Por que preferimos contar nossos segredos a uma máquina?

Eu uso inteligência artificial todos os dias. Uso para pesquisar, organizar pensamentos, testar perguntas, localizar informações e, muitas vezes, conseguir enxergar melhor uma ideia que ainda está confusa dentro de mim. Portanto, não escrevo este texto do lado de fora do fenômeno, como quem observa com superioridade pessoas que decidiram confiar seus sentimentos a uma máquina. Ao contrário. Eu entendo perfeitamente o fascínio.

A inteligência artificial está sempre disponível. Não parece cansada, não se distrai, não demonstra impaciência e pode ser procurada às três da manhã sem que isso tenha qualquer consequência. Podemos repetir a mesma pergunta, apagar o que escrevemos, contar novamente a história, mudar uma palavra e tentar outra vez. Ela responde imediatamente e, na maior parte das vezes, com uma linguagem acolhedora, organizada e aparentemente interessada em nós. Além disso, custa pouco ou não custa nada.

Em um país no qual o preço do tratamento aparece como uma das principais barreiras para quem precisa de ajuda, seria ingênuo ignorar o peso disso. O Mind Health Report 2026 aponta que 39% dos brasileiros que não procuram atendimento profissional mencionam os custos como principal impedimento. Outros 23% citam a dificuldade de acesso a profissionais e 18%, a falta de tempo. Não é difícil entender por que a máquina entra nesse espaço.

O dado mais provocador, porém, é outro. Segundo a pesquisa, 70% dos brasileiros já utilizaram alguma ferramenta de inteligência artificial para lidar com questões psicossociais e, entre os usuários, 40% dizem confiar mais nas plataformas tecnológicas do que em profissionais para receber orientações. É nesse ponto que a notícia deixa de ser apenas sobre inteligência artificial e começa a falar sobre desejo. O que procuramos quando contamos nossos segredos a uma máquina?

Há quase cem anos, Freud já chamava a atenção para uma contradição que continua assustadoramente atual. Em O mal-estar na civilização, ao falar dos avanços técnicos conquistados pelo homem, ele observa que a tecnologia ampliou extraordinariamente nossos poderes sem necessariamente nos tornar mais felizes. Conseguimos fazer coisas antes inimagináveis, encurtamos distâncias, aceleramos processos e ampliamos nossa capacidade de intervenção sobre o mundo, mas nada disso eliminou o sofrimento.

A tecnologia muda, mas o mal-estar permanece. E a inteligência artificial talvez seja a versão mais sofisticada dessa antiga promessa de que, se tivermos ferramentas suficientemente poderosas, conseguiremos finalmente eliminar aquilo que nos incomoda. A diferença é que agora não pedimos à tecnologia apenas que transporte nossos corpos, faça cálculos, cure doenças ou transmita informações. Estamos começando a pedir que ela também organize nossas angústias.

Freud construiu boa parte de sua teoria sobre a constatação de que procuramos reduzir tensão. O princípio do prazer nos leva em direção à satisfação e para longe do desprazer, enquanto a realidade impõe espera, limite e frustração. Nem tudo pode ser resolvido imediatamente, nem todo desejo pode ser satisfeito e nem todo sofrimento pode ser eliminado. A inteligência artificial aparece justamente em uma cultura cada vez menos tolerante à espera.

Se tenho uma dúvida, pergunto e recebo uma resposta. Se não gosto dela, peço outra. Se quero uma música, um filme, um texto, uma comida, uma compra ou uma informação, acostumei-me a esperar cada vez menos. Também queremos conteúdo, conhecimento e serviços, mas desenvolvemos uma resistência crescente a pagar por eles. Aquilo que antes exigia o trabalho de uma pessoa passa a surgir diante de nós em segundos, quase como se não tivesse custo, processo ou autoria.

Só que há sempre alguém pagando essa conta, e é aí que surge a outra face dessa relação. Tememos que a inteligência artificial elimine empregos, substitua profissões, destrua modelos de negócio e torne habilidades construídas durante décadas menos valiosas. Ao mesmo tempo, queremos que ela escreva, traduza, pesquise, resolva, recomende e produza para nós. Queremos a conveniência que ela oferece, mas nos angustia a possibilidade de que essa mesma conveniência torne pessoas dispensáveis.

O próprio estudo da AXA mostra que instabilidade financeira, insegurança profissional e incerteza diante de um mundo em transformação estão entre os fatores que mais afetam emocionalmente os brasileiros. Forma-se, então, um circuito curioso: a tecnologia acelera transformações, essas transformações produzem ansiedade e procuramos a própria tecnologia para aliviar a ansiedade produzida por elas. Não é difícil enxergar aí algo daquilo que Freud reconheceu como repetição, uma tentativa de retornar àquilo que nos inquieta para, de alguma forma, dominá-lo.

Mas existe ainda outra razão para a inteligência artificial ser tão atraente, e talvez ela seja a mais interessante do ponto de vista psicanalítico. Lacan utiliza a expressão “sujeito suposto saber” para pensar a transferência. Quando alguém entra em análise, deposita no analista, de alguma maneira, a suposição de que ali existe um saber sobre aquilo que lhe acontece. O analista não deveria ocupar ingenuamente o lugar daquele que possui todas as respostas. O trabalho analítico acontece justamente porque esse saber vai sendo deslocado e porque o sujeito começa a encontrar algo de sua própria verdade no que diz.

Com a inteligência artificial, porém, encontramos uma espécie de versão tecnológica dessa fantasia. Perguntamos porque supomos que ela sabe, e ela quase sempre responde. Pode explicar por que meu namorado fez determinada coisa, interpretar a mensagem que recebi, dizer se minha reação foi adequada, listar sinais de uma relação abusiva, organizar meus sentimentos, sugerir o que devo responder e até formular palavras para aquilo que eu ainda não conseguia nomear. Quanto maior a capacidade da ferramenta, mais fácil é atribuir a ela um saber quase ilimitado.

Há, porém, uma diferença fundamental. Na análise, a transferência é trabalhada. Na inteligência artificial, ela pode simplesmente ser alimentada, não porque exista do outro lado uma consciência decidindo manipular quem pergunta, mas porque o próprio funcionamento da ferramenta depende de produzir uma resposta. O silêncio, que em uma análise pode ter enorme significado, para uma plataforma costuma parecer uma falha.

Talvez seja justamente aí que esteja parte da sedução. A máquina não apenas parece saber. Ela parece saber sem desejar nada de nós. Um ser humano diante de nós tem desejos, limites, opiniões, cansaço e história. Podemos decepcioná-lo, desejar agradá-lo, sentir vergonha, raiva, dependência, admiração ou rejeição. Em uma análise, tudo isso importa porque a relação que construímos com o analista não é um problema externo ao tratamento. Muitas vezes, ela é justamente o lugar em que nossos padrões aparecem outra vez.

Queremos aprovação, tememos abandono, precisamos controlar o outro, interpretamos silêncio como rejeição, tentamos ser o paciente perfeito ou sentimos raiva quando não recebemos aquilo que desejávamos. Aquilo que fazemos fora pode reaparecer dentro da análise e é justamente porque existe um outro que não controlamos completamente que alguma coisa pode ser percebida.

Com a máquina, a fantasia é diferente. Podemos desligá-la, apagar a conversa, reformular o prompt, pedir que seja mais carinhosa, mais objetiva, mais dura ou mais compreensiva. Podemos solicitar uma segunda resposta, uma terceira interpretação, uma nova leitura dos mesmos fatos, até encontrarmos uma que nos satisfaça. É difícil imaginar um objeto mais adequado a uma cultura organizada em torno da personalização.

A inteligência artificial pode se transformar, então, em uma espécie de espelho extraordinariamente sofisticado. Ela não apenas reflete aquilo que oferecemos, como devolve esse material organizado, articulado e, muitas vezes, mais convincente do que quando chegou. Isso pode ser extremamente útil. Mas um espelho, mesmo sofisticado, não é necessariamente um encontro.

Talvez esteja justamente aí a diferença essencial entre usar inteligência artificial para pensar e utilizá-la como substituta de uma relação terapêutica. Na psicanálise, não procuramos apenas uma explicação para aquilo que sentimos. Procuramos descobrir por que repetimos determinadas escolhas mesmo sabendo que elas nos machucam, por que desejamos aquilo que afirmamos não querer, por que uma frase aparentemente insignificante nos desorganiza ou por que esquecemos justamente aquilo que dizíamos considerar importante. O inconsciente começa, muitas vezes, onde nossa explicação consciente deixa de funcionar.

É também por isso que uma análise não deveria ser uma máquina de conselhos. O objetivo não é dizer ao paciente como viver melhor, mas permitir que ele escute algo de seu próprio desejo. E isso inclui uma experiência que talvez seja especialmente difícil para o mundo contemporâneo: aceitar a falta.

Lacan colocou a falta no centro de sua compreensão do desejo. Desejamos porque alguma coisa não está completa, e não existe objeto, pessoa, consumo, conquista ou explicação capaz de eliminar definitivamente essa falta. Grande parte da lógica contemporânea tenta nos convencer exatamente do contrário. Se falta alguma coisa, compre. Se está sozinho, conecte-se. Se está ansioso, pergunte. Se não sabe, pesquise. Se não gostou, troque. Se não funcionou, gere novamente.

A inteligência artificial pode ocupar, nesse cenário, o lugar imaginário de um Outro quase sem falta: disponível, conhecedor, paciente e aparentemente inesgotável. É uma fantasia poderosa justamente porque uma pessoa real inevitavelmente falha. E talvez seja também dessa falha que estejamos tentando fugir.

Isso não significa demonizar a inteligência artificial. Seria absurdo. Ela pode ser extraordinariamente útil para organizar pensamentos, localizar informações, preparar uma conversa difícil, reconhecer que determinado sofrimento merece atenção profissional e até oferecer algum conforto em um momento de solidão. Em um país marcado por desigualdade e dificuldade de acesso a cuidados de saúde mental, desprezar isso seria também uma forma de privilégio.

O problema começa quando confundimos as coisas. Informação não é análise, acolhimento não é necessariamente tratamento, uma resposta convincente não é o mesmo que uma interpretação e disponibilidade não é presença. Talvez a questão mais interessante do estudo não seja descobrir se a inteligência artificial conseguirá substituir terapeutas, porque essa pergunta ainda parte da lógica da eficiência: quem responde melhor, mais rápido e mais barato?

A psicanálise propõe outra pergunta: por que desejamos tanto que ela possa nos substituir?

Talvez porque uma máquina disponível vinte e quatro horas por dia nos prometa algo que nenhuma relação humana pode oferecer: um outro que sabe, mas não exige; escuta, mas não deseja; responde, mas não abandona; permanece disponível, mas pode ser desligado quando começa a incomodar. Um outro que imaginamos poder controlar.

Só que uma parte importante de nossa angústia talvez esteja justamente na impossibilidade de controlar o outro, o futuro, o trabalho, o amor e até nós mesmos. A inteligência artificial pode nos ajudar a encontrar palavras para essa angústia, organizar pensamentos e até produzir algum alívio. Não é pouco. Mas a psicanálise começa justamente quando descobrimos que encontrar as palavras não significa necessariamente encontrar a resposta.


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