Spoilers do final da terceira temporada de House of the Dragon
A terceira temporada de House of the Dragon termina em Tumbleton, uma batalha que os leitores de Fogo & Sangue antecipavam havia anos, mas que chega à série cercada por caminhos novos e, por isso mesmo, ainda mais trágicos. Conhecemos o resultado geral do confronto no livro, sabemos quais traições devem acontecer e quais personagens deveriam morrer, mas a adaptação deslocou tantas peças que já não é possível usar a história escrita por George R.R. Martin como um mapa seguro.
No oitavo e último episódio, a Primeira Batalha de Tumbleton deve terminar com uma derrota devastadora para os Pretos, ainda que os Verdes também sofram baixas importantes. Hugh Hammer e Ulf White devem se tornar os infames Dois Traidores, Ormund Hightower pode encontrar seu fim e Daeron provavelmente sobreviverá, mas a vitória deixará o exército Verde sem uma liderança clara e cercado por dois homens que possuem dragões grandes demais para serem controlados.
É uma vitória militar que ameaça destruir também aqueles que a conquistaram.


Por que Tumbleton se tornou tão importante?
Tumbleton é uma próspera cidade comercial da Campina e sede da Casa Footly. No livro, representa o último grande reduto leal a Rhaenyra entre o exército de Ormund Hightower e Porto Real. Se os Verdes dominarem a cidade, o caminho até a capital fica perigosamente aberto; se os Pretos recuperarem a região, interrompem o avanço das forças vindas de Vilavelha.
A série ampliou ainda mais essa importância. Tumbleton não é apenas uma posição militar: tornou-se o ponto de encontro de quase todas as tensões construídas ao longo da temporada. Ormund ocupou a cidade e passou a usá-la como base para desafiar Rhaenyra, manipular Daeron e atrair os cavaleiros de dragão dos Pretos. Gwayne Hightower está ali tentando proteger o sobrinho da influência do próprio primo. Corlys Velaryon está preso. Kat, esposa de Hugh, vive sob a ameaça da ocupação. E Ulf já começou a negociar sua lealdade.
O resultado da batalha pode ser conhecido, mas as motivações foram completamente reescritas.
A ausência de Aemond também decide Tumbleton
Há ainda uma ausência fundamental em Tumbleton: Aemond e Vhagar.
A terceira temporada, assim como a segunda havia feito com Daemon, transformou Harrenhal em uma espécie de armadilha construída por Alys Rivers. Daemon permaneceu preso durante semanas entre sonhos, pesadelos e visões que o obrigaram a confrontar seus traumas. Agora é Aemond quem está retido no castelo, recuperando-se dos ferimentos e cada vez mais vulnerável à influência de Alys.
A diferença é que Aemond não está apenas ferido. A série afirmou que Vhagar o abandonou, deixando-o em Harrenhal sem o dragão que sustentava quase toda a superioridade militar dos Verdes.
A ausência de Vhagar é essencial para que a Primeira Batalha de Tumbleton aconteça como conhecemos. No livro, Aemond também não está presente, e isso oferece aos Pretos uma possibilidade real de enfrentar o exército de Ormund. Se Vhagar estivesse ao lado de Tessarion, Vermithor e Silverwing, nenhum conjunto de dragões enviado por Rhaenyra teria força suficiente para superar os Verdes.


É justamente por isso que a traição de Hugh e Ulf se torna tão importante. Sem Vhagar, os Verdes dependem dos dois homens que Ormund está tentando conquistar. Quando Vermithor e Silverwing mudam de lado, eles não apenas garantem a vitória: ocupam temporariamente o espaço de poder deixado por Aemond.
Vhagar certamente voltará para ele, mas tudo indica que não chegará a tempo de Tumbleton. Enquanto Aemond permanece em Harrenhal, ferido, manipulado por Alys e separado de seu dragão, a guerra avança sem o homem que se acreditava indispensável para os Verdes.
E essa ausência cria outra ironia. Aemond sempre governou por meio do medo provocado por Vhagar. Em Tumbleton, dois homens comuns descobrirão que podem exercer o mesmo poder — e talvez exigir ainda mais em troca dele.
Ulf já escolheu seu preço
A traição de Ulf parece praticamente definida. Ormund descobriu rapidamente aquilo que Rhaenyra e Daemon não perceberam ou não consideraram importante: Ulf não queria apenas servir à rainha. Queria ser reconhecido como alguém importante. Aliás, a dica foi dada pelo próprio Daemon, no início da temporada, quando caiu no golpe do “falso Daeron”.
Desde que se tornou cavaleiro de Silverwing, Ulf recebeu poder, mas continuou sendo tratado como uma presença inconveniente, vulgar e descartável. Ormund, ao contrário, oferece respeito, títulos e a possibilidade de ascensão. Primeiro, sugere Honeyholt. Depois, avança ainda mais e menciona Driftmark e o título de Senhor das Marés, prometendo a Ulf um lugar que nem sequer tem autoridade legítima para entregar.
A ironia é que Corlys, o verdadeiro Senhor das Marés, está preso justamente em Tumbleton. Ulf poderá enxergar diante de si o homem cujo nome, terras e legado acredita estar prestes a receber.
Ormund não criou a ambição de Ulf. Apenas fez com que ela parecesse legítima.

Como Hugh se tornará o segundo traidor?
Com Hugh, a série ainda precisa construir a virada.
Diferentemente de Ulf, ele não parece movido inicialmente por títulos ou pela vontade de ocupar o lugar de outro homem. Hugh conhece a fome, perdeu uma filha e se tornou cavaleiro de Vermithor acreditando que poderia proteger a família e contribuir para uma causa maior. Seu ponto vulnerável não é a vaidade, mas Kat.
Rhaenyra sabe que a esposa de Hugh está em Tumbleton, assim como sabe que seu interesse pela cidade é pessoal. Ormund também deve ter compreendido isso. Se quiser conquistar Vermithor, não precisará oferecer um castelo a Hugh. Bastará convencê-lo de que Rhaenyra abandonou Kat, colocou sua vida em risco ou chegou tarde demais para salvá-la.
A diferença entre os dois pode ser resumida de maneira simples: Ulf é comprado; Hugh precisa ser quebrado.
A grande pergunta do último episódio não é mais se os dois trairão Rhaenyra, mas como Hugh será levado a se unir a um homem cujas motivações são tão diferentes das suas.

Ormund pode morrer, mas seu plano sobreviverá
Em Fogo & Sangue, Ormund Hightower morre na Primeira Batalha de Tumbleton, ferido mortalmente por Roderick Dustin, o Roddy, o Ruína. Sua morte deveria desorganizar os Verdes, mas acontece no mesmo confronto em que Hugh e Ulf mudam de lado e lançam Vermithor e Silverwing contra os defensores da cidade.
Na série, Ormund se tornou muito mais do que o comandante que cai durante a batalha. Ele é o arquiteto da traição.
Ao perceber as fragilidades dos cavaleiros de Rhaenyra, Ormund criou uma estratégia capaz de continuar funcionando mesmo depois de sua morte. Caso caia em Tumbleton, ainda poderá vencer: terá retirado dois dos maiores dragões dos Pretos e deixado Daeron dependente de homens que não respeitam verdadeiramente nenhuma autoridade.
Ormund passou a temporada tentando transformar Daeron no rei que poderia controlar. A ironia é que talvez morra no momento em que sua estratégia torna Daeron incapaz de controlar até o próprio exército. Considerando que House of the Dragon está tomando liberdades com o material original, eu tenho dúvidas de que nos despediremos de James Norton tão cedo.

Gwayne não deveria estar ali
Gwayne Hightower é uma das maiores incertezas do episódio.
No livro, ele deveria ter morrido defendendo Porto Real durante a tomada da cidade por Rhaenyra. A série o retirou desse acontecimento, preservou sua vida e o levou até Tumbleton, onde ganhou uma função muito mais complexa graças também à interpretação de Freddie Fox.
Gwayne não é apenas mais um comandante Verde. Ele se tornou o contraponto moral e emocional de Ormund. Enquanto Ormund manipula Daeron, estimula sua ambição e tenta transformá-lo em alternativa a Aegon e Aemond, Gwayne parece interessado em proteger o sobrinho do projeto político que estão construindo ao redor dele.
Por já ter ultrapassado o momento de sua morte no livro, é difícil imaginar que Gwayne atravesse também Tumbleton sem consequências. Sua presença parece apontar para algum destaque decisivo no episódio, provavelmente ligado à proteção de Daeron.
Se morrer, sua perda poderá ser ainda mais dolorosa para o jovem príncipe do que a morte de Ormund. Daeron ficaria livre de quem o manipulava, mas perderia ao mesmo tempo o homem que tentava preservar sua humanidade.
Gwayne pode morrer protegendo Daeron justamente da vitória que Ormund preparou para ele.

O que acontecerá com Corlys?
A presença de Corlys Velaryon em Tumbleton é uma mudança ainda mais radical.
Em Fogo & Sangue, Corlys permanece como Mão da Rainha, embora seus conselhos sejam cada vez mais ignorados por uma Rhaenyra desconfiada e paranoica. O rompimento definitivo acontece quando, depois da traição de Hugh e Ulf, ela passa a suspeitar também de Addam e exige sua prisão. Corlys avisa o filho, ajuda-o a escapar e termina encarcerado.
A série antecipou e modificou quase todo esse processo. A relação entre Corlys e Rhaenyra nunca foi especialmente sólida, e o rompimento aconteceu muito antes. Ele deixou Addam no Conselho em seu lugar, partiu para combater os piratas que ainda ameaçavam Porto Real, foi capturado por Ormund, recusou-se a apoiar os Verdes e perdeu um dedo.
Agora está preso em Tumbleton, no centro de uma batalha da qual não participava no livro.
Corlys ainda possui funções muito importantes na parte final da guerra. Mais adiante, aproxima-se de Aegon II, ajuda a garantir a sobrevivência de Aegon, o Jovem, e é associado ao complô que termina com o envenenamento do rei. Mas a série já retirou ou alterou tantos elementos de sua trajetória que sua sobrevivência deixou de ser garantida.
Ele pode escapar durante o caos, ser libertado ou até mesmo usar a derrota dos Pretos para iniciar uma aproximação pragmática com Aegon II. Também pode ser uma das vítimas fatais de Tumbleton, deixando para Alyn e Addam partes de uma história que originalmente pertenciam a ele.
Pela importância política de Corlys, sua morte ainda parece menos provável que a de Gwayne. Mas sua presença na cidade existe para produzir alguma consequência.

Daeron vencerá, mas ficará sozinho
No livro, Daeron sobrevive à Primeira Batalha de Tumbleton. Depois da morte de Ormund, tenta controlar o saque e exige que os soldados interrompam a destruição da cidade, mas não consegue impor sua autoridade. Hugh e Ulf, fortalecidos pela vitória, passam a exigir recompensas maiores e se recusam a marchar contra Porto Real enquanto seus desejos não forem atendidos.
É nesse ambiente que Daeron percebe que os dois homens responsáveis pela vitória dos Verdes também se tornaram sua maior ameaça.
Mais adiante, com Aegon II desaparecido e Aemond morto, Daeron passa a ser considerado o principal herdeiro Verde. Quando Hugh sugere que ele próprio deveria ser rei, Daeron joga vinho em seu rosto e aprova rapidamente o plano dos Caltrops para eliminar os Dois Traidores. Somente na Segunda Batalha de Tumbleton é que Daeron, Hugh e Ulf encontram seus destinos finais, embora a forma exata da morte do príncipe nunca seja esclarecida.
A série deve mostrar apenas a primeira batalha nesta temporada. Portanto, Daeron provavelmente sobreviverá, mas poderá terminar o episódio sem Ormund, talvez sem Gwayne e completamente incapaz de comandar Hugh e Ulf.
Até aqui, Daeron foi construído como um menino isolado, pressionado por homens que querem decidir quem ele deve ser. Tumbleton pode transformá-lo no principal nome dos Verdes no mesmo instante em que evidencia que ele ainda não possui poder real.
Ter Tessarion não significa controlar Vermithor e Silverwing. Ser príncipe não significa que dois homens montados em dragões estarão dispostos a obedecê-lo.

Aegon II já não pode ser considerado morto
Enquanto Tumbleton redefine a liderança dos Verdes, Aegon II também volta inesperadamente ao tabuleiro.
Aegon estava escondido nas florestas, desacreditado, ferido e oficialmente dado como morto. Mas o reaparecimento de Sunfyre muda novamente a trajetória conhecida. Quando as tropas de Lord Mooton cercaram Aegon e Tyland Lannister, o dragão que todos julgavam morto surgiu entre as árvores e queimou os homens enviados por Rhaenyra.
Mesmo que ninguém saiba exatamente onde Aegon está, será difícil manter por muito tempo em segredo o desaparecimento de um exército e o retorno de um dragão dourado. Rhaenyra talvez ainda não descubra sua localização, mas a certeza de que o rival está morto pode desaparecer.
Isso complica também a posição de Daeron. Se Aegon continua vivo, o jovem príncipe não é o herdeiro imediato dos Verdes. Se Aegon permanece desaparecido, os lordes podem tentar usar Daeron como alternativa. E, se Hugh e Ulf acreditarem que possuem poder suficiente para decidir quem ocupará o trono, nenhuma linha sucessória terá importância diante de Vermithor e Silverwing.

Uma derrota dos Pretos que não representa uma vitória dos Verdes
Tumbleton deve encerrar a temporada com uma derrota inequívoca para Rhaenyra. Ela perderá a cidade, parte de seu exército e dois dos dragões que deveriam garantir sua superioridade. Hugh e Ulf provarão que oferecer poder não é o mesmo que conquistar lealdade.
Mas os Verdes também não sairão verdadeiramente vencedores.
Ormund pode morrer. Gwayne corre grande risco. Corlys pode escapar ou se tornar uma vítima imprevisível. Daeron ficará cercado por homens que não o respeitam. Aegon está vivo, mas continua desaparecido. E Hugh e Ulf terão aprendido que possuir dragões lhes permite exigir terras, títulos e talvez uma coroa.
A partir de Tumbleton, a guerra deixa de ser apenas uma disputa entre Rhaenyra e Aegon. Torna-se uma luta para controlar armas que já não reconhecem nenhum dos dois lados.

A população de Westeros também terá mais motivos para se voltar contra os Targaryen. Na disputa pelo Trono de Ferro deixado por Viserys — em tese para Rhaenyra e, para os Verdes, legitimamente herdado por Aegon — nenhum de seus filhos parece realmente preparado para liderar ou interessado em proteger aqueles que deveriam governar. A essa altura, a guerra já é menos sobre convicção ou capacidade e muito mais sobre força, orgulho e sobrevivência.
As derrotas se acumulam dos dois lados, mas são sempre os habitantes das cidades, as famílias e os soldados comuns que queimam primeiro.
A Primeira Batalha de Tumbleton encerra a temporada. A segunda ainda virá. Entre uma e outra, ficará a pergunta que deve definir a reta final de House of the Dragon: o que acontece quando homens comuns recebem dragões e descobrem que já não precisam obedecer a reis?
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