É impossível anunciar uma nova versão de Carrie sem que a primeira reação seja perguntar se precisamos realmente voltar àquela escola, àquela mãe, àquele baile e, sobretudo, àquele balde de sangue. O romance de estreia de Stephen King já ganhou uma adaptação praticamente definitiva nas mãos de Brian De Palma, em 1976, com Sissy Spacek e Piper Laurie transformando Carrie e Margaret White em duas das personagens mais reconhecíveis da história do terror. Exatamente 50 anos depois, Mike Flanagan decidiu retornar a uma tragédia cujo desfecho todos conhecemos, mas que nunca parece completamente encerrada.
A coincidência é significativa. O filme de De Palma estreou nos Estados Unidos em novembro de 1976 e chega ao cinquentenário preservado como uma das grandes obras do terror norte-americano. Sissy Spacek e Piper Laurie foram indicadas ao Oscar, uma raridade para o gênero, e algumas de suas imagens — o vestido branco coberto de sangue, o salão em chamas e a mão saindo inesperadamente da terra — ultrapassaram o próprio filme para se tornar parte da cultura popular. Em 2022, o longa foi incluído no National Film Registry dos Estados Unidos por sua importância cultural, histórica e estética.

Mike Flanagan sabe que não pode apagar essa memória. Mais do que saber, decidiu transformar a pergunta “por que fazer Carrie outra vez?” no ponto de partida da nova série do Prime Video. Durante a apresentação da produção na San Diego Comic-Con, ele contou que essa foi também a primeira pergunta de Stephen King quando ouviu sua proposta. A resposta não foi tentar repetir Brian De Palma com mais sangue, efeitos melhores ou celulares nas mãos dos adolescentes, mas desmontar a história até encontrar suas peças essenciais e construir alguma coisa nova a partir delas. A abordagem convenceu King, que participa como produtor executivo.
Com estreia marcada para 7 de outubro de 2026, a nova Carrie terá oito episódios e será a primeira adaptação da história construída como série. Flanagan atua como criador, roteirista, showrunner e diretor, enquanto Summer H. Howell interpreta Carrie White e Samantha Sloyan, presença conhecida no universo do cineasta, assume o papel de Margaret, a mãe religiosa, controladora e aterrorizante que acredita proteger a filha enquanto destrói qualquer possibilidade de ela compreender o próprio corpo, seus desejos e o mundo ao redor.
Como Carrie nasceu
Antes de chegar ao cinema, Carrie nasceu de uma mistura bastante mais íntima e dolorosa. Publicado em 5 de abril de 1974, Carrie foi o primeiro romance lançado por Stephen King, embora ele já tivesse escrito outros livros que ainda não haviam encontrado editora. A história começou como um conto sobre uma adolescente que menstruava pela primeira vez no vestiário da escola e descobria possuir poderes telecinéticos. King havia lido sobre telecinese e imaginou o que poderia acontecer quando esse poder surgisse no momento mais constrangedor da vida de uma menina.
Ele escreveu poucas páginas e jogou tudo no lixo. Foi sua mulher, Tabitha King, quem recuperou o manuscrito e o convenceu a continuar, oferecendo também a perspectiva feminina que ele próprio reconhecia não possuir. À medida que a história avançava, duas garotas que King conhecera passaram a formar Carrie White. Uma delas sofria bullying por causa da pobreza da família e das roupas que usava; a outra havia crescido em uma casa profundamente religiosa. As duas já estavam mortas quando o escritor contou como suas lembranças acabaram se fundindo na personagem.
Carrie não nasceu, portanto, apenas da imaginação de um autor interessado em poderes sobrenaturais, mas da memória de meninas reais que haviam sido maltratadas, isoladas e reduzidas a tudo aquilo que as distinguia das demais. O elemento extraordinário da telecinese surgiu ao lado de uma violência muito comum: a humilhação de quem não possui dinheiro, repertório, roupas, amigos ou uma família capaz de prepará-la para o mundo.

A construção do romance também ajuda a entender por que uma série pode encontrar espaço onde os filmes precisaram condensar. King não contou a história apenas de forma linear. Carrie é montado como a reconstrução de uma catástrofe, misturando a narrativa principal a reportagens, depoimentos, cartas, livros, investigações, audiências e estudos sobre o chamado fenômeno Carrie White. Sabemos desde o início que alguma coisa terrível aconteceu e acompanhamos uma sociedade tentando explicar o desastre depois de ter participado de sua criação.
Flanagan pretende recuperar justamente esse material frequentemente deixado de lado pelas adaptações anteriores. Em vez de tratar o baile como uma surpresa, a série pode investigar o caminho que conduziu até ele, as responsabilidades compartilhadas e a maneira como uma comunidade reorganiza a narrativa depois da tragédia para diminuir a própria culpa.
Todas as vezes em que Carrie voltou
Depois do clássico de Brian De Palma, surgiram várias tentativas de devolver Carrie ao cinema, à televisão e ao palco. Em 1999, A Maldição de Carrie apresentou outra adolescente telecinética levada ao limite pela crueldade dos colegas. Em 2002, Angela Bettis interpretou Carrie em um filme produzido para a televisão, com Patricia Clarkson como Margaret. Em 2013, Chloë Grace Moretz e Julianne Moore estrelaram uma nova versão dirigida por Kimberly Peirce, que procurou aproximar a humilhação da personagem da era dos celulares, das gravações e dos vídeos compartilhados.
Carrie também chegou ao teatro em um musical da Broadway de 1988, lembrado durante anos como um dos fracassos mais famosos da história do gênero, mas posteriormente revisto, reformulado e remontado. A produção ganhou uma nova versão Off-Broadway em 2012 e até Riverdale dedicou um episódio inteiro à encenação do musical, prova de que a história já não pertence somente ao terror, mas a uma espécie de repertório coletivo sobre adolescência, exclusão e desejo de vingança.
Nenhuma dessas versões, entretanto, conseguiu substituir o filme de De Palma. Isso talvez aconteça porque sua força não depende apenas do que ocorre, mas de como o diretor constrói a aproximação da tragédia. Durante alguns minutos no baile, Carrie acredita que pode ser amada, desejada e aceita. A câmera gira ao redor dela e de Tommy como se o mundo tivesse finalmente se tornado um lugar seguro. Quando o sangue cai, não é somente uma brincadeira cruel que se concretiza, mas a destruição calculada da única memória feliz que aquela menina conseguiu construir.
Também é impossível medir completamente quantos filmes e séries foram influenciados por Carrie, porque sua marca se transformou em um arquétipo: a adolescente humilhada, reprimida ou ignorada que descobre dentro de si uma força capaz de romper violentamente a ordem. É possível reconhecer ecos dessa personagem em obras como Jovens Bruxas, Ginger Snaps e Garota Infernal, histórias muito diferentes entre si, mas igualmente interessadas na puberdade feminina como momento de transformação, medo, desejo, raiva e poder.

Há algo de Carrie em cada menina que percebe que aquilo que os outros chamavam de fraqueza pode se transformar em ameaça. Até Eleven, de Stranger Things, pertence a essa linhagem: uma garota isolada, criada sob controle, incapaz inicialmente de compreender a extensão dos próprios poderes e temida quando finalmente os utiliza. A própria imagem de uma adolescente aparentemente frágil, ensanguentada e capaz de mover objetos com a mente tornou-se uma linguagem visual imediatamente reconhecível.
Por que Mike Flanagan é a pessoa certa
A escolha de Flanagan para retomar esse legado faz sentido porque o diretor nunca tratou o terror apenas como um exercício de sustos. Em A Maldição da Residência Hill, Missa da Meia-Noite e A Queda da Casa de Usher, fantasmas, monstros e mortes são quase sempre manifestações de alguma coisa que já estava corroendo seus personagens por dentro: o luto, a culpa, a fé, o vício, a ambição ou as feridas familiares.
Com Stephen King, a afinidade é ainda mais evidente. Flanagan dirigiu Jogo Perigoso, Doutor Sono e A Vida de Chuck, compreendendo que, nas melhores histórias do escritor, o horror sobrenatural costuma chegar depois de uma longa convivência com terrores profundamente humanos. Ele não adapta King apenas reproduzindo as situações mais famosas de seus livros, mas procurando a ferida emocional que sustenta cada uma delas.
É justamente por isso que Flanagan parece uma escolha tão boa para resgatar Carrie. Poucos diretores contemporâneos demonstraram tanta habilidade para entrar em histórias já conhecidas sem tratá-las como relíquias intocáveis ou simples oportunidades de exploração comercial. Ele respeita o texto original, mas não se limita a reproduzi-lo; procura o que ainda pulsa dentro dele e pergunta como essa dor se manifesta no presente.
Em Doutor Sono, conseguiu dialogar ao mesmo tempo com o romance de Stephen King e com o filme de Stanley Kubrick, duas obras que nem sempre enxergavam O Iluminado da mesma maneira. Em Jogo Perigoso, transformou um livro considerado durante anos difícil de adaptar em uma narrativa íntima sobre abuso, memória e sobrevivência. Flanagan não copia King. Ele o lê.
Também é um diretor que raramente confunde sofrimento com espetáculo. Seus personagens podem estar cercados por fantasmas, casas assombradas, fanáticos religiosos e famílias destruídas, mas o horror nunca existe apenas para conduzir ao susto seguinte. Ele se interessa pelo que acontece com uma pessoa antes, durante e depois da violência, por aquilo que ela carrega, pelo que tenta esconder e pelo modo como uma família ou uma comunidade participa de sua destruição.
Essa sensibilidade é essencial para Carrie, uma história frequentemente reduzida à imagem de uma menina coberta de sangue, embora sua verdadeira tragédia esteja em tudo o que fizeram com ela muito antes do balde cair. A telecinese é extraordinária, mas a humilhação é cotidiana. A menina que move objetos com a mente também é uma adolescente que não entende por que está sangrando, não possui repertório para se defender e foi educada para sentir vergonha de existir.
Seus poderes não criam sua raiva, apenas oferecem uma forma terrível de expressá-la. Antes de Carrie destruir o baile, muitas pessoas participaram de sua destruição, algumas por crueldade, outras por covardia e várias simplesmente porque poderiam ter interferido e preferiram assistir. Flanagan costuma observar personagens feridos com compaixão, mas sem absolvê-los automaticamente de tudo o que fazem, e Carrie exige exatamente esse equilíbrio.

Ela é vítima, mas também se torna responsável por uma destruição terrível; desperta solidariedade, medo, tristeza e horror ao mesmo tempo. Nas mãos erradas, poderia ser transformada apenas em monstro, mártir ou símbolo de vingança. Flanagan tende a resistir a essas respostas fáceis. Ele entende que o terror mais duradouro nasce quando ainda conseguimos reconhecer a humanidade de alguém no instante em que já não podemos justificar suas ações.
Flanagan conhece ainda dois territórios indispensáveis para compreender Carrie White: o horror familiar e o fanatismo religioso. Ele sabe que uma casa pode ser mais aterrorizante do que qualquer monstro e que a fé, quando transformada em instrumento de poder, pode justificar formas devastadoras de crueldade. Ao mesmo tempo, como mostrou em Missa da Meia-Noite, não precisa ridicularizar a religião para denunciar aqueles que a utilizam para controlar, excluir e punir.
Isso aumenta a possibilidade de Margaret White deixar de ser apenas uma caricatura assustadora e aparecer como algo ainda mais perturbador: uma mãe capaz de chamar abuso de proteção e violência de amor. O horror está no modo como ela constrói um sistema fechado em que qualquer reação da filha confirma sua culpa. Se Carrie obedece, precisa continuar sendo purificada; se questiona, prova que está tomada pelo pecado; se manifesta seus poderes, torna-se a própria evidência de que a mãe sempre esteve certa.
Bullying na era das redes sociais
A nova série atualiza esse processo sem abandonar a essência do livro. Nesta versão, Carrie passou a vida escondida em casa com a mãe, até que a morte repentina do pai a obrigou a entrar pela primeira vez em uma escola pública. O choque já seria violento em qualquer época, mas se torna ainda mais brutal em um mundo no qual a humilhação não termina quando o sinal toca e os alunos voltam para casa.
Carrie será o centro de um escândalo de bullying que se espalha pelas redes sociais, transformando sua dor em vídeo, comentário, piada e conteúdo compartilhável. A crueldade adolescente não foi criada pela internet, mas ganhou nela uma plateia permanente, incapaz de esquecer ou permitir que a vítima escape da pior imagem de si mesma.
Esse talvez seja o elemento que realmente justifique uma nova versão. Carrie sempre foi destruída pelo olhar dos outros, mas agora esse olhar é contínuo. Em 1976, a garota humilhada no vestiário precisava enfrentar as colegas que haviam presenciado sua primeira menstruação. Em 2026, ela precisa enfrentar também aqueles que assistem, compartilham, comentam, editam e transformam a violência em entretenimento.
O bullying não depende mais da proximidade física, e a vítima pode continuar sendo agredida por pessoas que nunca entraram em sua escola e não sabem sequer seu nome. O que antes poderia ser uma lembrança dolorosa passa a circular como registro permanente, recuperado por algoritmos, repostado por desconhecidos e devolvido continuamente à pessoa que tentou sobreviver a ele.
As redes sociais também alteram a responsabilidade de quem observa. Na história original, havia testemunhas. Agora existem espectadores, seguidores e participantes capazes de ampliar uma agressão com um gesto aparentemente banal. Compartilhar não é o mesmo que jogar o objeto, gravar não é o mesmo que iniciar o ataque e comentar não é o mesmo que encurralar alguém no vestiário. Ainda assim, cada ação ajuda a transformar a dor de uma pessoa em espetáculo.
A tragédia de Carrie sempre começou com um grupo acreditando que poderia machucá-la sem enfrentar consequências. A internet apenas torna esse grupo potencialmente infinito.
O fanatismo religioso não ficou no passado
O fanatismo religioso de Margaret White também não pertence a 1974. Sua violência não nasce simplesmente da fé, mas da transformação da religião em instrumento de controle. Margaret ensina à filha que o corpo feminino é uma fonte de pecado, que o desejo exige punição e que qualquer tentativa de autonomia representa uma ameaça moral. Ela não precisa compreender Carrie; precisa apenas garantir que Carrie tema a si mesma.
Hoje, esse controle pode assumir uma aparência mais moderna, circular em vídeos, comunidades, discursos de proteção familiar e perfis que prometem ensinar às meninas como devem se comportar, vestir, desejar e obedecer. O vocabulário muda, mas o mecanismo permanece reconhecível: o corpo da jovem é tratado como território de disputa, enquanto sua curiosidade, sexualidade e independência são apresentadas como sinais de corrupção.
Margaret não é assustadora por acreditar em Deus. Ela é assustadora porque usa Deus para justificar o abuso e chamar a própria crueldade de amor. É essa distinção que Flanagan pode explorar melhor do que muitos diretores, porque seu trabalho já demonstrou interesse pela fé como uma experiência humana genuína e pelo fanatismo como a apropriação dessa fé por aqueles que desejam controlar os demais.
Todos sabemos que o balde vai cair
O teaser deixa claro que Flanagan não pretende esconder o destino mais famoso da história. Há o baile, a coroa, o vestido e o sangue, porque nenhuma adaptação de Carrie conseguiria fingir que o público não sabe o que acontecerá. O suspense, portanto, não está apenas em esperar que o balde caia, mas em compreender como cada personagem contribuiu para que aquela noite se tornasse inevitável.
A série acompanhará as pequenas escolhas cotidianas que se acumulam até a tragédia, perguntando se estamos assistindo ao nascimento de uma vítima, de uma heroína, de um monstro ou de algo muito mais complicado. Em uma história tão conhecida, a surpresa talvez não esteja no desfecho, mas na possibilidade de percebermos responsabilidades e feridas que as versões anteriores não tiveram tempo de investigar.

Flanagan também parece interessado em localizar Carrie dentro de um universo maior. Quando King publicou o romance, em 1974, as conexões que posteriormente uniriam tantos de seus livros ainda não estavam completamente estabelecidas. Hoje, porém, é impossível ignorar que Carrie pertence a um mundo habitado por outras crianças e adultos com capacidades que desafiam uma explicação racional. O diretor sugeriu que, em outro lugar e diante de outras pessoas, seus poderes poderiam receber um nome conhecido pelos leitores de King: o iluminado.
A temporada foi pensada para oferecer uma história completa, mas Flanagan já admite que aquele universo pode continuar além dos oito episódios. Isso não significa necessariamente prolongar a tragédia de Carrie, mas explorar suas consequências, as investigações e a existência de outras pessoas com habilidades semelhantes.
As primeiras reações aos dois capítulos exibidos antecipadamente foram positivas, destacando especialmente Summer H. Howell e a forma como a atualização aborda a ansiedade adolescente e o ciclo da violência na era digital. Também houve surpresa, uma indicação importante para uma história cujo final se tornou parte da cultura popular e que aparentemente não guardaria mais segredos.
Naturalmente, ainda existe o risco de transformar uma narrativa concentrada em uma série mais longa do que o necessário. Carrie é um livro relativamente curto, e a televisão atual já provou muitas vezes que expandir personagens não significa obrigatoriamente aprofundá-los. Também será preciso resistir à tentação de explicar demais uma história cuja força sempre esteve no desconforto, na ambiguidade e na percepção de que ninguém sai completamente inocente daquela escola.
Ainda assim, Mike Flanagan talvez seja um dos poucos diretores capazes não apenas de justificar a volta, mas de encontrar alguma coisa nova dentro de uma história aparentemente esgotada. Não porque possa superar Brian De Palma ou substituir Sissy Spacek, objetivos que ele corretamente não parece perseguir, mas porque sabe adaptar sem imitar, atualizar sem apagar e olhar para personagens feridos sem reduzi-los ao trauma que carregam.
Flanagan entende que Carrie White nunca foi apenas a menina coberta de sangue. Ela é a criança educada para temer o próprio corpo, a adolescente escolhida como alvo porque ninguém acredita que haverá consequências e a vítima que, quando finalmente conquista o poder de reagir, já não consegue distinguir justiça de destruição.
Cinquenta anos depois do filme de Brian De Palma e mais de meio século depois da publicação do romance de Stephen King, o balde continua suspenso sobre a cabeça de Carrie. O que mudou foi o tamanho da plateia esperando que ele caia — e a quantidade de pessoas preparadas para filmar.
Agora ele tem três razões claras para existir: os 50 anos do filme, a atualidade dos temas e Flanagan como o autor capaz de reler o clássico sem tentar substituí-lo.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
