Como publicado no Caderno B+
À primeira vista, Ted Lasso é uma série sobre futebol. Depois de alguns episódios, entendemos que o esporte é apenas o campo escolhido para falar sobre saúde mental, amizade, liderança, masculinidade e tudo o que acontece quando pessoas feridas tentam ajudar umas às outras. Mas, olhando para a trajetória de Ted desde o início, talvez exista uma história ainda mais central: a de um homem tentando aprender a ser pai sem repetir a dor que recebeu do próprio pai.
Até aqui, mais do que futebol, Ted Lasso apresentou diferentes maneiras de ser pai e de carregar aquilo que recebemos deles. Jamie Tartt cresceu sob a violência e a humilhação de um pai abusivo. Rebecca precisou elaborar a relação com um pai mulherengo e emocionalmente ausente. Nate passou boa parte da vida tentando conquistar o reconhecimento de um pai exigente, silencioso e incapaz de demonstrar orgulho pelo filho, uma falta que alimentou sua insegurança e o levou pelo arco mais doloroso da série. Sam Obisanya encontrou em Ola um pai carinhoso, presente e capaz de orientá-lo sem controlar suas escolhas. Higgins, muitas vezes relegado ao papel cômico, é também um dos pais mais afetuosos e estáveis da história. Roy Kent tornou-se uma espécie de tio-pai para Phoebe, criada pela irmã solteira, oferecendo à sobrinha a presença, a proteção e a escuta que ele próprio nem sempre sabe demonstrar aos adultos. E, no centro de tudo, está Ted: filho de um homem que morreu cedo demais e pai de um menino de quem teme estar igualmente ausente.

Ted é apresentado como alguém incansavelmente disposto a acolher. Ele escuta, observa, perdoa e encontra uma palavra de incentivo até para quem o despreza. Sua positividade parecia, no início, quase uma característica natural, como se ele simplesmente tivesse nascido mais generoso, paciente e otimista do que o restante de nós. Mas, quando conhecemos sua história com o próprio pai, entendemos que aquela luz também escondia uma ferida.
A série revelaria depois que aquela luz também escondia uma ferida. Quando Ted tinha 16 anos, seu pai morreu por suicídio. O segredo aparece na segunda temporada, durante o processo terapêutico com a dra. Sharon, e muda nossa percepção sobre tudo o que havíamos visto antes. Ted não tenta salvar as pessoas apenas porque é bondoso. Ele aprendeu muito cedo o que acontece quando alguém sofre em silêncio e ninguém consegue alcançá-lo a tempo.
Sua dedicação aos outros nasce, em parte, de uma promessa íntima: nunca permitir que alguém próximo se sinta tão sozinho quanto seu pai provavelmente se sentiu.
Há beleza nisso, mas também uma armadilha. Ted se torna tão competente em cuidar dos problemas alheios que demora a reconhecer os próprios. Ajuda atletas, colegas e até adversários, enquanto atravessa ataques de pânico, o fim do casamento e a distância do filho com um sorriso que nem sempre corresponde ao que sente.
Por isso, não diria que Ted é um pai exemplar porque nunca falha. Durante boa parte da série, ele vive em outro continente e sabe o quanto sua ausência custa a Henry. Sua grande qualidade como pai está justamente em não fingir que essa distância não importa. Ele tenta escutar o filho, percebe sua tristeza e, finalmente, aceita que o sucesso profissional já não compensa tudo o que está perdendo.

No fim da terceira temporada, Ted está no auge. Conquistou o respeito da torcida, transformou o AFC Richmond e construiu na Inglaterra uma família afetiva que o ama profundamente. Ainda assim, escolhe ir embora. Não porque tenha fracassado, mas porque compreende que nenhuma vitória devolveria os anos que deixasse de viver ao lado de Henry.
A última imagem daquela fase não mostra Ted levantando uma taça. Mostra-o à beira do campo, treinando o time do filho no Kansas. A escolha de voltar encerrou a temporada que parecia ser a última e reafirmou que, para ele, o maior sucesso nunca esteve realmente no futebol.
A quarta temporada, porém, apresenta um desafio ainda mais interessante. Ted está novamente perto de Henry, trabalhando longe do futebol e tentando ajudá-lo a se tornar a melhor versão de si mesmo. Quando recebe o convite para voltar ao Richmond e treinar a nova equipe feminina, sua primeira reação é hesitar. Ele teme que aceitar signifique repetir a ausência que tentou corrigir.
É sua mãe, Dottie, quem oferece uma perspectiva diferente: também é importante para um menino ver o pai fazer algo que ama. A frase desloca toda a questão. Ser um bom pai não deveria exigir que Ted desaparecesse como indivíduo, abandonasse sua vocação ou transformasse a presença em sacrifício permanente. O novo caminho será construído com Henry, e não longe dele. Ao final do primeiro episódio, Ted considera a mudança para Londres com o filho e Michelle, integrando família e trabalho de uma maneira que antes parecia impossível.
Talvez seja esse o passo mais difícil para alguém que cresceu marcado pela perda do pai. Ted passou a vida acreditando que amar significava permanecer disponível para salvar os outros. Primeiro, precisou aprender que não conseguiria salvar todo mundo. Depois, que deveria estar presente para o filho. Agora, começa a descobrir que estar presente não significa deixar de viver.

A paternidade de Ted não é construída pela autoridade. Ele não precisa ser o homem que possui todas as respostas, esconde a tristeza ou vence qualquer dificuldade sozinho. Ao contrário, sua maior força aparece quando admite medo, procura ajuda, pede desculpas e muda de direção.
Ele também oferece a Henry algo que o próprio pai não conseguiu lhe deixar: a possibilidade de falar sobre a dor antes que ela se transforme em silêncio.
Neste Dia dos Pais, talvez por isso Ted Lasso seja uma figura tão comovente. Não porque represente um modelo perfeito, mas porque mostra que a paternidade também pode ser uma reparação. Ted não pode mudar o que aconteceu com seu pai, nem apagar o impacto daquela perda. Pode, porém, interromper a repetição. Pode voltar. Pode ficar. E, desta vez, pode levar o filho com ele.
Feliz Dia dos Pais!
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