Retrato de uma Mulher volta à TV quase 60 anos depois

Eu esperei 30 anos por outra Isabel Archer. Talvez mais, se considerarmos que Retrato de uma Senhora é meu livro favorito de Henry James e uma daquelas histórias às quais volto sempre, encontrando algo diferente conforme o tempo passa. Agora, finalmente, uma nova adaptação está a caminho. As filmagens já começaram no Reino Unido, na Hungria e na Croácia, em uma coprodução de seis episódios que será exibida pela BBC no Reino Unido e pelo MASTERPIECE/PBS nos Estados Unidos e no Canadá. Ainda não há data de estreia anunciada.

Nell Tiger Free será Isabel Archer, a jovem americana que atravessa o Atlântico determinada a conhecer o mundo e, sobretudo, a não viver segundo as regras que outros estabeleceram para ela. Jim Sturgess interpreta Gilbert Osmond, o homem que transformará essa busca por liberdade em uma armadilha. Gemma Arterton será Madame Merle, talvez a personagem mais perigosa e fascinante da história, justamente porque entende muito melhor do que Isabel como funcionam as estruturas sociais que limitam as mulheres.

O elenco ainda tem Bill Nighy como Mr. Touchett, Miranda Richardson como a excêntrica Mrs. Touchett, Jack Wolfe como Ralph Touchett, Hugh Skinner como Lord Warburton, Hamish Frew como Caspar Goodwood, Calypso Cragg como Pansy Osmond, Maisie Richardson-Sellers como Henrietta Stackpole e Lydia Leonard como a Condessa Gemini. Rebecca Lenkiewicz, de Colette e She Said, assina a adaptação, com direção de Aisling Walsh.

É curioso que um romance tão importante, publicado em 1881, tenha chegado tão poucas vezes às telas. A BBC fez uma versão em seis episódios em 1968, com Suzanne Neve como Isabel e Richard Chamberlain como Ralph. Quase 30 anos depois, Jane Campion realizou o filme de 1996 com Nicole Kidman, John Malkovich e Barbara Hershey, uma adaptação ambiciosa, belíssima e profundamente divisiva que merece um texto próprio e terá. Desde então, silêncio.

Quase 60 anos separam, portanto, as duas versões para televisão. E 30 anos separam a nova Isabel Archer daquela vivida por Nicole Kidman.

Uma história de 1881 que continua perigosamente atual

Talvez a ausência de tantas adaptações seja ainda mais estranha porque Retrato de uma Senhora (ou Retrato de uma Mulher, como o traduziram o filme) permanece extraordinariamente moderno. Não porque Isabel Archer seja uma “mulher à frente de seu tempo” no sentido simplista que tantas adaptações contemporâneas gostam de aplicar às personagens do passado, mas porque suas contradições continuam reconhecíveis.

Isabel apenas quer liberdade.

Por isso, ela rejeita propostas de casamento, resiste às expectativas sociais e acredita que sua vida deve ser maior do que aquilo que lhe oferecem. Quando Ralph Touchett, seu primo, percebe esse desejo e intervém para que ela receba uma herança capaz de lhe proporcionar independência financeira, Isabel finalmente ganha aquilo que quase nenhuma mulher de sua época possuía: a possibilidade real de escolher. E então escolhe mal. Essa é a crueldade extraordinária de Henry James.

Isabel não é aprisionada porque nunca teve liberdade, mas apenas depois de conquistá-la. Usa justamente a independência que deveria abrir o mundo diante dela para entrar voluntariamente no universo do qual tentava escapar. Te desafio a acompanhar a trama e não se debulhar em lágrimas.

Gilbert Osmond não aparece como a escolha óbvia de uma mulher ambiciosa, afinal, ele não possui a fortuna, o título ou a posição social que outros pretendentes poderiam lhe oferecer. O que ele tem é um gosto refinado e um aparente desdém pela sociedade em geral. Vale também longos estudos porque é um personagem representante de tudo o que uma mulher deveria evitar… mas não consegue. Tanto que, aos olhos de Isabel, a falta de matéria e a abundância de conhecimento fazem parte de seu encanto. Escolhê-lo parece confirmar sua independência: ela acredita estar rejeitando dinheiro, convenção e status em favor de inteligência, refinamento e afinidade.

Só que Osmond é uma prisão muito mais sofisticada. Isabel é inteligente o suficiente para desafiar o mundo, mas ainda ingênua o bastante para acreditar que inteligência impede alguém de ser manipulado. E sem imaginar, é sua melhor amiga que a cega para as verdades e a conduz para a infelicidade.

Talvez seja isso que continue tornando a história tão desconfortável. Henry James não oferece uma heroína perfeita que se rebela contra um sistema injusto e é recompensada por isso. Como tantas personagens femininas que ousavam querer mais nos romances de seu tempo, Isabel acaba pagando um preço enorme por sua tentativa de autonomia. Mas sua tragédia é ainda mais complexa porque o próprio James lhe dá escolhas, mas apenas não compreende completamente o que está escolhendo.

E é justamente aí que começa meu medo

Estou muito animada com essa nova versão, mas também estou, sinceramente, em pânico.

Vivemos uma fase em que adaptações de época parecem sentir a necessidade de assegurar constantemente ao público que suas heroínas pensam exatamente como uma mulher progressista do século 21. Não estou falando de diversidade de elenco, figurino ou liberdade estética. Estou falando de anacronismo psicológico. Meu medo é que tentem “consertar” Isabel Archer.

Que transformem sua independência em slogans. Que deixem suas intenções sempre claras. Que a façam perceber antecipadamente as armadilhas que Henry James construiu justamente para que ela não percebesse. Ou que tentem transformar Retrato de uma Senhora em algo entre Bridgerton e The Buccaneers, com personagens do século 19 expressando conflitos contemporâneos em linguagem, comportamento e consciência perfeitamente atuais.

Nada contra essas séries dentro das propostas que escolheram, mas The Portrait of a Lady precisa de outra coisa. Isabel já é moderna e não precisa de atalhos ou atualizações. Precisamos permitir que ela seja contraditória.

Ela pode desejar independência e ainda desejar amor. Pode rejeitar convenções e ser fascinada por um homem que, sem que perceba, representa a forma mais rígida delas. Pode ser inteligente e tola. Pode conquistar dinheiro e continuar emocionalmente vulnerável. Pode acreditar que está escolhendo livremente sem perceber quanto daquela escolha nasce de sua própria vaidade, de sua fantasia sobre quem gostaria de ser e de sua necessidade de provar que ninguém decidirá por ela.

Retirar essas contradições para transformá-la em uma heroína mais facilmente admirável seria retirar justamente aquilo que faz dela Isabel Archer.

A chance que Henry James finalmente lhe deu

Há ainda uma ironia que torna sua queda especialmente dolorosa. Ralph ajuda Isabel porque acredita nela e vê sua curiosidade, sua inteligência e sua fome de mundo. Ele imagina que o dinheiro poderá libertá-la das limitações impostas às mulheres e, pela primeira vez, ela realmente poderia viver a vida que desejava. A herança não cria sua tragédia por ser dinheiro demais. Ela cria a possibilidade da tragédia porque dá à Isabel poder para agir.

É justamente quando ganha liberdade que precisa descobrir o que fazer com ela.

E talvez seja por isso que Retrato de uma Senhora continue tão atual depois de quase 150 anos. Liberdade nunca significou automaticamente sabedoria. Ter escolhas não significa compreender nossas próprias escolhas. E independência financeira, intelectual ou social não nos torna imunes ao desejo, à manipulação ou às fantasias que construímos sobre nós mesmos.

Isabel Archer quer escapar de um mundo que pretende decidir quem ela deve ser e, o mais cruel é que, quando finalmente consegue escapar, ajuda a construir a própria prisão.

É por isso que estou esperando essa série com tanta ansiedade. Seis episódios oferecem algo que o cinema de Jane Campion, por mais fascinante que seja, jamais teve em abundância: tempo para entrar na cabeça de Isabel.

Só espero que os responsáveis pela nova adaptação confiem em Henry James. E, principalmente, que confiem em Isabel Archer o suficiente para não tentar salvá-la de suas próprias contradições.


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