Yoko Morishita, a bailarina que se recusa a deixar o palco

Quem conhece o balé sabe que ele pode ser uma arte cruel. Primeiro, exige que uma menina decida cedo demais o que fará da própria vida. Depois, cobra dela o corpo, o tempo, a disciplina, as unhas, os pés, a juventude e, por fim, quase sempre sugere que desapareça antes que o público perceba que ela envelheceu. Há exceções, como Alessandra Ferri, que voltou a dançar depois dos 50 e está na ativa aos 63, ou Maya Plisetskaya, que aposentou as sapatilhas aos 65, até mesmo Alicia Alonso, que deixou os palcos aos 75.

No meio dessas lendas, a história de Yoko Morishita é extraordinária porque, aos 77 anos, ela ainda dança. Não apenas participa de homenagens, dá aulas ou aparece em pequenos papéis criados para preservar uma grande estrela no palco. Morishita continua interpretando personagens do repertório clássico, ensaiando diariamente e se preparando para a próxima apresentação.

Como ex-bailarina, é impossível ler isso sem uma mistura de espanto, admiração e, confesso, alguma incredulidade. Sabemos o que um corpo precisa suportar para atravessar um espetáculo completo. Sabemos o que significam as pontas, os saltos, os giros, o equilíbrio e, sobretudo, a repetição diária necessária para que tudo aquilo pareça fácil.

Aos 30 anos, o balé já começa a tratar muitas mulheres como veteranas. Aos 40, espera que tenham aprendido a se despedir. Aos 77, Yoko Morishita ainda está ensaiando.

Não é apenas longevidade. É quase uma afronta, daquelas que a gente quer mais e mais.

Uma menina frágil que encontrou o balé por acaso

Yoko Morishita nasceu em Hiroshima, em 7 de dezembro de 1948, apenas três anos depois da bomba atômica. Cresceu, portanto, em uma cidade que ainda tentava reconstruir não apenas suas ruas, mas sua identidade e sua esperança.

Ela era uma criança frágil. Um médico recomendou que fizesse alguma atividade física e seus pais encontraram aulas de balé em um jardim de infância próximo de casa. Morishita tinha apenas três anos. Foi assim, quase por acaso, que começou uma das carreiras mais longas da história da dança.

Aos seis anos, apresentou-se pela primeira vez em um pequeno palco montado diante da tela de um cinema de Hiroshima. Aos 12, já tinha certeza suficiente para deixar a família e mudar-se para Tóquio em busca de uma formação profissional.

É uma idade em que muitas crianças ainda precisam ser lembradas de fazer a lição de casa. Morishita já havia escolhido o balé. Estudou com importantes mestres da dança japonesa e, em 1971, entrou para o Matsuyama Ballet, companhia que se tornaria sua casa artística e à qual continuaria ligada por toda a vida.

A medalha que mudou tudo

O grande momento de virada aconteceu em 1974, quando Yoko Morishita participou do Concurso Internacional de Balé de Varna, na Bulgária.

Varna não era apenas mais uma competição. Era um dos grandes centros de legitimação do balé mundial, ainda fortemente dominado pelas escolas europeias e soviéticas. Morishita conquistou a medalha de ouro e se tornou a primeira bailarina japonesa a vencer o concurso.

Hoje, quando encontramos bailarinos japoneses em posições de destaque nas maiores companhias do mundo, talvez seja difícil compreender o tamanho dessa conquista. Naquele momento, o Japão ainda era visto principalmente como um país que admirava, consumia e reproduzia o balé ocidental. Morishita obrigou o mundo a enxergar que o país também era capaz de formar uma estrela internacional. Ela não venceu apenas uma competição. Rompeu uma barreira.

A partir dali, sua carreira ganhou dimensão internacional, mas há algo especialmente importante em sua escolha: Morishita não abandonou o Japão para se tornar uma estrela no exterior. Recebeu convites, dançou nos maiores palcos e ao lado dos maiores nomes, mas manteve sua base no Matsuyama Ballet.

Ela não se tornou uma bailarina japonesa absorvida por uma companhia europeia. Tornou-se uma bailarina japonesa que levou sua companhia e seu país para o centro do balé mundial.

A parceira de Rudolf Nureyev

Seu parceiro mais famoso foi Rudolf Nureyev. E essa informação, por si só, já seria suficiente para dimensionar sua importância. Nureyev não escolhia parceiras apenas pela técnica. Precisava de bailarinas capazes de responder à intensidade de sua presença e sustentar o palco ao lado de alguém que parecia ocupar todo o espaço antes mesmo de começar a dançar.

Morishita dançou com ele pela primeira vez em 1976. No ano seguinte, os dois apresentaram o grand pas de deux de Dom Quixote durante as comemorações do Jubileu de Prata da rainha Elizabeth II, em Londres. Os dois dividiram o palco em aproximadamente 200 apresentações.

Duzentas vezes.

Não foi, portanto, um encontro ocasional entre uma estrela europeia e uma jovem bailarina japonesa convidada para um gala. Foi uma verdadeira parceria artística, construída ao longo de anos.

Nureyev voltou a dançar com ela em produções completas de O Lago dos Cisnes e Giselle, inclusive durante as comemorações dos 35 anos do Matsuyama Ballet, em 1983. Morishita também dividiu o palco com Margot Fonteyn, sua grande referência. Ela havia assistido a Fonteyn pela primeira vez ainda jovem e descrevia a sensação de que o palco inteiro se iluminava quando a bailarina entrava em cena. Anos depois, estava dançando ao lado dela.

Há algo muito bonito nesse tipo de encontro. A jovem que assiste fascinada à grande estrela e, algum tempo depois, passa a ocupar o mesmo palco. No balé, onde a hierarquia parece tão rígida e os ídolos frequentemente tão inalcançáveis, esse tipo de história sempre me emociona.

A musa de Maurice Béjart

Outro encontro fundamental foi com Maurice Béjart.

O coreógrafo criou especialmente para ela o balé Light, estreado em 1981, em Bruxelas e Paris. Morishita dançou ao lado de Georges Don, a grande estrela do Ballet du XXe Siècle e talvez o bailarino mais profundamente associado ao universo de Béjart.

Ser escolhida por Béjart significava muito mais do que receber um novo papel. Ele não estava interessado apenas em bailarinos tecnicamente perfeitos. Procurava artistas capazes de carregar ideias, símbolos, emoções e contradições no corpo.

Morishita, conhecida principalmente pelas grandes heroínas clássicas, mostrou que também podia existir dentro daquele universo mais moderno, teatral e filosófico.

Essa talvez seja uma das razões pelas quais sua carreira não pode ser resumida à resistência física. Ela não permaneceu porque repetiu mecanicamente os mesmos passos durante décadas. Permaneceu porque construiu uma presença cênica.

Odette, Odile, Giselle, Kitri e Julieta

Yoko Morishita dançou praticamente todas as grandes heroínas do repertório. Foi Giselle, Kitri em Dom Quixote, Swanilda em Coppélia, Julieta em Romeu e Julieta, Clara em O Quebra-Nozes e, naturalmente, Odette e Odile em O Lago dos Cisnes.

Talvez o duplo papel de Odette e Odile seja o que melhor resume sua força como intérprete. O Cisne Branco exige lirismo, vulnerabilidade e a impressão de que a bailarina pode desaparecer diante de nossos olhos. O Cisne Negro exige sedução, precisão, brilho e autoridade.

São duas mulheres no mesmo corpo, e não basta trocar o figurino para distingui-las.

Morishita mede cerca de 1,50 metro, o que, dentro dos padrões tradicionais do balé clássico, poderia ter sido visto como uma limitação. Mas nunca dependeu da altura para parecer grande no palco. Sua presença vinha da intensidade, da musicalidade e da capacidade de transformar movimento em narrativa.

Ela também manteve uma relação especialmente longa com Julieta. A montagem de Romeu e Julieta criada por Tetsutaro Shimizu estreou em 1980, e Morishita continuou interpretando a personagem por mais de três décadas.

É preciso parar e pensar no que isso significa. Julieta é quase sempre associada à juventude absoluta, à descoberta do amor e à impulsividade de uma adolescente. Morishita não abandonou a personagem quando deixou de ter a idade esperada para dançá-la. Levou para Julieta uma memória emocional que apenas o tempo poderia oferecer.

O marido e parceiro de uma vida

Yoko Morishita é casada com Tetsutaro Shimizu, bailarino, coreógrafo e diretor do Matsuyama Ballet.

Os dois participaram juntos do Concurso de Varna, em 1974, e construíram uma parceria artística que atravessou mais de cinco décadas. Shimizu criou e dirigiu produções fundamentais para a carreira da mulher, enquanto ela se tornou o grande rosto internacional da companhia.

É tentador transformar uma relação tão longa em uma história romântica perfeita, sobretudo quando falamos de duas pessoas unidas pelo palco. Mas o mais interessante talvez esteja na dimensão concreta dessa parceria: os dois construíram uma companhia, um repertório e uma tradição.

O Matsuyama Ballet se tornou a grande obra compartilhada pelo casal.

Yoko Morishita ainda dança?

Sim. Aos 77 anos, ela ainda dança. Em 2026, voltou a interpretar Odette e Odile em O Lago dos Cisnes, apresentou-se em Coppélia e permanece ligada a O Quebra-Nozes, no qual dança Clara há aproximadamente 45 anos.

Sua rotina continua impressionante: cerca de seis horas de ensaio por dia, seis dias por semana. Mesmo no dia de folga, mantém os alongamentos. Morishita explica sua longevidade de uma maneira quase simples demais. Diz que nunca decidiu continuar dançando por 70 anos. Apenas terminava um dia e se preparava para o seguinte.

Talvez seja exatamente assim que uma carreira impossível acontece. Não como uma grande declaração heroica, mas como uma sequência de pequenas decisões: fazer a aula, repetir o passo, corrigir o braço, tentar novamente e voltar no dia seguinte.

O corpo certamente mudou. Seria absurdo fingir que uma bailarina dança aos 77 anos como dançava aos 27. Mas o balé também não é apenas juventude, embora tenha insistido durante séculos em nos convencer disso.

Existe algo que somente o tempo oferece: intenção, compreensão, economia, memória e a capacidade de saber exatamente por que um gesto precisa ser feito.

A juventude pode oferecer altura ao salto. A maturidade pode oferecer sentido à queda.

Yoko Morishita no Brasil

Yoko Morishita também fez parte de um período lendário da dança no Brasil.

Dalal Achcar trouxe ao país uma temporada que reuniu alguns dos maiores nomes do balé mundial, entre eles Natalia Makarova, Fernando Bujones e a própria Morishita. Para quem acompanhou aquela época, não se tratava apenas de assistir a uma sucessão de estrelas internacionais. Era a oportunidade de ver, no Brasil, artistas que já faziam parte da história da dança.

Morishita voltaria ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro e, em 1982, participaria da estreia da montagem de Dom Quixote coreografada por Dalal Achcar. Ela dançou Kitri e, novamente, tirou o fôlego da plateia.

Kitri é um papel que exige velocidade, precisão, brilho, musicalidade e uma personalidade quase explosiva. Não basta executar corretamente os passos. A bailarina precisa entrar em cena e convencer imediatamente de que todos os olhos devem estar voltados para ela.

Morishita era pequena fisicamente, mas nunca pareceu pequena no palco. A produção de 1982 contou ainda com nomes como Fernando Bujones e Jean-Yves Lormeau, em diferentes récitas, e se transformou em um dos capítulos mais marcantes do repertório do Ballet do Theatro Municipal. Sua ligação com a dança brasileira, porém, não terminaria ali.

A colaboração com a Cisne Negro

Na segunda metade da década de 1980, Yoko Morishita estabeleceu uma importante colaboração internacional com a companhia paulista Cisne Negro Cia. de Dança.

Em agosto de 1987, Morishita e Fernando Bujones participaram de uma temporada no Royal Festival Hall, em Londres, dividindo a programação com a companhia brasileira. No ano seguinte, entre março e abril de 1988, os dois abriram outra temporada de destaque no New York City Center, novamente ao lado da Cisne Negro. Era uma associação tão improvável quanto interessante.

De um lado, Morishita e Bujones representavam o mais alto nível do balé clássico internacional. Do outro, a Cisne Negro levava ao exterior a força de uma companhia brasileira que transitava entre a formação clássica e uma linguagem mais contemporânea.

O encontro colocou artistas brasileiros ao lado de dois dos maiores bailarinos daquele momento e criou um intercâmbio raro entre universos que pareciam distantes, mas tinham muito a oferecer um ao outro.

Essa colaboração também mostra que a relação de Morishita com o Brasil não foi apenas uma passagem breve pelo Municipal. Ela continuou ligada à nossa dança fora do país, participando de temporadas que ajudaram a projetar internacionalmente uma das companhias mais importantes de São Paulo.

Entre a temporada organizada por Dalal Achcar, sua Kitri inesquecível no Theatro Municipal e as apresentações internacionais com a Cisne Negro, Yoko Morishita construiu uma relação com o balé brasileiro que merece ser recuperada.

O que Yoko Morishita representa para o Japão e para o mundo

Em 1982, Morishita tornou-se a primeira bailarina japonesa a se apresentar na Ópera de Paris. Em 1985, foi a primeira japonesa a receber o Laurence Olivier Award. Participou de grandes galas, integrou júris de concursos como o Prix de Lausanne e assumiu a presidência do Matsuyama Ballet.

Mas sua importância não cabe em uma lista de prêmios.

Yoko Morishita ajudou a mudar o lugar do Japão no balé. Antes dela, uma bailarina japonesa podia ser vista como uma excelente aluna de uma arte europeia. Depois dela, tornou-se possível enxergar o Japão como um dos grandes centros formadores da dança mundial.

Sua trajetória lembra, guardadas as diferenças, a de Alicia Alonso em Cuba. As duas foram grandes intérpretes, mas se tornaram algo maior: símbolos nacionais de uma arte importada que seus países transformaram em tradição própria.

E existe ainda a questão da idade.

O balé sempre amou fantasmas. Giselle morre jovem. Odette permanece presa em um encantamento. Julieta não chega à vida adulta. As grandes heroínas clássicas são preservadas para sempre em uma juventude impossível, enquanto as mulheres que as interpretam precisam abandonar o palco assim que o tempo começa a aparecer. Yoko Morishita recusou esse destino.

Aos 77 anos, continua dançando personagens que o balé ensinou que pertenciam às jovens. Não porque o tempo tenha parado para ela, mas porque decidiu que ele não seria o único responsável por escolher quando sua arte terminaria. Talvez essa seja sua maior revolução. Não ter derrotado a idade, porque ninguém derrota. Mas ter permanecido no palco sem pedir desculpas por envelhecer.


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