Com certa frequência, vemos um mesmo tema sendo abordado simultaneamente por diferentes filmes e séries, em especial, quando se trata de uma história real. Assim, pouco mais de um ano depois de Colin Firth estrelar Lockerbie: A Search for Truth, a chegada de O Atentado ao Voo Pan Am 103 à Netflix pode provocar uma pergunta inevitável: precisamos realmente de outra série dramatizada sobre a explosão do avião que caiu sobre a pequena cidade escocesa em 1988? A resposta está menos na repetição dos fatos do que na mudança completa de perspectiva. As duas produções falam sobre a mesma tragédia, mas não contam exatamente a mesma história.
A série com Colin Firth acompanhava Jim Swire, que perdeu a filha Flora no atentado e dedicou décadas à busca por respostas, chegando a questionar a condenação e parte da versão oficial construída pelas autoridades. Em O Atentado ao Voo Pan Am 103, o centro deixa de ser a jornada individual de um pai e passa a ser a investigação. A produção acompanha os policiais escoceses, os agentes do FBI, os funcionários públicos, os moradores de Lockerbie e as famílias que precisaram compreender como um avião com destino a Nova York explodiu no céu apenas 38 minutos depois de deixar Londres.

É uma diferença essencial porque a nova série não se apresenta como a história de um homem enfrentando governos e instituições, mas como a reconstrução de um esforço coletivo gigantesco, cheio de conflitos, erros, disputas de poder e pequenos avanços. Em vez de começar pelas dúvidas que permaneceram depois do julgamento, ela retorna à noite de 21 de dezembro de 1988, quando o voo 103 da Pan Am explodiu sobre Lockerbie, matando os 259 passageiros e tripulantes e outras 11 pessoas que estavam no solo. Os mortos vinham de 21 países, e os destroços foram espalhados por uma área de aproximadamente 850 milhas quadradas, transformando o território escocês em uma das maiores cenas de crime já examinadas.
A escala da tragédia é um dos elementos mais impressionantes dos seis episódios. Antes que os investigadores pudessem perguntar quem havia colocado a bomba no avião, era necessário recolher corpos, identificar vítimas, reunir fragmentos e tentar reconstruir uma aeronave que havia sido destruída ainda no ar. Cada pedaço de metal, tecido, mala ou aparelho eletrônico poderia representar uma pista, mas também era parte da vida de alguém que embarcara para passar o Natal com a família, voltar para casa ou começar uma viagem.
A série encontra sua força justamente nesse equilíbrio entre a investigação policial e a dimensão humana. Há espaço para os investigadores que passaram anos seguindo fragmentos minúsculos de uma bomba por diferentes países, mas também para os moradores que tiveram corpos e destroços caindo sobre suas casas. Entre as histórias recuperadas está a das mulheres de Lockerbie que se ofereceram para lavar, organizar e embalar os objetos pessoais encontrados entre os escombros. Aquilo que não tinha valor como evidência era cuidadosamente devolvido às famílias, acompanhado por pequenos ramos de urze escocesa. Num caso dominado por governos, serviços de inteligência e acusações internacionais, esse gesto simples talvez seja uma das imagens mais dolorosas de toda a narrativa.
Connor Swindells interpreta Ed McCusker, o policial escocês que se torna um dos principais pontos de ligação com os Estados Unidos, enquanto Patrick J. Adams vive o agente do FBI Dick Marquise. Merritt Wever interpreta Kathryn Turman, que trabalha com as famílias americanas, e Peter Mullan aparece como o chefe de polícia John Orr. A escolha de distribuir a narrativa entre vários personagens reforça a ideia de que ninguém poderia compreender ou solucionar sozinho um crime daquela dimensão. A investigação exigia a colaboração entre países, mas essa cooperação esteve longe de ser simples.

Escoceses e americanos tinham métodos, prioridades e pressões políticas diferentes. A série mostra como informações eram escondidas, como suspeitos eram investigados por agências paralelas e como a busca por justiça também se tornava uma disputa sobre quem controlaria a investigação. Inicialmente, as suspeitas apontavam para grupos palestinos e para uma possível retaliação iraniana. Aos poucos, fragmentos de um rádio, peças de um temporizador e roupas compradas em Malta conduziram os investigadores até agentes ligados à inteligência da Líbia.
A descoberta de cada pista é tratada como uma pequena vitória dentro de uma investigação que levou mais de uma década para chegar a um julgamento. Em 2001, Abdelbaset al-Megrahi foi condenado pelo atentado, enquanto Lamin Khalifah Fhimah foi absolvido. Megrahi recebeu prisão perpétua, mas foi libertado por razões humanitárias em 2009, depois de ser diagnosticado com câncer, e morreu na Líbia em 2012. Durante todo esse período, famílias, jornalistas e investigadores continuaram debatendo se a condenação realmente esclarecia o que havia acontecido e se todos os responsáveis tinham sido identificados.
É nesse ponto que O Atentado ao Voo Pan Am 103 se diferencia ainda mais de Lockerbie: A Search for Truth. A produção com Colin Firth parte das dúvidas de Jim Swire e de sua convicção de que Megrahi poderia ter sido condenado injustamente. A série da Netflix permanece muito mais próxima dos investigadores e do caminho oficial que levou até a Líbia. Isso não significa que ignore falhas, contradições ou interesses políticos, mas seu olhar está voltado para a forma como a acusação foi construída, e não principalmente para desmontá-la.

Talvez por isso a série seja menos emocionalmente concentrada do que a anterior, mas muito mais eficiente para explicar a dimensão do caso. Jim Swire oferecia ao público um protagonista fácil de acompanhar: um pai destruído que se recusava a aceitar respostas incompletas. Aqui, o protagonista é a própria investigação, espalhada entre dezenas de personagens, países e pistas aparentemente insignificantes. A narrativa exige mais atenção, mas também permite compreender por que Lockerbie se tornou um caso tão complexo e por que, quase 38 anos depois, ainda é impossível falar sobre ele como um capítulo definitivamente encerrado.
A chegada da série à Netflix ocorre justamente quando um novo julgamento promete recolocar o atentado no centro das atenções. Abu Agila Mohammad Masud, acusado pelos Estados Unidos de ter fabricado a bomba usada no ataque, deve começar a ser julgado em Washington, com a seleção do júri prevista para 25 de agosto de 2026. Acusado formalmente em 2020, preso em 2022 e levado aos Estados Unidos, ele declarou-se inocente. A promotoria pretende usar uma confissão que Masud teria feito na Líbia em 2012, mas a defesa afirma que a declaração foi obtida sob ameaça, violência e coerção.
Até agora, Megrahi foi a única pessoa condenada pelo atentado. Se o julgamento de Masud avançar, será a primeira vez que um acusado pelo ataque ao voo 103 responderá pelo crime em um tribunal americano. O processo também poderá reabrir discussões sobre a origem da mala que carregava a bomba, as falhas de segurança da Pan Am, as informações disponíveis antes do atentado e a possibilidade de que outros participantes jamais tenham sido responsabilizados.
A coincidência entre a estreia e o novo julgamento dá à série uma atualidade que não poderia ter sido planejada com maior precisão. Aquilo que poderia parecer apenas a dramatização de uma tragédia distante passa a funcionar como preparação para um processo capaz de acrescentar um novo capítulo ao caso. A série termina depois de mostrar os suspeitos finalmente levados a julgamento, mas a realidade insiste em lembrar que a história não acabou ali.

Apesar da dimensão policial, O Atentado ao Voo Pan Am 103 evita transformar a investigação em um quebra-cabeça divertido. A destruição está sempre presente, assim como a lembrança de que cada pista foi encontrada entre os restos de 270 vidas. O trabalho dos investigadores pode conduzir a série, mas são as vítimas, as famílias e os moradores de Lockerbie que impedem que ela se torne apenas mais uma narrativa sobre agentes perseguindo terroristas.
Esse talvez seja seu maior mérito. Ao recuperar o atentado pela perspectiva de quem precisou juntar seus fragmentos, a série mostra que investigar também é uma forma de reconstruir aquilo que jamais poderá ser devolvido. Policiais tentaram remontar um avião, famílias tentaram reconstruir suas vidas e uma pequena cidade precisou aprender a conviver para sempre com o nome de uma tragédia internacional.
Quase quatro décadas depois, sabemos como a bomba provavelmente entrou no sistema de bagagens, conhecemos os agentes acusados e temos uma condenação. Ainda assim, permanecem dúvidas sobre quem ordenou o ataque, quantas pessoas participaram, quais governos sabiam mais do que admitiram e se a verdade apresentada pelos tribunais corresponde a toda a história. O Atentado ao Voo Pan Am 103 não responde a cada uma dessas perguntas, mas explica por que tantas pessoas passaram tantos anos tentando respondê-las.
A série da Netflix não substitui Lockerbie: A Search for Truth, nem tenta corrigir a produção com Colin Firth. As duas se completam justamente porque ocupam posições diferentes. Uma acompanha o homem que passou a desconfiar da investigação; a outra acompanha as pessoas que tentaram construí-la. Entre a convicção dos investigadores e as dúvidas das famílias permanece a história do voo Pan Am 103, um crime que chegou a uma condenação, mas ainda não encontrou seu verdadeiro fim.
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