Alfred Hitchcock chamava de MacGuffin aquele objeto que coloca uma história em movimento, mobiliza os personagens e parece guardar todas as respostas, embora sua verdadeira função seja nos conduzir até o que realmente importa. A maleta de Pulp Fiction, os documentos secretos de tantos thrillers e, em Silo, um inocente dispensador de PEZ com a cabeça de um pato.
A Relíquia 1175 não contém um mapa secreto, uma mensagem codificada ou uma revelação sobre o fim do mundo. Mesmo assim, atravessou as três temporadas da série, ligando George, Juliette, a porta escondida sob o Silo 18 e, agora, uma história de amor separada pelo apocalipse. O objeto não é a resposta. É o caminho até ela.

Quando George Wilkins entregou o PEZ a Juliette, na primeira temporada, deixou uma mensagem igualmente enigmática: havia encontrado aquilo que procurava. O que ele descobrira não era a origem do brinquedo, mas a enorme porta metálica escondida sob a água, no fundo do Silo 18.
George usou um pequeno pedaço de fio preso ao PEZ para levar Juliette até o carretel que indicava onde estava escondido o disco rígido. No aparelho estavam as plantas do Silo, os registros proibidos e o vídeo em que ele confirmava ter localizado a porta, com aproximadamente quatro metros e meio de altura. George encontrou a entrada para um segredo muito maior, mas morreu antes de compreender a estrutura inteira.
Depois dele, Lukas chegou ao mesmo lugar seguindo as instruções codificadas de Salvador Quinn. Foi quando a porta se ativou e uma voz falou com ele. A entidade sabia que Quinn, Mary Meadows e George já haviam estado ali, embora afirmasse não ter conversado com George. Também sabia quem era Lukas e ameaçou acionar o Salvaguarda caso ele contasse o que descobrira.
É importante separar os elementos que a série deliberadamente aproximou. A porta é uma estrutura física, possivelmente ligada aos túneis e ao plano original de saída dos silos. A voz é o chamado Algoritmo, a inteligência que monitora cada comunidade e decide quando ela representa uma ameaça. O Salvaguarda é a arma: o mecanismo capaz de lançar uma substância mortal pelo sistema e eliminar os dez mil habitantes de um silo rebelde.
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Ainda não sabemos se o Algoritmo é realmente uma inteligência artificial ou uma pessoa no Silo 1 fingindo ser onisciente. Bernard passou a desconfiar da segunda possibilidade ao identificar algo muito humano na voz: irritação. Se há uma pessoa atrás da cortina, como no Mágico de Oz, ela também pode ser derrotada.
Mas foi apenas no fim da segunda temporada que o PEZ deixou de ser exclusivamente uma relíquia de George. Séculos antes, Daniel Keene o comprou às pressas em uma loja de conveniência perto de casa, numa “compra de pânico” antes de encontrar Helen Drew. O pato não foi escolhido ao acaso: era uma referência à Universidade do Oregon, onde ela estudara, e ao mascote dos Oregon Ducks.

Naquele momento, portanto, não existia nenhum significado secreto. Era apenas um presente barato, engraçado e pessoal, escolhido por um homem que havia prestado atenção à mulher que queria conquistar. Foi Helen quem o guardou — e a História que transformou aquela pequena lembrança romântica em uma relíquia proibida, capaz de ameaçar todo o sistema cerca de 500 anos depois.
Na terceira temporada, ele ganhou outra função. Como as drogas usadas pelo sistema não apagam necessariamente as lembranças, mas bloqueiam o acesso a elas, objetos carregados de afeto podem funcionar como âncoras. Quando Sims devolveu o PEZ a Juliette, ela se recordou de George, recuperou parte de sua história e chegou à lembrança essencial de como o Silo 17 conseguira impedir o Salvaguarda.
O PEZ, portanto, não tem poderes. O que tem poder é aquilo que ele preserva: amor, memória e uma história que o sistema tentou apagar.
Uma mudança importante em relação aos livros
É justamente aí que a série abre uma pergunta que não existia da mesma maneira nos livros de Hugh Howey: quem descende de Helen e Daniel?
Nos livros, Daniel se chama Donald Keene e Helen já é sua esposa quando ele é envolvido no projeto dos silos. Anna Thurman, filha do senador e antiga paixão de Donald na faculdade, continua apaixonada por ele. Ela se alia a Mick Webb, amigo de Donald, para separar o casal quando o mundo acaba.
Donald é levado para o Silo 1, tem a memória manipulada e passa a acreditar que se chama Troy. Helen é encaminhada para o Silo 2, assume o nome de Karma, casa-se posteriormente com Mick e tem dois filhos com ele. Donald só descobre séculos depois que Anna e Mick haviam interferido deliberadamente em seu destino. Anna queria Donald; Mick queria Helen.

Na série, essa dinâmica foi completamente reescrita. Anna não disputa Daniel com Helen e Mick Webb sequer faz parte da trama. Helen e Daniel não começam casados, mas se apaixonam diante de nós. Quando o apocalipse chega, ela está grávida dele.
Helen é forçada a entrar no Silo 18 enquanto Daniel fica preso do outro lado e acaba sendo levado ao Silo 1. A separação permanece deliberada, mas ganha um peso diferente. Daniel não perde apenas a mulher que ama. Perde também o filho ou a filha que ainda nem nasceu — e terá a lembrança dessa família removida para que possa funcionar como Troy.
Se mantivesse a memória, ele jamais administraria obedientemente os demais silos. Tentaria localizar Helen, acompanhar a vida do próprio filho e proteger seus descendentes. Para transformar Daniel em uma ferramenta do sistema, era necessário apagar exatamente aquilo que poderia levá-lo a enfrentá-lo.
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Hugh Howey, que participa da série como produtor executivo, demonstrou entusiasmo com a nova construção. Ao falar sobre a temporada, destacou a química entre Daniel e Helen e resumiu a origem e o fim de Silo como duas histórias de amor diferentes. A adaptação mudou personagens, motivações e relações, mas preservou o eixo mais importante: aquilo que os responsáveis pelos silos acreditam poder destruir — o amor, a curiosidade e a memória — continua reaparecendo.
Quem herdou o PEZ?
Se Helen entrou grávida no Silo 18, é natural imaginar que o bebê tenha sobrevivido e que seus descendentes ainda estejam ali. A dúvida agora é quem carrega essa linhagem quase cinco séculos depois.
Juliette é a candidata mais comentada pelos fãs porque parece reunir características dos dois: a inquietação de Helen e a inteligência prática de Daniel. Mas, até agora, a série não apresentou nenhuma evidência genealógica ligando diretamente a família Nichols ao casal.
George talvez seja uma possibilidade mais consistente. Foi ele quem possuía o PEZ antes de Juliette, investigava as origens do Silo e parecia carregar uma relação particular com as relíquias. O objeto pode ter atravessado gerações como uma herança familiar, mesmo depois que todos esqueceram quem havia sido Helen Drew.

Isso também mudaria a importância de Juliette. Ela não precisaria ser descendente biológica de Daniel e Helen. Poderia ser a herdeira da investigação de George, escolhida não pelo sangue, mas pelo amor. George recebeu o objeto de sua família e o entregou à mulher capaz de concluir aquilo que ele começou.
Por enquanto, falta o trecho essencial da trajetória: como o PEZ saiu das mãos de Helen e chegou às de George? A resposta pode revelar o destino do bebê, a identidade de seus descendentes e a origem de uma resistência que talvez sobreviva dentro do Silo 18 desde sua primeira geração.
O dispensador continua sendo um MacGuffin perfeito porque seguimos olhando para ele quando a verdadeira história está ao redor. George encontrou a porta. Lukas ouviu a voz. Juliette recuperou a memória. Daniel ainda precisará recuperar a própria identidade. E em algum lugar entre Helen e o presente existe uma família que atravessou séculos sem saber — ou talvez sabendo perfeitamente — o que aquele pequeno pato amarelo significava.
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