Bonito é conhecida no Brasil e no mundo por suas águas cristalinas, grutas, cachoeiras e por um modelo de turismo profundamente ligado à preservação ambiental. O que muita gente provavelmente não sabe é que a cidade de Mato Grosso do Sul, apesar de sua projeção internacional, tem pouco mais de 25 mil habitantes e não possui uma sala comercial de cinema.
Talvez por isso mesmo faça tanto sentido que seja aqui, a cerca de 260 quilômetros de Campo Grande, que o cinema sul-americano encontre um de seus espaços mais interessantes de exibição, debate e formação. Durante o Bonito CineSur, os auditórios do Centro de Convenções são adaptados e a cidade passa a viver, por alguns dias, uma experiência cinematográfica que não faz parte de sua rotina permanente.
As salas ficam cheias, as sessões são gratuitas, os convidados circulam entre o público e as conversas continuam muito depois dos créditos finais. Uma cidade sem cinema comercial transforma-se, durante nove dias, em um centro de encontro do audiovisual de todo o continente.

Há também uma lógica geográfica que muitas vezes escapa ao olhar de quem observa o Brasil sempre a partir do eixo Rio-São Paulo. Bonito está no sudoeste de Mato Grosso do Sul, na região da Serra da Bodoquena, em um estado que faz fronteira com o Paraguai e a Bolívia e que também está cultural e economicamente ligado à Argentina e aos demais países do Cone Sul.
A fronteira com o Paraguai está muito mais próxima de Bonito do que das principais capitais brasileiras. A Bolívia também integra esse entorno regional, enquanto cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília exigem deslocamentos bem maiores. Isso muda a perspectiva. Realizar aqui um festival sul-americano não significa levar o cinema do continente para um ponto isolado do mapa. Significa reconhecer que Bonito está inserido em uma região brasileira profundamente conectada aos países vizinhos.
Bonito não está afastada da América do Sul. Está dentro dela.
Uma cidade sem cinema que passa a respirar cinema
O diretor Aurélio Michiles resumiu com precisão uma das principais funções de um festival como o CineSur. Durante a apresentação de Honestino, o diretor destacou que esses encontros formam um público porque tiram o espectador da lógica cada vez mais solitária do celular, da televisão e das plataformas.
De repente, a pessoa sai de casa e encontra um lugar onde se fala, se discute e se respira cinema. Não apenas durante as sessões, mas nos corredores, nas oficinas, nos debates e nas conversas informais entre realizadores, estudantes e público.
Essa experiência ganha um significado ainda maior em uma cidade sem sala comercial. Para quem vive em Bonito, o festival representa a oportunidade de assistir na tela grande a produções que dificilmente chegariam ao circuito tradicional e de experimentar o ritual coletivo que o streaming jamais conseguiu substituir inteiramente: entrar em uma sala escura, acompanhar uma história ao lado de outras pessoas e, ao final, ouvir quem fez o filme falar sobre suas escolhas, suas dificuldades e aquilo que desejava comunicar.
É algo simples, mas cada vez mais raro.
O CineSur também não ocupa Bonito apenas com filmes destinados a especialistas ou cinéfilos. A programação inclui sessões para crianças e adolescentes, animações, pré-estreias, obras ambientais, filmes de Mato Grosso do Sul, documentários históricos e produções vindas de diferentes países do continente. Ao longo da semana, públicos que normalmente não frequentariam um festival podem encontrar uma porta de entrada muito concreta para o cinema.
Um festival que cresce sem perder o sentido
Em sua quarta edição, realizada entre 24 de julho e 1º de agosto, o Bonito CineSur reúne produções de dez dos 12 países da América do Sul, mais de 150 convidados nacionais e internacionais, cinco mostras competitivas e uma mostra infantojuvenil não competitiva.
O crescimento aparece também no número de filmes inscritos. Foram mais de 900 títulos em 2026, um avanço expressivo em relação à primeira edição, realizada em 2023. Mas os números, embora importantes, não explicam sozinhos aquilo que o festival está construindo.
A programação é inteiramente gratuita e não se limita à exibição de filmes. Há oficinas de documentário, roteiro, animação para crianças, desenvolvimento de projetos e mercado audiovisual, além de cine-debates, conversas sobre crítica, produção, circulação e aquisição de conteúdo.

Isso faz diferença porque um festival não deveria apenas trazer artistas conhecidos, promover uma cerimônia bonita e ir embora. Precisa deixar alguma coisa no lugar onde acontecem: formação, curiosidade, repertório, contatos e a percepção de que o cinema também pode ser uma possibilidade profissional para quem vive longe dos centros tradicionais de produção.
Entre as iniciativas desta edição está o Bonito CineSur Educa, com oficinas e encontros conduzidos por profissionais experientes. Luís Carlos Lacerda, o Bigode, ministra uma oficina de realização de documentários; Thiago Amendoeira trabalha o roteiro; PJ Maia aborda desenvolvimento de projetos e mercado; e Ara Martins conduz atividades de animação voltadas para crianças.
Não é apenas uma semana para assistir ao cinema. É também uma semana para entender como ele é pensado, escrito, filmado, produzido, negociado e levado ao público.
Paulina García e um continente que precisa se enxergar
A quarta edição começou homenageando Paulina García, uma das atrizes mais importantes do cinema chileno contemporâneo. Vencedora do Urso de Prata no Festival de Berlim por Gloria, ela recebeu o Troféu Pantanal por uma carreira construída entre cinema, teatro, direção e dramaturgia.
A escolha de Paulina vai além do prestígio de seu nome. Sua trajetória representa exatamente o tipo de cinema que o CineSur deseja aproximar do público brasileiro: obras profundamente ligadas às questões sociais, afetivas e políticas da América do Sul, mas que ainda circulam muito menos entre nossos países do que deveriam.
Na abertura, a atriz falou sobre a capacidade do cinema de preservar línguas, costumes, memórias e histórias. É uma ideia central para compreender o festival. Compartilhamos fronteiras, processos coloniais, ditaduras, desigualdades, migrações e conflitos ambientais, mas ainda conhecemos pouco as imagens que os países vizinhos produzem sobre si mesmos.
A programação tenta reduzir essa distância. O filme de abertura, Querido Trópico, de Ana Endara, é uma coprodução entre Panamá e Colômbia. Entre os títulos selecionados estão obras do Paraguai, da Argentina, da Bolívia, do Uruguai, do Chile, do Peru e de outros países, além das mostras dedicadas ao cinema ambiental e à produção sul-mato-grossense.
Um dos longas da competição é o paraguaio ¿Quién Mató a Narciso?, de Marcelo Martinessi, diretor de As Herdeiras. O peruano Naira, de Gabriela Quiroz, acompanha uma menina de nove anos que sonha transformar-se em condor para escapar da violência e da miséria. O uruguaio Agua Invadida, de Carolina Sosa, investiga a exploração dos recursos marinhos. Já a produção boliviana Uma Uñjirinaka — Cuidadorxs del Agua discute a relação entre comunidades e a preservação da água.
São filmes diferentes, mas que conversam entre si e com o próprio lugar onde estão sendo exibidos.

Cinema, memória e meio ambiente
Bonito também oferece ao CineSur um contexto que dificilmente seria reproduzido por um centro de convenções em uma grande capital. Aqui, a discussão ambiental não parece uma obrigação colocada na programação para acompanhar uma tendência. Ela está do lado de fora da sala.
Os rios transparentes, as formações calcárias, as cavernas e a biodiversidade fizeram da cidade um dos destinos de ecoturismo mais importantes do Brasil. Isso torna especialmente coerente a existência de uma mostra competitiva dedicada ao cinema ambiental e a debates sobre território, água, povos indígenas e modelos de desenvolvimento.
Entre os destaques da programação está Minha Terra Estrangeira, de João Moreira Salles e Louise Botkay, que acompanha o líder indígena Almir Suruí e sua filha Txai diante das ameaças à Amazônia e do contexto político brasileiro.
Há também uma sessão dedicada à memória audiovisual da própria região, com Aldeia de Nalike, registro realizado em 1936 por Claude e Dina Lévi-Strauss sobre o povo Kadiwéu.
O projeto Vídeo nas Aldeias, que completa 40 anos, recebe ainda uma conversa especial com Vincent Carelli e Daniela Siqueira. É outro lembrete de que falar de cinema sul-americano em Mato Grosso do Sul significa inevitavelmente falar das populações indígenas, das fronteiras e das disputas pela preservação de territórios e memórias.

Filmes que encontram o público
A passagem de Bruno Gagliasso pelo festival para apresentar Honestino, de Aurélio Michiles, mostrou também a importância de unir nomes conhecidos a histórias que ainda não chegaram ao grande público.
A presença do ator atrai atenção, mas o filme faz com que essa atenção se volte para Honestino Guimarães, líder estudantil preso e desaparecido durante a ditadura militar. Uma sala cheia para assistir a um documentário histórico confirma algo que os festivais compreendem muito bem: o público existe. Muitas vezes, o que falta é acesso.
A pré-estreia de Honestino foi apenas um dos destaques da edição. O festival também recebeu A História Oficial, clássico argentino de Luis Puenzo, primeiro filme latino-americano a vencer o Oscar de produção internacional; a pré-estreia de Colegas e o Herdeiro, de Marcelo Galvão; produções ambientais; títulos inéditos no circuito brasileiro e encontros com realizadores de diferentes gerações e nacionalidades.
Há cinema político, infantil, documental, ficcional e experimental. Há filmes de realizadores conhecidos e outros que ainda procuram seu primeiro grande encontro com o público.
Essa variedade é fundamental para que o CineSur não se transforme apenas em uma vitrine de prestígio. Ele precisa ser, antes de tudo, um espaço de descoberta.

O encontro que o cinema brasileiro ainda precisa fazer
O Bonito CineSur não resolve sozinho a dificuldade de circulação do cinema latino-americano. Muitos dos filmes exibidos aqui continuarão enfrentando barreiras para chegar às salas comerciais, às plataformas e ao público de outros países. O Brasil ainda assiste pouco ao cinema de seus vizinhos e, com frequência, também conhece muito pouco a produção feita fora do eixo mais visível de sua própria indústria.
Mas festivais existem justamente para abrir essas brechas.
Em Bonito, uma cidade de pouco mais de 25 mil habitantes, sem sala comercial de cinema, transforma-se durante alguns dias em uma cidade inteiramente ocupada pelo audiovisual. Crianças assistem a animações, estudantes aprendem como desenvolver projetos, realizadores encontram possíveis parceiros, filmes ambientais dialogam com a paisagem e produções sul-americanas atravessam fronteiras que muitas vezes parecem mais resistentes na cultura do que na geografia.
Talvez seja essa a maior força do CineSur. O festival não tenta reproduzir em Mato Grosso do Sul uma versão menor dos grandes eventos realizados nas capitais. Está construindo uma identidade própria a partir do lugar onde nasceu.
Bonito é distante apenas para quem acredita que o Brasil termina no eixo Rio-São Paulo. Para um festival que deseja aproximar a América do Sul de si mesma, está exatamente onde deveria estar.
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