Em Westeros, morrer nunca foi suficiente. Também é preciso disputar a forma como a morte será contada, porque são as histórias, mais do que os fatos, que atravessam gerações. Os homens morrem, os castelos caem, as testemunhas desaparecem, mas as canções permanecem. Por isso, tantos personagens desse universo parecem obcecados não apenas em vencer, mas em realizar algo que um dia mereça ser cantado.
Já escrevi aqui sobre duas das canções mais importantes de Game of Thrones. The Rains of Castamere transforma o extermínio de uma família numa demonstração permanente do poder dos Lannister. Ela não recorda apenas uma vitória de Tywin: funciona como ameaça. Basta que os primeiros acordes sejam tocados para que todos entendam o que acontece com quem desafia aquela casa. Jenny of Oldstones, ao contrário, preserva aquilo que já se perdeu. É uma canção sobre ausência, saudade e pessoas que continuam dançando apenas na memória de quem ficou. Na série, ela surge antes da Batalha de Winterfell, quando todos sabem que podem estar vivendo sua última noite.
Agora, House of the Dragon apresenta uma terceira possibilidade. Para Criston Cole, a canção pode funcionar como absolvição.

Criston quer escolher como será lembrado
No quinto episódio da terceira temporada, Criston conduz um exército cada vez mais reduzido, exausto e cercado pelos homens dos Rios. Ele sabe que provavelmente não sairá vivo daquela marcha, mas transforma a proximidade da morte numa última fantasia de controle. Já que perdeu o domínio sobre a guerra, sobre os homens que deveria comandar e sobre a própria vida, decide ao menos controlar a maneira como acredita que será lembrado.
Criston diz que morrerá livre, como o maior guerreiro do reino, e que as canções sobre sua morte chegarão até Alicent. Não está falando apenas em morrer com uma espada na mão. Está imaginando a própria morte como espetáculo, legado e declaração de amor. Na versão que constrói para si mesmo, ele não será lembrado como o homem consumido pelo ressentimento, responsável por colocar Aegon no trono e por conduzir milhares de soldados para uma guerra cada vez mais sem saída. Será o cavaleiro glorioso que escolheu seu último combate.
É uma fala importante porque revela que Criston ainda tenta fazer com a posteridade o que passou a vida fazendo consigo mesmo: reorganizar os próprios atos para que pareçam honrados.
Ele quebrou os votos que definiam sua identidade, matou em nome de suas dores pessoais, ajudou a transformar uma disputa familiar numa guerra e converteu a rejeição de Rhaenyra numa espécie de justificativa moral para tudo o que veio depois. Cada escolha precisava ser apresentada como dever, lealdade ou honra, ainda que por baixo dela existissem humilhação, desejo e ressentimento.
A canção seria sua última tentativa de arrumar essa história. Aquilo que não pode mais ser corrigido na vida seria embelezado depois da morte.
Não é coincidência que ele queira que essa música chegue justamente a Alicent. Foi ela quem o encontrou quando ele estava disposto a morrer e lhe ofereceu um novo lugar, uma nova lealdade e uma forma de continuar acreditando que ainda era um homem de honra. Alicent se tornou não apenas sua amante ou sua rainha, mas a principal testemunha da versão de si mesmo que ele precisava preservar. Ao imaginar que ela ouvirá a canção, Criston também imagina que, finalmente, será compreendido por ela.
Mas Fogo & Sangue já preparou uma resposta cruel para essa fantasia.

O homem que se recusa a cantar Criston Cole
Na chamada Batalha do Açougueiro, Criston percebe que seu exército foi cercado e tenta inicialmente negociar a sobrevivência de seus homens. Quando isso fracassa, oferece enfrentar sozinho três comandantes dos Pretos: Roderick Dustin, Garibald Grey e Pate de Longleaf. Seria a morte perfeita para a lenda que ele deseja construir. O Fazedor de Reis, sozinho diante dos inimigos, morrendo em combate contra três grandes guerreiros.
Eles se recusam a lhe dar esse final.
Criston é atingido pelas flechas dos arqueiros de Robb Rivers, sem duelo, sem gesto grandioso e sem a oportunidade de transformar os últimos segundos de vida numa demonstração de heroísmo. É então que Pate de Longleaf declara que não haverá canções sobre a bravura de sua morte, porque dezenas de milhares de pessoas já morreram por causa dele.
A frase é mais do que uma provocação. Pate entende que matar Criston não basta. É preciso impedir que ele transforme a própria morte numa versão redentora de sua vida.

A ironia é ainda maior porque Pate (ausente em House of the Dragon) já possui uma história que parece feita para virar canção. De origem humilde, ele era um escudeiro grisalho quando feriu mortalmente Jason Lannister na Batalha do Garfo Vermelho. Depois disso, foi armado cavaleiro e passou a ser conhecido como Longleaf, o Matador de Leões. O homem que nega a Criston o direito à lenda é, portanto, alguém que conquistou um nome ao matar um Lannister em batalha.
Mas existe uma diferença fundamental entre realizar um feito que será lembrado e planejar a própria morte como propaganda. Pate não está interessado em preservar a honra de Criston. Está interessado em preservar a responsabilidade de Criston pelo que aconteceu.
A série pode ter cortado Pate, mas não deveria cortar sua ideia
House of the Dragon aparentemente eliminou Pate como personagem independente. Na estreia da terceira temporada, foi Roderick Dustin quem apareceu carregando a cabeça de Jason Lannister, absorvendo justamente o feito que, no livro, transformava Pate em Matador de Leões. Isso indica que a série pode ter fundido os dois personagens ou distribuído entre outros homens a função que originalmente pertencia a Longleaf.
Ainda não sabemos, portanto, quem impedirá Criston de ter a morte heroica que deseja. Pode ser Roderick Dustin, pode ser outro comandante ou até mesmo alguém criado especificamente para aquele momento. Mas, depois de colocar Criston falando tão claramente sobre as canções que serão escritas a seu respeito, seria difícil imaginar que a série eliminasse justamente a resposta construída por George R. R. Martin.
Criston não precisa apenas morrer. Ele precisa descobrir que não poderá determinar o significado de sua morte.

As canções de Westeros também podem mentir
As canções são frequentemente tratadas como a memória de Westeros, mas isso não significa que sejam verdadeiras. Elas simplificam pessoas, transformam massacres em vitórias gloriosas, apagam vítimas e oferecem aos poderosos a versão de si mesmos que gostariam de deixar para o futuro.
The Rains of Castamere transforma violência em autoridade. Jenny of Oldstones transforma perda em permanência. Criston quer que sua canção transforme culpa em heroísmo. É por isso que Pate se recusa a cantá-la.
Ao negar o duelo, ele impede que o Fazedor de Reis use um último ato de coragem para apagar tudo o que veio antes. Não haverá uma morte bela capaz de absolver a vida que a precedeu. Não haverá um cavaleiro solitário enfrentando três adversários enquanto seus homens assistem. Não haverá uma melodia romântica atravessando Westeros até chegar aos ouvidos de Alicent.
Criston Cole passou a vida tentando fazer com que seus desejos parecessem princípios e suas escolhas parecessem dever. No fim, tenta fazer o mesmo com a própria morte.
A verdadeira punição não será apenas morrer atingido por flechas. Será morrer sabendo que alguém se recusou a transformar sua vaidade em memória e que Westeros talvez se lembre dele não como o maior guerreiro que já existiu, mas como o homem que desejava desesperadamente virar uma canção e não conseguiu.
Séculos depois, Jaime Lannister encontraria Criston Cole nas páginas do Livro Branco da Guarda Real. Para ele, o Fazedor de Reis não estava apenas entre os melhores ou entre os piores, mas entre aqueles que haviam sido um pouco dos dois. Ser Criston não foi condenado ao esquecimento, mas não conseguiu ser o herói de nenhuma das narrativas.
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