No último episódio da terceira temporada de Ted Lasso, entre tantas despedidas que pareciam definitivas, uma cena relativamente pequena deixou uma porta aberta. Keeley apresenta a Rebecca uma proposta para que o AFC Richmond invista em um time feminino. Rebecca olha o projeto, sorri, e a ideia fica ali, como uma dessas possibilidades de futuro que uma série encerrada não precisaria necessariamente desenvolver. Três anos depois, sabemos que aquele momento era muito mais importante do que parecia.
Ted Lasso volta para uma quarta temporada e, desta vez, Ted assumirá justamente um time feminino da segunda divisão. Não é apenas uma maneira prática de renovar o elenco sem apagar o final dado aos jogadores do Richmond. A escolha coloca uma das séries mais populares da televisão recente dentro de uma transformação cultural que o futebol ainda está tentando compreender.

O futebol feminino nunca teve tanta visibilidade, público e investimento, mas isso está longe de significar que tenha vencido o preconceito. Na Inglaterra, a diferença em relação ao Brasil é enorme. As Lionesses venceram duas Eurocopas consecutivas, em 2022 e 2025, lotaram Wembley e ajudaram a transformar jogadoras em celebridades nacionais. A liga feminina se profissionalizou, ganhou audiência e atraiu novos patrocinadores. Até a segunda divisão, justamente o universo que Ted Lasso escolheu agora, vem registrando crescimento de público.
Esse crescimento, porém, ainda convive com desigualdades muito concretas. Denúncias de sexismo e misoginia relacionadas ao futebol continuam aumentando no país, sobretudo nas redes sociais. Mulheres ganharam muito mais espaço como apresentadoras, comentaristas e analistas das grandes transmissões britânicas, mas a narração principal de partidas masculinas ainda é um território muito mais resistente. Há mais mulheres dentro do futebol, portanto, mas isso não significa que sua presença tenha sido plenamente aceita.
O Brasil conhece muito bem essa contradição. Temos algumas das maiores jogadoras da história, uma seleção feminina respeitada internacionalmente e receberemos, em 2027, a primeira Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul. Ainda assim, basta uma mulher narrar uma partida masculina importante para ressurgirem comentários questionando sua voz, seu conhecimento, sua presença e, muitas vezes, seu direito de estar ali.
É o velho argumento disfarçado de preferência pessoal. Não gostam “daquela voz”, “daquele jeito” ou “daquela narradora”, como se a resistência estivesse sempre ligada exclusivamente a uma profissional específica. Curiosamente, o mesmo rigor raramente foi aplicado durante décadas aos inúmeros homens medianos que narraram, comentaram, treinaram e administraram futebol sem jamais precisarem justificar coletivamente a presença de seu gênero.
É justamente por isso que a escolha de Ted Lasso tem um potencial muito maior do que simplesmente trocar um time masculino por um feminino. A série sempre foi especialmente boa quando tratava temas difíceis sem anunciar que estava tratando temas difíceis, confiando mais na experiência dos personagens do que em discursos explicativos.
Ted Lasso nunca precisou parar uma cena para explicar o que era um ataque de pânico. Mostrou Ted tentando respirar enquanto o mundo ao redor continuava funcionando. Também não precisou fazer longas exposições sobre masculinidade para falar de Jamie, Roy ou Nate. Colocou diante de nós homens incapazes de dizer que estavam com medo, com vergonha ou que precisavam de ajuda e deixou que suas histórias revelassem tudo isso.

A saúde mental entrou na série da mesma maneira. Quando estreou, em 2020, Ted parecia apenas o homem absurdamente positivo que acreditava que a gentileza poderia transformar um ambiente hostil. Aos poucos, descobrimos que aquela positividade também escondia sofrimento, abandono, trauma, ataques de pânico e uma enorme dificuldade de cuidar de si próprio enquanto cuidava compulsivamente de todos os outros.
Era essa capacidade de colocar profundidade sob uma capa de alegria e leveza que fazia Ted Lasso funcionar tão bem. O futebol feminino oferece agora um território semelhante, porque permite que a série entre numa discussão estrutural sem necessariamente transformar cada episódio numa palestra sobre desigualdade salarial, misoginia, falta de investimento ou cobertura insuficiente.
Na verdade, seria melhor que não fizesse isso. Basta mostrar essas mulheres vivendo dentro de uma estrutura que ainda não oferece a elas as mesmas condições dadas aos homens e deixar que as diferenças apareçam naturalmente. Os melhores horários de treino, o acesso aos estádios, os patrocínios, a atenção da imprensa, a maternidade, a sexualidade, o envelhecimento, o assédio e a cobrança sobre o corpo são questões que podem surgir pela experiência das personagens, sem que alguém precise parar diante da câmera para explicar o problema.
Há também uma questão particularmente interessante no fato de que, mesmo dentro do futebol feminino, muitos dos cargos de poder continuam ocupados por homens. Técnicos, dirigentes e executivos ainda são majoritariamente masculinos, o que cria uma contradição perfeita para a própria série explorar: mulheres conquistam cada vez mais espaço dentro de campo enquanto as estruturas que decidem seus destinos continuam muitas vezes comandadas por eles.
Isso cria um desafio muito interessante para o próprio Ted. Ele chega ao futebol feminino carregando tudo o que aprendeu nas três primeiras temporadas. Sabe ouvir melhor, entende suas próprias fragilidades e já não é apenas aquele americano perdido que perguntava o que era impedimento. Ainda assim, continua sendo um homem entrando num espaço cuja experiência ele não conhece completamente.
É justamente aí que existe um risco narrativo importante. A série não pode transformar Ted no homem iluminado que chega para salvar mulheres, porque isso seria contraditório com tudo o que construiu até aqui. O mais interessante seria fazer exatamente o contrário e permitir que Ted descubra novamente o que significa não saber.

Na primeira temporada, ele entrou no futebol inglês sem entender o esporte e percebeu que sua ignorância também podia ser uma força porque o obrigava a observar as pessoas de outra maneira. Agora, pode descobrir que compreender seres humanos não significa compreender automaticamente a experiência de ser mulher dentro de uma estrutura construída historicamente por homens.
Talvez algumas de suas fórmulas nem funcionem da mesma maneira. Dizer a alguém para acreditar em si mesma é bonito, mas acreditar em si mesma não resolve falta de investimento, não muda salários, não garante estádio, não impede assédio e não transforma estruturas que continuam oferecendo oportunidades diferentes para homens e mulheres.
Esse pode ser, inclusive, um amadurecimento fascinante para o próprio conceito de “Believe”. Nas primeiras temporadas, Ted acreditava profundamente na capacidade de transformar indivíduos e relações a partir de confiança, empatia e escuta. Agora, a série pode levá-lo a perceber algo mais complexo: nem todo problema pode ser resolvido individualmente, porque alguns são estruturais.
Há ainda algo especialmente bonito no fato de essa nova história ter começado com Keeley e Rebecca. Nenhuma das duas entrou em Ted Lasso sendo vista pelo universo do futebol como alguém que naturalmente pertencia àquele ambiente.
Rebecca recebeu o AFC Richmond depois do divórcio e passou boa parte da primeira temporada sendo tratada como a mulher ressentida que havia herdado o brinquedo do ex-marido. Rupert era, aos olhos de muitos, o verdadeiro dono, o verdadeiro torcedor e o homem que realmente entendia futebol. Ao longo de três temporadas, ela deixou de apenas ocupar aquele espaço e passou a pertencer a ele, até chegar ao ponto de poder decidir quem mais teria a oportunidade de pertencer a ele.
Keeley fez um percurso igualmente simbólico. Foi apresentada como namorada de um jogador e, depois, se envolveu com outro. A série chegou a derrapar algumas vezes ao permitir que grande parte de sua identidade parecesse girar em torno das relações com Jamie e Roy, mas terminou sua trajetória com ela assumindo uma posição profissional própria e levando justamente a Rebecca a proposta de criação do time feminino.
Há algo muito significativo em duas mulheres que passaram boa parte da série tentando existir dentro de ambientes dominados por homens terminarem criando espaço para outras mulheres. Não parece coincidência que a continuação da história tenha nascido exatamente daí.

Isso também não significa, obviamente, que Ted Lasso vá transformar o futebol feminino sozinho. Uma série não corrige décadas de desigualdade, e seria ingênuo atribuir à cultura pop um poder que instituições, federações, clubes, patrocinadores e emissoras precisam exercer concretamente. Mas a cultura tem uma capacidade enorme de normalizar aquilo que ainda é tratado como exceção.
Talvez esse seja o ponto mais importante de todos. Muita gente que jamais escolheria assistir a uma série anunciada como “uma história sobre futebol feminino” assistirá porque é Ted Lasso. Não precisará ser convencida por uma campanha institucional de que mulheres merecem espaço no esporte, porque durante dez semanas simplesmente acompanhará um time feminino da mesma maneira que acompanhou Jamie, Roy, Sam, Dani Rojas e os outros jogadores do Richmond.
Essas jogadoras terão histórias, conflitos, defeitos, ambições e relações próprias. O público terá favoritos, vai torcer, vai se irritar quando perderem, vai discutir escalação e vai querer que ganhem. É assim que certas mudanças culturais acontecem, quando aquilo que antes precisava ser explicado deixa de precisar de explicação porque simplesmente passa a existir no centro da narrativa.
O futebol feminino mundial já provou que existe público. Estádios lotados em Copas e Eurocopas demonstraram isso repetidamente. O desafio agora é fazer com que esse interesse sobreviva ao grande evento, ao jogo decisivo e à seleção nacional, porque igualdade não se mede apenas quando Wembley está cheio numa final. Mede-se também numa partida comum da segunda divisão, quando não há troféu em jogo nem uma onda nacional de patriotismo empurrando a audiência.

É justamente por isso que a nova escolha de Ted Lasso pode ser tão interessante. Em 2020, a série encontrou uma maneira inesperada de falar sobre saúde mental, ansiedade e masculinidade com milhões de pessoas que tinham ligado a televisão apenas para assistir a uma comédia sobre um treinador americano perdido no futebol inglês.
Em 2026, pode fazer algo semelhante com mulheres no esporte, mas não ensinando que elas também sabem jogar futebol, porque já deveríamos ter passado dessa discussão há muito tempo. O desafio agora é mostrar por que, mesmo depois de provarem tantas vezes que pertencem ao jogo, elas ainda precisam lutar tanto para receber as mesmas oportunidades, o mesmo investimento e a mesma legitimidade.
Talvez o novo desafio de Ted, portanto, não seja ensinar mulheres a acreditar em si mesmas. Pode ser descobrir por que elas ainda precisam lutar tanto para que o resto do mundo finalmente acredite nelas.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
