugerir alguém para o papel. A resposta foi basicamente: você.
Ela também aceitou antes de passar pelos caminhos tradicionais de agentes e negociações. Às vezes, química não pode ser fabricada.

O verdadeiro romance de Ride or Die
É justamente essa química que salva Ride or Die de seus próprios clichês.
Porque, no fundo, pouco importa a organização de assassinos. Pouco importa descobrir qual personagem está mentindo, quem vai trair quem ou qual será a próxima revelação. Há surpresas eficientes ao longo dos oito episódios, algumas mais previsíveis do que outras, e a série sabe equilibrar comédia, ação, drama e momentos genuinamente emotivos.
Mas estamos assistindo a Judith e Debbie e o grande romance de Ride or Die não é romântico, mas a amizade entre duas mulheres. E talvez esse seja o único elemento realmente subversivo de uma série construída sobre fórmulas tão conhecidas.
Os homens tiveram durante décadas seus buddy movies. Podem atravessar continentes, enfrentar exércitos, sacrificar carreiras, famílias e até a própria vida por outro homem, e essa lealdade é transformada em mito cinematográfico. Com mulheres, a amizade quase sempre precisa dividir espaço com marido, namorado, filhos, rivalidade profissional ou alguma competição amorosa.
Aqui, os romances existem, mas são periféricos e a história de amor é delas, uma relação central que Octavia Spencer define como um amor não romântico, mas familiar, inclusive com conflitos e rupturas. Waddingham e ela fizeram questão de que Judith e Debbie pudessem se confrontar, porque uma amizade em que duas mulheres apenas se apoiam incondicionalmente seria açucarada e pouco verdadeira. Elas precisam poder decepcionar uma à outra para que a escolha de permanecer juntas tenha significado.
É justamente isso que dá alguma gravidade ao absurdo.
Por baixo dos tiros, assassinatos e perseguições, Ride or Die pergunta algo muito mais universal: até onde iríamos pela pessoa que nos conhece de verdade, e o que aconteceria se descobríssemos que talvez nunca a tivéssemos conhecido completamente?
Uma Europa construída para elas
Criada por Tessa Coates, a série tem Matt Miller como showrunner e Peyton Reed, diretor dos filmes de Homem-Formiga, comandando os dois primeiros episódios. Hannah Waddingham e Octavia Spencer também são produtoras executivas, o que ajuda a explicar por que o olhar sobre as protagonistas parece vir de dentro e não de alguém observando mulheres dessa idade como uma novidade exótica.
A produção foi filmada extensamente na República Tcheca entre janeiro e julho de 2025, usando Praga e diversas outras regiões para construir a viagem europeia da dupla. Entre as locações estão o centro histórico de Praga, Karlovy Vary, castelos, igrejas, pedreiras e estúdios, numa produção suficientemente ambiciosa para fazer a aventura parecer muito mais geograficamente dispersa do que realmente foi.
O elenco ainda traz Bill Nighy, Ed Skrein, Sylvia Hoeks, Jamie Parker, Calam Lynch e Savannah Steyn, mas ninguém ameaça por muito tempo a certeza de que estamos ali pelas duas protagonistas.

E haverá uma segunda temporada?
Por enquanto, o Prime Video não anunciou oficialmente uma segunda temporada. Isso, porém, não significa muita coisa ainda: os oito episódios foram lançados todos de uma vez em 15 de julho de 2026, portanto, a série está disponível há apenas alguns dias e a plataforma ainda terá de avaliar audiência, conclusão dos episódios e repercussão antes de decidir seu futuro.
Sem entrar em spoilers, o final certamente não fecha todas as portas e permite continuar a história. A estrutura também encontrou algo mais valioso do que qualquer conspiração para sustentar novos episódios: uma dupla que queremos rever.
Talvez seja justamente por isso que uma eventual segunda temporada não precise inventar uma conspiração maior, multiplicar vilões ou transformar a história em algo mais grandioso. Ride or Die já encontrou aquilo que muitas séries passam anos procurando: personagens cuja companhia, por si só, justifica continuar assistindo.
Quando os créditos finais chegam, a curiosidade não está necessariamente em descobrir qual será a próxima missão de Judith e Debbie, mas em saber o que mais pode acontecer quando Hannah Waddingham e Octavia Spencer dividem a tela. O resto pode até mudar. Essa é a parte que a série não pode perder.
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