No meio de tantas reviravoltas e personagens de Silo, já em sua terceira temporada, há dois que me machucam o coração: Alison e Holston Becker. Você ainda lembra deles? Aposto que não. E deveria.
Quando a série começou, Allison e Holston pareciam ocupar o centro da história. Ela era vivida por Rashida Jones, ele por David Oyelowo, dois atores importantes demais para que o público suspeitasse que aqueles personagens desapareceriam tão cedo. Primeiro, Allison pediu para sair. Depois, Holston fez o mesmo. Os dois acreditaram ter descoberto que o Silo mentia sobre o mundo exterior e morreram diante das câmeras, transformados em exemplos de uma regra que parecia simples: quem sai, morre.
Naquele momento, a tragédia funcionava como a grande porta de entrada para a série. Allison havia descoberto que não podia engravidar porque o Silo controlava seu corpo, mentia sobre sua fertilidade e escondia informações sobre o passado. Ao encontrar uma gravação que mostrava árvores, céu azul, pássaros e um mundo aparentemente vivo, ela chegou a uma conclusão absolutamente lógica. Se haviam mentido sobre seu corpo, sobre sua história e sobre tantas outras coisas, também poderiam estar mentindo sobre o exterior.
O mais cruel é que Allison estava certa sobre quase tudo. Havia uma conspiração. Havia controle reprodutivo. Havia apagamento histórico. Havia uma estrutura construída para impedir que as pessoas soubessem de onde vieram, por que estavam ali e quem decidia o que poderiam conhecer. O único erro dela foi acreditar que o vídeo verde revelava a verdade completa, mas não.

A imagem de um mundo vivo, projetada no visor de quem saía, fazia parte do próprio mecanismo de controle. Allison não morreu porque foi ingênua, mas porque compreendeu corretamente uma série de mentiras e, a partir delas, chegou à conclusão errada. O Silo não precisava convencer seus habitantes de uma falsidade absoluta. Bastava fragmentar a verdade até que ninguém soubesse mais em qual parte acreditar.
É isso que torna sua morte tão dolorosa quando voltamos a ela depois de tudo o que a série já mostrou. Allison saiu acreditando que finalmente enxergava a realidade. Ao limpar a câmera, tentava avisar Holston e todos os que ficaram dentro de que o mundo era diferente daquilo que aparecia nas telas. O gesto, no entanto, tinha sido previsto pelo sistema. Para quem estava do lado de fora, limpar significava revelar a verdade. Para quem permanecia no Silo, significava apenas confirmar que mais uma pessoa havia repetido o ritual antes de morrer.
Holston viveu três anos com essa dúvida. Quando pediu para sair, não estava apenas desafiando a autoridade. Estava tentando compreender o que acontecera com sua mulher e descobrir se ela havia morrido acreditando numa mentira ou se todos os que ficaram para trás eram os verdadeiros prisioneiros de uma grande encenação. Ao enxergar o mesmo mundo verde, ele acreditou por alguns instantes que Allison estava certa. Depois percebeu que a imagem ocultava inclusive o corpo dela.
A série avançou, Juliette sobreviveu e o mundo exterior se revelou realmente devastado. À primeira vista, isso poderia transformar Allison e Holston apenas em duas pessoas que interpretaram mal aquilo que viram. Mas a história é muito mais perversa. O exterior podia estar destruído e, ainda assim, o Silo continuava mentindo. Continuava manipulando imagens, sabotando trajes, controlando informações e oferecendo versões incompletas da realidade.
Essa é a pergunta que torna a discussão tão interessante agora. Se o mundo realmente era mortal, por que era necessário criar uma ilusão para quem saía? Por que não simplesmente mostrar a verdade?
Porque o objetivo nunca foi apenas manter as pessoas vivas. Era mantê-las obedientes.
A projeção do mundo verde não existia apenas para dar esperança. Ela produzia um comportamento previsível. A pessoa saía, acreditava ter descoberto a verdade e limpava a câmera para mostrá-la aos outros. Em seguida, morria. O Silo transformava o desejo de comunicar uma descoberta num instrumento de propaganda para o próprio sistema.
Allison e Holston foram, portanto, enganados duas vezes. Primeiro, pela imagem falsa que viam através do capacete. Depois, pelos próprios trajes, preparados para falhar. Juliette sobreviveu não porque o exterior fosse seguro, mas porque seu traje havia sido vedado com um material melhor. A diferença entre ela e os dois primeiros personagens não foi coragem, inteligência ou destino. Foi uma pequena intervenção técnica que impediu que o sistema concluísse o ritual como sempre havia feito.

Nos livros de Hugh Howey, Holston e Allison também estão na origem de tudo. Wool começou justamente com a história do xerife que decide sair depois da morte da mulher. Juliette só aparece depois. A série ampliou principalmente Allison, que nos livros é muito mais uma ausência, uma lembrança e a causa da decisão de Holston. Na adaptação, ela se tornou a primeira personagem a perceber que o controle do Silo alcançava não apenas a história coletiva, mas seu próprio corpo.
Mesmo nos livros, porém, os dois praticamente desaparecem depois da abertura. Não retornam como peças secretas da conspiração nem recebem uma reparação tardia. Cumpriram sua função narrativa: mostraram ao público como funciona a limpeza, abriram espaço para Juliette e foram deixados para trás.
Talvez por isso seja tão importante voltar a eles agora.
Allison e Holston não eram apenas o casal trágico que apresentou o mistério da série. Eles foram as primeiras vítimas que conhecemos de um sistema que não sobrevive porque consegue esconder toda a verdade, mas porque sabe misturar verdades e mentiras de maneira quase impossível de separar.
Allison acreditou que precisava escolher entre duas possibilidades: confiar completamente no Silo ou desacreditar de tudo o que ele dizia. Juliette aprendeu algo muito mais difícil. Em Silo, desconfiar da mentira não significa ter encontrado a verdade.
A tragédia de Allison e Holston fica ainda maior porque eles estavam errados sobre o mundo exterior, mas certos sobre o Silo. E morreram justamente porque, naquele lugar, descobrir uma parte da verdade pode ser mais perigoso do que continuar acreditando numa mentira.
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