Quando Ted Lasso estreou, em agosto de 2020, talvez nenhuma equipe de marketing pudesse ter planejado uma combinação tão perfeita entre uma série e seu momento histórico. O mundo estava havia meses dentro de casa, assustado, cansado, separado e tentando acreditar que aquilo tudo acabaria em algum momento. Então apareceu um treinador americano que não entendia praticamente nada de futebol, atravessava o oceano para assumir um time inglês e insistia que gentileza não era ingenuidade, vulnerabilidade não era fraqueza e acreditar nas pessoas podia ser uma forma de liderança.
A placa amarela com a palavra “Believe” virou quase um símbolo daquele período. Ted Lasso não foi apenas um sucesso da Apple TV. Tornou-se uma espécie de conforto coletivo durante a pandemia, algo particularmente curioso porque a série nunca havia sido concebida para carregar tamanho peso emocional. Estreou no momento certo e encontrou um público que talvez precisasse exatamente daquele personagem.
Mas reduzir Ted Lasso à positividade sempre foi simplificar demais o que havia de melhor na série.

Sua sensibilidade estava justamente em tratar temas profundos, muitas vezes dolorosos, sob uma capa de alegria e leveza. Falava de abandono, suicídio, ansiedade, ataques de pânico, divórcio, dependência emocional, masculinidade, envelhecimento, fracasso e medo de não ser amado sem deixar de ser engraçada. Em seus melhores momentos, conseguia fazer uma piada poucos segundos antes de tocar em alguma ferida bastante séria sem que uma coisa anulasse a outra.
Seis anos depois, Ted está voltando e a questão é saber para qual mundo.
A quarta temporada estreia em agosto depois de Jason Sudeikis ter passado anos resistindo à ideia de continuar uma história que, para ele, estava encerrada. Desde o início, imaginara Ted Lasso como um arco de três temporadas. Quando Ted deixou o AFC Richmond e voltou aos Estados Unidos no final da terceira, Sudeikis não via uma razão narrativa para desfazer aquela decisão apenas porque a série era um enorme sucesso.
Ele chegou a dizer que não faria Ted arrancar novamente a própria vida do lugar apenas para justificar “o caminhão de dinheiro”. É uma frase importante porque separa, pelo menos em princípio, essa volta daquelas continuações que existem simplesmente porque ninguém consegue abandonar uma franquia lucrativa.
Só que alguma coisa mudou.
Em 2024, Sudeikis reuniu novamente os roteiristas. Havia ideias de séries derivadas sobre Roy Kent e Keeley, além de outras possibilidades para personagens daquele universo, mas ele próprio começou a perceber que continuava anotando ideias sobre Ted. Aos poucos, a pergunta deixou de ser como continuar Ted Lasso sem Ted e passou a ser se a história dele realmente havia terminado.

Há algo particularmente interessante na explicação que Sudeikis deu agora para essa mudança. Interpretar um homem que tenta enxergar o melhor nas pessoas, contou ele, fazia bem a ele próprio. No fim, resumiu sua decisão dizendo que precisava de Ted tanto quanto outras pessoas talvez precisassem. É justamente aí que essa volta fica interessante, porque o mundo que receberá Ted Lasso em 2026 é bastante diferente daquele que o transformou em fenômeno em 2020.
A pandemia já começa a pertencer a um passado que se distancia rapidamente, embora suas marcas estejam longe de desaparecer. A divisão política aumentou, o debate público se tornou ainda mais agressivo e a ideia de que empatia pode superar antagonismo parece, em muitos momentos, mais difícil de defender hoje do que seis anos atrás. Ao mesmo tempo, várias das coisas que fizeram Ted Lasso parecer tão moderno deixaram de ser novidade.
Falar de saúde mental já não é, por si só, revolucionário. Terapia, ansiedade, ataques de pânico e masculinidade vulnerável tornaram-se temas recorrentes na televisão. O desafio agora é outro: saber se Ted Lasso ainda tem alguma coisa nova a dizer sobre eles. Porque o próprio Ted já havia começado a mudar.
O homem que sorria, fazia piadas, distribuía biscoitos e cuidava compulsivamente dos outros escondia uma incapacidade enorme de lidar com o próprio sofrimento. Aos poucos, vieram os ataques de pânico, o trauma do suicídio do pai, o fim do casamento e o medo de falhar justamente com a pessoa que mais importava para ele: o filho. Por isso, seu final nunca foi tão simples quanto “Ted voltou para casa”.
A série não mostrou Ted retomando romanticamente a vida com a ex-mulher como se restaurar a família tradicional fosse a recompensa por tudo o que havia aprendido. Ele voltou, antes de tudo, para Henry. Seu movimento final foi paterno, não romântico.
Isso faz diferença.

Ted passou três temporadas tentando estar emocionalmente disponível para todos enquanto vivia a milhares de quilômetros do filho. Depois que conhecemos sua história com o próprio pai, essa distância ganha outro peso. Sua decisão de voltar pode ser lida menos como um recuo e mais como a tentativa de não repetir, de outra maneira, uma ausência que marcou profundamente sua própria vida.
Essa recusa ao caminho mais óbvio apareceu várias vezes em Ted Lasso. Ted e Rebecca talvez sejam o melhor exemplo.
Desde o início existia química entre os dois, e durante três temporadas houve enorme pressão para que a série transformasse aquela intimidade em romance. Seria a solução mais convencional: o protagonista e a protagonista descobrem que sempre estiveram destinados um ao outro.
Ted Lasso nunca fez isso.
Rebecca e Ted se amaram profundamente sem precisarem se tornar um casal. Foram parceiros, amigos, confidentes e talvez duas das pessoas mais importantes na vida um do outro. Em uma televisão que durante décadas tratou a intimidade entre homens e mulheres como uma etapa anterior ao romance, manter aquela relação platônica foi uma decisão moderna e bastante bonita.
Rebecca, curiosamente, recebeu um final romântico, mas não com Ted.

Ela reencontrou o holandês desconhecido com quem havia passado algumas horas inesperadamente felizes em Amsterdã. Era quase um final de conto de fadas, mas só funcionava porque sua verdadeira trajetória amorosa nunca foi simplesmente encontrar um homem melhor do que Rupert. Foi deixar de permitir que Rupert continuasse organizando sua vida, mesmo através do ódio e da necessidade de vingança. Só depois disso havia espaço para outra coisa.
Keeley também escapou, ainda que de forma imperfeita, de um destino convencional. A série derrapou algumas vezes ao fazer com que grande parte de sua trajetória parecesse definida pelos relacionamentos com Jamie e Roy. Mas, quando finalmente poderia resolver o triângulo escolhendo um deles, Keeley não escolheu nenhum.
Escolheu a si mesma.
Ela não teve o final feliz romântico com Roy que muitos espectadores esperavam, embora isso não significasse necessariamente que os dois jamais pudessem se reencontrar. O importante era outra coisa: seu desfecho não precisava ser determinado por qual homem terminaria ao seu lado.
São escolhas assim que explicam por que Ted Lasso tinha mais profundidade do que sua fama de série “feel-good” às vezes sugere.
Nem sempre acertou. A terceira temporada se alongou demais, alguns personagens perderam foco e determinadas histórias pareciam existir porque ninguém queria abandonar aquele universo. Os episódios cresceram, a produção ficou complicada e a simplicidade que havia tornado a primeira temporada tão eficiente se diluiu em alguns momentos. Talvez por isso a quarta temporada precise provar duas coisas ao mesmo tempo: primeiro, que Ted Lasso ainda é capaz de ser Ted Lasso; e depois, que Ted Lasso ainda faz sentido em 2026.
A mudança de cenário pode ajudar. Ted agora assume um time feminino da segunda divisão, enquanto Rebecca, Roy, Keeley, Coach Beard e Higgins continuam ligados à história. Não é apenas a substituição de um grupo de jogadores por outro. É uma oportunidade de colocar sua filosofia diante de experiências, relações de poder e conflitos diferentes daqueles que moldaram as três primeiras temporadas.
Também há sinais de uma tentativa de correção de rota. Os novos episódios começaram a voltar a durações menores; Jason Sudeikis passou a dividir melhor as responsabilidades de produção e pessoas envolvidas com a série dizem reconhecer na nova temporada algo da magia da primeira.

Naturalmente, é cedo para saber se isso é verdade, mas talvez a decisão mais inteligente seja justamente não tentar recriar 2020.
Naquele ano, milhões de pessoas estavam literalmente isoladas umas das outras quando Ted ofereceu uma fantasia muito específica: a possibilidade de construir uma comunidade baseada em confiança, cuidado e afeto. O AFC Richmond começou como um lugar dividido entre jogadores, técnicos, dirigentes e torcedores e acabou se transformando numa família improvisada. Em 2026, a pergunta é mais difícil.
O que significa defender gentileza num mundo ainda mais agressivo? O que significa escolher curiosidade em vez de julgamento quando todos parecem obrigados a decidir imediatamente de que lado estão? Até que ponto a positividade continua sendo virtude quando o próprio Ted já nos ensinou que ela também pode servir para esconder dor?
Talvez seja justamente aí que exista uma razão real para trazê-lo de volta.
Jason Sudeikis, que durante anos foi o principal obstáculo para uma continuação, agora já pensa novamente em um arco de três temporadas. Isso significa que a quarta não está sendo tratada apenas como uma reunião nostálgica para descobrir onde estão os personagens que aprendemos a amar.
Pode ser o começo de uma segunda vida para Ted Lasso e essa segunda vida terá que justificar sua existência. Seu maior desafio nesta quarta temporada não é assumir um time feminino, aprender novos nomes ou voltar a descobrir como funciona o futebol. É provar que aquilo que parecia quase revolucionário durante a pandemia ainda pode ter força seis anos depois. E pode ser exatamente por isso que Ted Lasso resolveu voltar.
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