Em 1995, Barrados no Baile colocou Kelly Taylor diante de uma situação que parecia exigir uma resposta romântica definitiva. De um lado estava Brandon Walsh, oferecendo casamento. Do outro, Dylan McKay, propondo que ela abandonasse tudo para viajar com ele ao redor do mundo. Eram seus dois grandes amores naquele momento e representavam futuros completamente diferentes. A estrutura narrativa não deixava muita dúvida sobre o que se esperava dela: escolher um.
Kelly escolheu uma terceira possibilidade.
“I choose me.”
Vista mais de 30 anos depois, a frase perdeu parte da surpresa porque “escolher a si mesma” entrou definitivamente no vocabulário contemporâneo. Falamos de amor-próprio, limites, autocuidado, dependência emocional e relações tóxicas com uma naturalidade que não existia naquela televisão dos anos 1990. Mesmo assim, talvez a força daquela cena esteja menos na ideia de uma mulher recusando dois homens e mais na pergunta que ela introduz: é possível escolher verdadeiramente alguém quando ainda precisamos que essa pessoa nos diga quem somos?
Essa distinção é importante porque a psicanálise jamais propôs a autossuficiência como ideal de saúde. Freud não imaginava que o sujeito deveria aprender a não precisar de ninguém. Ao contrário: somos constituídos pelos vínculos, dependemos deles desde o nascimento e passamos a vida amando, desejando, identificando-nos, projetando, idealizando e transferindo para os outros partes de nossa própria história. O problema, portanto, não é precisar de relações, mas precisar que uma relação resolva quem somos.

Freud: nunca escolhemos apenas uma pessoa
Uma das contribuições mais desconfortáveis de Freud para pensarmos o amor está justamente na ideia de que nossas escolhas amorosas não começam no momento em que encontramos alguém. Muito antes disso, já existe uma história.
Nas primeiras relações da vida aprendemos, sem qualquer consciência disso, algo sobre proximidade, ausência, abandono, reconhecimento, segurança, desejo e frustração. Essas experiências não produzem uma fórmula simples — não significa que alguém abandonado necessariamente escolherá pessoas que o abandonem —, mas criam modelos afetivos que podem reaparecer nas relações futuras.
É nesse sentido que a compulsão à repetição se torna fundamental. Freud percebeu que o ser humano não procura apenas aquilo que lhe proporciona prazer. Podemos retornar, sob novas formas, a situações que conscientemente nos fizeram sofrer. Não porque desejamos deliberadamente o sofrimento, mas porque existe algo psiquicamente familiar naquela configuração. Mudamos os personagens e, algumas vezes, conservamos o enredo.
Uma pessoa pode se apaixonar repetidamente por parceiros indisponíveis, outra pode precisar conquistar alguém que inicialmente não a deseja, outra ainda pode transformar cada relacionamento em uma tentativa de salvar o parceiro. Conscientemente, cada paixão parece nova. Analiticamente, talvez exista uma pergunta anterior: por que essa posição me é tão familiar?
Kelly Taylor é particularmente interessante sob essa perspectiva porque durante anos sua identidade esteve profundamente ligada ao olhar do outro. Ela era a garota bonita, popular, sexualmente desejada e constantemente observada. Sua relação com Dylan começou ainda atravessada pela rivalidade com Brenda. Não se tratava apenas de amar um homem. Havia também a experiência de ser escolhida no lugar de outra mulher. Ser escolhida, nesse contexto, adquire uma dimensão narcísica.
Quando Freud escreve sobre o narcisismo e sobre a escolha de objeto, mostra que o amor não é uma operação inteiramente separada da imagem que temos de nós mesmos. Podemos investir no outro também aquilo que desejamos ser, aquilo que sentimos ter perdido, aquilo que idealizamos ou aquilo que esperamos que nos devolva determinada imagem de nós. O objeto amoroso nunca é apenas “o outro”: ele pode carregar partes importantes de nossas fantasias sobre nós mesmos.
Dylan e Brandon, portanto, não oferecem apenas dois relacionamentos a Kelly. Eles oferecem duas versões possíveis de Kelly. Dylan representa intensidade, risco, movimento e ruptura. Sua proposta é abandonar a vida conhecida e partir. Brandon representa estabilidade, reconhecimento, pertencimento e um futuro socialmente organizado. Sua proposta é o casamento.
As opções parecem opostas, mas possuem algo em comum: ambas chegam acompanhadas de uma identidade. Com um, Kelly se tornaria uma mulher determinada. Com o outro, outra. Talvez “I choose me” seja revolucionário justamente porque, por alguns instantes, ela se recusa a escolher uma identidade pronta através de um homem.

Lacan: quem sou eu quando você me deseja?
Lacan torna essa discussão ainda mais interessante porque desmonta a fantasia de que existe um “eu verdadeiro” completamente independente do olhar alheio esperando para ser descoberto.
Desde sua formulação do estádio do espelho, o eu aparece marcado pela identificação com uma imagem externa. Nossa experiência de identidade é construída em relação ao outro e, mais tarde, ao que Lacan chama de Outro: o campo da linguagem, dos códigos, das expectativas e dos desejos no qual tentamos localizar nosso próprio lugar. A formulação lacaniana do desejo como atravessado pelo desejo do Outro ajuda a entender por que ser desejado pode adquirir tamanha força psíquica.
Não perguntamos apenas “quem eu desejo?”. Perguntamos, muitas vezes sem perceber: o que existe em mim que faz você me desejar? Essa pergunta pode organizar uma vida inteira.
Ser escolhida pode funcionar como confirmação de valor. Se alguém me ama, talvez eu seja amável. Se alguém me deseja, talvez eu seja desejável. Se alguém me abandona, talvez alguma coisa em mim tenha deixado de ter valor. Quando duas pessoas nos disputam, a experiência narcísica pode ser ainda mais poderosa, porque somos colocados aparentemente no centro do desejo.
É exatamente nessa posição que Kelly se encontra. E é justamente ali que ela se retira.
Sua decisão não significa necessariamente que tenha finalmente descoberto um “eu autêntico” escondido sob Dylan e Brandon. A leitura lacaniana é mais incômoda do que isso. Talvez signifique apenas que, pela primeira vez, ela consegue suspender a urgência de responder àquilo que o desejo dos outros exige dela.
Eles perguntam: qual de nós você escolhe? Kelly introduz outra pergunta: quem está escolhendo?
Estar só não é o mesmo que não precisar de ninguém
É aqui que Donald Winnicott ajuda a evitar uma interpretação simplista da cena.
Em seu texto sobre a capacidade de estar só, Winnicott propõe algo aparentemente paradoxal: a capacidade saudável de ficar sozinho nasce de uma experiência suficientemente segura de relação. Não aprendemos a estar sós porque descobrimos que não precisamos de ninguém. Conseguimos estar sós porque alguma coisa do vínculo seguro pôde ser internalizada. Isso muda completamente o sentido de “escolher a si mesma”.
Existe uma enorme diferença entre dizer “não preciso de ninguém” e conseguir pensar: “eu continuo existindo mesmo quando você não me escolhe.” A primeira afirmação pode esconder uma defesa contra a dependência. A segunda revela uma capacidade maior de suportá-la sem ser destruída por ela.
Freud também nunca romantizou a solidão. Em sua concepção do funcionamento humano, o amor é uma das maiores possibilidades de satisfação e, ao mesmo tempo, uma das maiores fontes de vulnerabilidade. Não existe relação significativa sem risco porque amar significa investir emocionalmente em alguém que não controlamos, que pode mudar, nos frustrar, partir ou morrer.
A maturidade psíquica não estaria, portanto, em deixar de precisar do outro. Estaria talvez em conseguir perceber o que estamos exigindo que o outro faça por nós.
Queremos companhia ou confirmação permanente de valor? Desejamos aquela pessoa ou precisamos vencer alguém para sermos escolhidos? Permanecemos porque amamos ou porque a separação desperta uma sensação de abandono antiga demais? Estamos sofrendo pela perda daquela relação ou pela perda da versão de nós mesmos que existia quando éramos amados por aquela pessoa?
É aí que escolher a si mesmo deixa de ser slogan.

Depois do famoso “I choose me”, sua vida amorosa não termina. Ela volta a se relacionar com Brandon, os dois chegam a ficar noivos e chegam ao dia do casamento, mas decidem não se casar. Mais tarde, no encerramento da série original, Kelly se reaproxima y
Kelly, Keeley e a recusa de escolher. entre dois homens
Quase três décadas depois de Kelly Taylor, Ted Lasso construiu uma situação surpreendentemente semelhante com Keeley Jones.
Roy Kent e Jamie Tartt, dois homens que tiveram relações importantes com ela e que também desenvolveram uma amizade entre si, acabam transformando Keeley novamente no centro de uma disputa. Quando chegam até ela esperando, de alguma maneira, que escolha entre os dois, Keeley rejeita a própria premissa.
Ela não escolhe nenhum deles. O final exibido em 2023 deixa Keeley voltada para a própria vida e para seu trabalho, em vez de resolver seu arco escolhendo Roy ou Jamie.
O detalhe mais interessante é que a cena não precisa significar que ela jamais poderá amar um deles novamente. Assim como Kelly, Keeley não está necessariamente proclamando uma identidade permanentemente solteira. Está recusando a ser transformada em prêmio de uma competição masculina. Isso faz diferença porque “escolher a si mesma” não significa necessariamente escolher contra alguém. Pode significar recusar as condições em que a escolha está sendo apresentada.
Rachel Green e o direito de escolher de novo
Rachel Green oferece uma variação ainda mais interessante porque seu arco em Friends termina justamente desmontando a ideia de que uma escolha feita em nome de si mesma precisa ser irrevogável.
Rachel começa a série fugindo de um casamento. É talvez uma das imagens mais claras de uma mulher que abandona uma identidade pronta: esposa de Barry, filha sustentada pelos pais, mulher cuja vida parecia previamente organizada. Ao longo de dez temporadas, constrói uma carreira, aprende a viver financeiramente por conta própria, torna-se mãe e recebe finalmente uma oportunidade profissional em Paris.
No final, ela inicialmente escolhe partir. Depois, escolhe Ross. Rachel desce do avião e decide permanecer em Nova York. A série termina com os dois reconciliados, embora não mostre um novo casamento.

Essa decisão sempre dividiu o público. Há quem veja o gesto como a conclusão inevitável de uma história de amor construída durante dez anos e quem considere que Rachel abriu mão justamente da oportunidade profissional que coroava sua independência. A crítica ao final permanece viva porque a pergunta não é simplesmente “Ross ou Paris?”, mas se a volta para Ross representa uma escolha livre ou uma regressão narrativa à velha ideia de que a realização feminina precisa terminar no casal.
Mas talvez exista outra possibilidade de leitura.
Escolher a si mesma não significa necessariamente escolher sempre a carreira, a independência ou a solidão. Rachel poderia ter aprendido a existir sem Ross e, justamente por isso, mais tarde ser capaz de escolhê-lo novamente. A questão psicanalítica não está no resultado da escolha, mas na posição subjetiva a partir da qual ela é feita.
Uma mulher que permanece com alguém porque acredita que sem ele não existe faz uma escolha diferente daquela que poderia partir, sabe que sobreviveria à separação e ainda assim decide ficar.
Externamente, as duas podem terminar exatamente no mesmo lugar. Psiquicamente, não são escolhas iguais.

Kelly não precisou permanecer sozinha para validar sua decisão
O mesmo vale para Kelly.
Nada disso invalida a escolha que ela fez anos antes. Esse talvez seja um dos equívocos mais frequentes quando usamos a expressão “escolher a si mesmo”: imaginamos que, para provar que a decisão era verdadeira, a pessoa precisa nunca mais voltar àquela relação, nunca mais amar alguém ou permanecer para sempre independente.
Mas uma escolha pode ser verdadeira para determinado momento psíquico sem precisar se transformar numa sentença eterna porque o sujeito muda, as circunstâncias mudam e as relações também podem mudar.
O fato de Kelly posteriormente escolher um relacionamento não significa que deveria ter escolhido Brandon ou Dylan quando foi pressionada a fazê-lo. Talvez justamente a possibilidade de não escolher naquele momento tenha sido necessária para que qualquer escolha posterior pudesse ocorrer em outras condições.
Carrie Bradshaw e a contradição que nunca resolvemos
Poucas personagens mostram melhor nossa ambivalência diante dessa questão do que Carrie Bradshaw.
Sex and the City construiu durante seis temporadas uma mulher que escrevia sobre relacionamentos, questionava convenções românticas, valorizava profundamente as amizades femininas e tentava entender por que continuava presa emocionalmente a Mr. Big.
Quando a série terminou, em 2004, Carrie foi resgatada por Big em Paris e voltou para Nova York com ele. O final foi amado por milhões de espectadores, mas também criticado justamente porque uma série que havia desafiado tantas convenções terminou recorrendo à mais clássica delas: o grande amor finalmente escolhe a protagonista e confirma seu valor romântico. Anos depois, o próprio criador da série, Darren Star, disse considerar que esse desfecho contrariava parte da proposta original, que havia rompido com a ideia de que a felicidade feminina necessariamente deveria culminar no casamento ou no casal tradicional.
É curioso porque o episódio final ainda tenta afirmar que a relação mais importante é aquela que temos conosco mesmos, mas faz isso depois de entregar a Carrie justamente aquilo que ela perseguiu durante anos: ser finalmente escolhida por Big. Essa tensão ajudou a tornar o final simultaneamente amado e criticado.
Duas décadas depois, And Just Like That… fez quase o oposto.

Depois da morte de Big, da retomada e do fim de sua relação com Aidan e de outras possibilidades amorosas, a história de Carrie terminou em 2025 sem um parceiro. No episódio final, ela reformula a conclusão de seu próprio livro para abandonar a ideia de que uma mulher sozinha está necessariamente condenada à solidão. A escolha dos criadores foi explicitamente apresentada como uma Carrie capaz de terminar sua história “por conta própria”, sem que um relacionamento romântico funcionasse como ponto final.
E então aconteceu algo fascinante: muita gente rejeitou esse final também.
Alguns críticos enxergaram a conclusão como libertadora. Outros consideraram que a série não havia construído emocionalmente essa autonomia e que a solidão de Carrie parecia mais resignação do que conquista. A recepção foi profundamente dividida.
Talvez a contradição diga menos sobre Carrie e mais sobre nós. Quando Sex and the City terminou com um homem escolhendo Carrie, reclamamos que ela deveria ter escolhido a si mesma. Quando And Just Like That… terminou com Carrie escolhendo a si mesma, uma parte do público perguntou por que ela precisava terminar sozinha.
Afinal, o que queremos dessas mulheres?
Por que aceitamos “escolher a si mesma” apenas como uma etapa?
Talvez exista uma expectativa cultural silenciosa de que o “eu me escolho” seja permitido desde que funcione como intervalo.
A personagem pode ficar sozinha para crescer, descobrir quem é, construir uma carreira, viajar, superar um trauma e aprender amor-próprio. Celebramos essa etapa. Mas esperamos que, depois de completar o processo, ela encontre alguém. Como se o relacionamento fosse o diploma que comprova que o crescimento funcionou.
Essa lógica revela uma confusão importante entre autonomia e solidão.
A psicanálise não sugere que o desenvolvimento saudável termine na independência absoluta. Na verdade, nenhuma independência é absoluta. Continuamos dependentes de vínculos, reconhecimento, linguagem e afeto. O que pode mudar é a qualidade dessa dependência.
Melanie Klein ajuda a pensar esse amadurecimento através de sua concepção da posição depressiva, na qual o sujeito começa a suportar que o objeto amado seja simultaneamente fonte de prazer e frustração. A pessoa que amamos deixa de ser inteiramente boa quando satisfaz nossos desejos e inteiramente má quando nos decepciona. Conseguimos amar um objeto mais inteiro, complexo e separado de nós.
Talvez seja esse um dos maiores desafios do amor adulto: ao contrário de Jerry Maguire, aceitar que o outro não veio nos completar. Ele não existe para reparar nossa infância, confirmar permanentemente nosso valor, apagar nossas inseguranças ou garantir que jamais seremos abandonados. Ele é outra pessoa. E talvez só seja possível realmente escolhê-lo quando conseguirmos suportar isso.

Escolher-se não é escolher a solidão
Por isso, a frase “eu escolho a mim mesma” pode ser muito mais radical do que parece, desde que não seja transformada em propaganda da autossuficiência.
Escolher a si mesmo não significa declarar que ninguém mais é necessário. Pode significar recusar uma relação na qual precisamos desaparecer para permanecer, ou interromper uma repetição antes de chamá-la novamente de amor. Também pode significar suportar não ser escolhido sem transformar essa rejeição numa sentença sobre nosso próprio valor. Pode significar descobrir que desejamos alguém sem precisar possuí-lo. E pode significar, inclusive, escolher novamente uma pessoa que um dia recusamos, desde que a escolha seja feita de outro lugar.
Kelly pôde dizer “I choose me” e depois voltar a amar. Rachel pôde construir uma identidade independente de Ross e posteriormente escolhê-lo. Keeley pôde rejeitar a obrigação de decidir entre Roy e Jamie sem precisar jurar que jamais amaria novamente. Carrie pôde passar décadas querendo ser escolhida e terminar sua história descobrindo que estar sem um parceiro não precisava significar estar incompleta.
Talvez a questão nunca tenha sido escolher entre “eu” e “o outro”. Essa oposição é falsa. O verdadeiro desafio é conseguir construir um “nós” sem que um dos dois precise desaparecer dentro dele. É aí que escolher a si mesmo pode se tornar revolucionário: não quando significa desistir do amor, mas quando deixamos de usar o amor como única resposta para a pergunta sobre quem somos. Porque talvez uma relação suficientemente boa não seja aquela em que finalmente encontramos alguém que nos completa, mas aquela em que podemos amar alguém sem precisar nos abandonar para continuar sendo amados.
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