Robert Smith critica show da Copa e mira a lógica da FIFA

Robert Smith é tímido, mas nunca foi exatamente silencioso quando alguma coisa o irrita. Quem acompanha o vocalista do The Cure há décadas sabe que existe uma diferença enorme entre ser reservado e não ter opinião. Smith fala pouco, geralmente foge da exposição que acompanha sua fama e nunca transformou a banda em plataforma política permanente, mas é também um antimonarquista assumido, crítico feroz da ganância na indústria musical e alguém com uma desconfiança quase instintiva de instituições poderosas. Portanto, quando resolveu mandar a ideia do show do intervalo da final da Copa do Mundo praticamente “se foder”, talvez a surpresa maior tenha sido apenas a quantidade de gente que ainda não sabia que ele é assim.

A revolta surgiu por causa da primeira grande apresentação musical no intervalo de uma final de Copa do Mundo, uma produção inspirada na lógica do Super Bowl, idealizada com participação de Chris Martin, do Coldplay, e reunindo Madonna, Shakira, BTS, Justin Bieber, Burna Boy e outros nomes. O espetáculo musical foi planejado para durar cerca de 11 minutos e integra uma iniciativa da FIFA com a Global Citizen voltada à arrecadação para educação infantil. É uma causa difícil de contestar. A pergunta levantada pelos críticos é outra: por que a final do maior torneio de futebol do mundo precisava se transformar em algo diferente para ajudar a promovê-la?

Smith foi direto, como costuma ser quando perde a paciência. Em uma publicação no Instagram do The Cure, ironizou Gianni Infantino, usou as hashtags #Breadandcircuses e #MUGWANK e terminou com um nada diplomático “please just fuck off”. Quando algumas pessoas interpretaram sua reação como um ataque aos artistas escolhidos, voltou para esclarecer que o problema não era realmente quem estava organizando ou cantando, mas a própria ideia de transformar o intervalo da final em um espetáculo à moda do futebol americano. Também aproveitou para ironizar a proximidade entre Infantino e Donald Trump, deixando bastante claro que sua irritação era maior do que uma simples implicância com um show pop.

É importante fazer essa distinção porque Robert Smith não está reclamando de Madonna, BTS ou Shakira ocuparem um palco que ele gostaria que fosse do The Cure. Nem parece particularmente preocupado com Chris Martin como curador. A crítica é à lógica por trás disso. Para ele, o futebol não precisava ser reinventado como produto de entretenimento americano, especialmente quando já é, por si só, o esporte mais globalizado do planeta.

E ele não foi o primeiro roqueiro britânico rabugento — uso “rabugento” com carinho — a dizer isso nesta Copa. Noel Gallagher, fanático pelo Manchester City e alguém cuja relação com o futebol é quase tão conhecida quanto sua relação complicada com o irmão Liam, já havia descartado o show semanas antes. Perguntado se participaria, respondeu ironicamente que estaria cuidando do “sorteio de uma perna de cordeiro no intervalo”, referência ao tipo de entretenimento modestíssimo que se encontrava em estádios ingleses décadas atrás. Depois explicou que não gosta do razzmatazz introduzido no futebol e observou que o esporte vinha funcionando perfeitamente havia centenas de anos sem precisar disso.

Noel ainda provocou dizendo que os artistas escolhidos “não são exatamente pessoas do futebol”, mas seu argumento principal é mais interessante do que essa pequena alfinetada. Ele não rejeita mudanças que possam melhorar o jogo — chegou a elogiar alterações destinadas a combater a perda de tempo — mas faz uma distinção entre mudar o futebol e empacotar o produto futebol. Uma coisa tenta melhorar o esporte. A outra tenta aumentar tudo o que existe ao redor dele.

Robert Smith vai um passo além porque essa discussão toca em uma implicância antiga.

Em 2024, falando sobre sua relação com futebol, ele já lamentava que o esporte estivesse cada vez mais dominado por branding, patrocínio e apostas, reduzido em parte à aparência e a “venda de coisas”. Smith é torcedor de longa data do Queens Park Rangers e não descobriu o futebol nesta Copa nem resolveu subitamente assumir a persona do purista indignado porque Madonna entrou em campo. A sensação de que o jogo está sendo progressivamente transformado em plataforma comercial já o incomodava antes da FIFA inventar seu momento Super Bowl.

Talvez por isso sua reação tenha encontrado tanta ressonância. Não estamos falando de um músico que historicamente defende que tudo permaneça como era. The Cure é uma banda que passou quase cinco décadas mudando sem deixar de soar como The Cure. O problema de Smith nunca parece ser mudança por si só. É perceber quando a mudança vira uma palavra mais simpática para comercialização.

Foi exatamente isso que o colocou em rota de colisão com a Ticketmaster em 2023. O The Cure deliberadamente tentou manter ingressos baratos em sua turnê americana, mas fãs descobriram que as taxas cobradas em alguns casos custavam tanto ou mais do que os próprios ingressos. Smith tornou a irritação pública, pressionou a empresa e conseguiu devoluções parciais para compradores. Mais tarde, continuou atacando o sistema de preço dinâmico como uma prática movida por ganância. A atitude teve repercussão concreta: Neil Young chegou a citar Smith ao rejeitar o uso do modelo em sua própria turnê.

Há uma coerência aí que ajuda a entender por que a FIFA despertou o mesmo tipo de reação. Na Ticketmaster, o fã vira uma oportunidade de extrair mais dinheiro. No futebol transformado em megashow, o torcedor corre o risco de deixar de ser o centro de uma cultura para se tornar audiência disponível entre um patrocinador e outro.

Essa postura também aparece na relação de Smith com uma instituição ainda mais antiga que a FIFA: a monarquia britânica. Ele nunca escondeu seu republicanismo. Em uma entrevista que voltou a viralizar várias vezes, atacou o privilégio hereditário como antidemocrático e inerentemente errado. E levou sua posição literalmente para o palco: em sua guitarra apareceu a inscrição “CITIZENS NOT SUBJECTS”, corretamente traduzida como “Cidadãos, não súditos”. Poucas frases resumem tão bem sua visão sobre autoridade.

Não significa que Ticketmaster, Rei Charles e Gianni Infantino sejam equivalentes, evidentemente. O fio que liga as críticas é outro: Smith parece ter uma alergia particular à ideia de que instituições possam simplesmente decidir como as pessoas devem consumir, pagar, obedecer ou aceitar algo porque aqueles que detêm o poder consideram que sabem o que é melhor.

Talvez seja justamente por isso que a expressão usada em sua crítica à FIFA, “bread and circuses”, seja tão reveladora. Pão e circo são uma referência antiga à estratégia de distrair o público com espetáculo enquanto questões mais importantes ficam fora de foco. Smith não está dizendo que música e futebol não podem conviver — seria um argumento estranho vindo de um músico apaixonado pelo esporte. Está perguntando por que um jogo que mobiliza bilhões de pessoas precisa ser “melhorado” por uma fórmula importada de outro esporte e de outra tradição cultural.

Ele também não está sozinho entre os que fizeram essa pergunta. Na televisão irlandesa, os ex-jogadores Richie Sadlier, Shay Given e Didi Hamann reagiram duramente ao formato. Sadlier resumiu parte da resistência ao perguntar quem alguma vez olhou para o futebol e concluiu que aquilo de que ele precisava era “mais anúncios e mais músicas”. Given destacou algo ainda mais básico: jogadores passam a carreira inteira condicionados a um intervalo de 15 minutos, e alterar essa estrutura numa final de Copa não é necessariamente uma mudança neutra. Hamann levou a discussão adiante ao perguntar qual será o próximo passo se cada nova alteração for aceita simplesmente porque aumenta a audiência e a receita.

A FIFA aparentemente reduziu parte da preocupação logística ao informar às seleções que o intervalo total ficaria em torno de 17 minutos, com aproximadamente 11 destinados à apresentação e o restante à montagem e retirada da estrutura. É muito menos do que os 25 ou 30 minutos inicialmente temidos, mas isso não resolve a discussão que Smith, Gallagher e os críticos estão levantando. A questão não é apenas quantos minutos Madonna ou BTS terão para cantar. É o precedente.

Porque o futebol já tem espetáculo. É o jogo.

A final já tem narrativa, tensão, vilões, heróis, música nas arquibancadas, lágrimas, superstições, hinos, rivalidades e milhões de pessoas incapazes de respirar normalmente durante 90 minutos. Não é por acaso que imagens dos jogadores ingleses cantando Wonderwall espontaneamente com a torcida tiveram tanta força nesta Copa. Noel Gallagher, que não quer saber do show produzido no intervalo, adorou ver sua música apropriada organicamente pelos jogadores e torcedores e resumiu perfeitamente a diferença ao dizer que Wonderwall “pertence às pessoas”.

É justamente aí que está o contraste. Ninguém precisou colocar Wonderwall no roteiro. Não houve curadoria de Chris Martin, planejamento de marketing ou palco montado no gramado. A música nasceu do futebol porque naquele momento fazia sentido para quem estava vivendo aquilo.

Talvez seja isso que Robert Smith esteja defendendo de maneira muito menos delicada. Ele não é contra espetáculo, muito menos contra música. Quem já assistiu a um show de três horas do The Cure dificilmente poderia acusá-lo disso. Ele é contra a ideia de que tudo precise ser transformado em produto, ampliado, patrocinado, empacotado e vendido novamente para um público que já estava ali.

Há décadas ele carrega uma mensagem simples na guitarra: cidadãos, não súditos. No caso da FIFA, poderíamos atualizar ligeiramente a frase.

Torcedores, não consumidores.

E talvez essa seja a verdadeira discussão por trás de todos aqueles palavrões.


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