Sou Team Black. Sou Team Rhaenyra. E pretendo voltar a falar à parte sobre tudo o que House of the Dragon está fazendo com ela nesta terceira temporada, mas é justamente por isso que preciso admitir uma coisa incômoda: neste momento, Aegon tem o melhor arco da série.

Desde o início, Ryan Condal nunca escondeu sua simpatia pelos Verdes; basta notar sua jaqueta verde de couro em entrevistas. A série também suavizou Rhaenyra em relação a Fogo & Sangue, tornando-a mais palatável ao público contemporâneo. Mas agora chegamos ao ponto em que isso pesa: ela conquista o que sempre quis, mas começa a perder o controle por não conseguir se firmar como líder. Esse será outro texto. Aqui, o foco é Aegon.
Quando o conhecemos, ele era um príncipe decadente: bêbado, abusivo, violento e completamente despreparado. Ignorado pelo pai, desprezado pela mãe e lançado ao trono sem qualquer formação real, apesar dos planos de Otto Hightower.
Esse é um dos maiores paradoxos da conspiração dos Verdes. Otto queria o neto como rei, mas nunca o educou para isso. Não o preparou, não o orientou e não construiu uma base de poder ao redor dele. Aegon foi simplesmente colocado no Trono de Ferro. Ele não queria ser rei. Depois quis. E foi péssimo.
Buscava admiração e respeito, mas não sabia como conquistá-los. Agiu por impulso no Conselho, ignorou consequências e confundiu autoridade com capricho. Quando tentou provar valor em batalha, foi derrotado e queimado pelo próprio irmão.
A partir daí, a série faz algo que o livro não faz.


Em Fogo & Sangue, Aegon desaparece após deixar Porto Real. Como a obra é uma crônica fragmentada, sua fuga e transformação não são acompanhadas. Ele some e retorna apenas mais tarde, marcado por dor e vingança. House of the Dragon preenche esse vazio ao acompanhar sua queda: a perda do corpo, da coroa, da família e da identidade pública. Vemos um rei fugindo disfarçado, dependente de outros, descobrindo na prática que o título não protege ninguém.
É nesse processo que surge algo inesperado: um Aegon mais humano, não no sentido de inocente, mas de compreensível. Isso não o absolve porque ele continua sendo alguém que cometeu abusos, violência e crueldades profundas. A dor não apaga seus crimes, nem o abandono de Viserys ou a negligência de Alicent os justificam. Mas a ficção não precisa transformar alguém em bom para torná-lo interessante. E aqui entra Tom Glynn-Carney.
O ator humaniza sem inocentar. Ele encontra o filho ignorado, o jovem rejeitado, o homem que nunca soube quem era sem a coroa. Seus silêncios, olhares e a tentativa de manter algum orgulho mesmo destruído criam um personagem que o público acompanha sem necessariamente perdoar.
Glynn-Carney não suaviza Aegon. Ele preserva sua vaidade, crueldade e covardia, mas expõe também medo e solidão. O resultado é alguém moralmente indefensável, mas dramaticamente fascinante.


Não é um arco como o de Jaime Lannister. Aegon ainda não busca redenção, busca sobrevivência, poder e vingança, mas a série transforma sua ausência do livro em trajetória, e isso muda tudo: ele deixa de ser um evento narrativo e passa a ser um processo. E é difícil admitir isso sendo Team Black, mas neste momento Aegon parece lidar com o peso da coroa de forma mais concreta do que Rhaenyra.
Ela cresceu acreditando que o trono lhe era devido: primeiro pelo pai, depois por destino ou profecia. Nunca precisou conquistá-lo de fato. Aegon também recebeu a coroa sem merecer. A diferença é que agora precisa lutar para não perdê-la.
Ele foi reduzido a quase nada, traído, abandonado e forçado a sobreviver. Pela primeira vez, precisa decidir em quem confiar e o que fazer com o pouco que restou. Sua liderança não nasce de preparo, mas de necessidade.
Entre os filhos de Viserys, todos falhos e moldados por uma guerra que não criaram, ele é o único em transformação contínua. Aemond já escolheu a destruição. Helaena permanece trágica e distante. Como viúva, Alicent perdeu a capacidade de controle político que tinha no livro. Rhaenyra conquistou o trono, mas ainda não consolidou autoridade. Aegon, por outro lado, começa a construir a sua. Não porque seja melhor. Não porque mereça perdão. Mas porque é quem mais está sendo forçado a entender o que significa ser rei.

Ryan Condal transformou sua ausência no livro em jornada e a dor não o tornou virtuoso, mas lhe deu direção. Seu ódio agora tem origem e trajetória. Quando retornar, não será apenas o rei decadente de antes, mas alguém moldado pela queda. E Tom Glynn-Carney torna isso crível a cada cena.
Por isso, é duro admitir, mas, neste momento de House of the Dragon, entre os restos da dinastia de Viserys, Aegon é quem mais está aprendendo a usar a coroa. Tá quase merecendo.
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