The Shards: Ryan Murphy mistura luxo, sexo e morte

O texto contém spoilers dos dois primeiros episódios de The Shards.

Talvez nenhuma série pudesse ser mais Ryan Murphy do que Estilhaços (The Shards). Há adolescentes extremamente ricos, casas espetaculares, Los Angeles no início dos anos 1980, sexo, drogas, homossexualidade escondida, gente perigosamente bonita, violência gráfica, um serial killer e uma cuidadosa reconstrução de época embalada por uma trilha sonora irresistível. Para completar, há nepo babies no elenco, incluindo uma combinação tão improvável que parece ter sido inventada pelo próprio Murphy: a filha de Cindy Crawford e o filho de Richard Gere, ex-marido de Crawford, estão na mesma série.

A surpresa é perceber que Murphy não precisou impor suas obsessões ao romance de Bret Easton Ellis. Quase todas já estavam ali esperando por ele.

Publicado em 2023, The Shards é uma autoficção na qual Ellis volta a Los Angeles de 1981 e transforma uma versão adolescente de si mesmo no protagonista. Bret tem 17 anos, estuda na exclusiva Buckley School, pertence a um grupo de jovens ricos e bonitos, largamente deixados à própria sorte pelos pais, e começa a escrever aquele que se tornaria seu primeiro romance, Less Than Zero. Ao mesmo tempo, esconde sua sexualidade, circula entre a namorada e amantes secretos e se torna cada vez mais obcecado por Robert Mallory, o misterioso novo aluno que desperta nele desejo, ciúme, medo e desconfiança em proporções quase iguais.

Tudo isso acontece enquanto Los Angeles é aterrorizada por um assassino conhecido como Trawler, que sequestra jovens, invade suas casas, telefona para as vítimas e devolve corpos brutalmente mutilados. Bret rapidamente se convence de que Robert está de alguma forma ligado aos crimes.

O problema é que Robert chega até nós principalmente através de Bret.

Robert Mallory é o assassino ou uma criação de Bret?

A série monta essa armadilha desde o início. Bret, interpretado por Igby Rigney, vê Robert pela primeira vez antes de sua chegada a Buckley, durante uma sessão de O Iluminado. Quando finalmente se encontram na escola, Robert garante que nunca esteve naquele cinema. Bret imediatamente trata a mentira como prova de que há algo errado. Mas prova de quê?

A escolha de O Iluminado dificilmente parece casual. Bret é um futuro escritor assistindo a uma história sobre um escritor cuja percepção da realidade se deteriora até a violência. Antes mesmo de termos informações suficientes para suspeitar de Robert, Bret já começou a construir uma narrativa em torno dele.

É aí que The Shards fica muito mais interessante do que um mistério convencional sobre um serial killer. Bret não está apenas tentando descobrir uma história. Está aprendendo a criá-la.

No romance, essa subjetividade é ainda mais radical. Robert é uma presença escorregadia porque é difícil separar quem ele realmente é daquilo que Bret imagina que ele seja. Até detalhes de sua aparência mudam, enquanto Bret se torna cada vez mais habilidoso em transformar fragmentos, suspeitas e desejos numa teoria coerente. Em determinado momento, o leitor começa a fazer exatamente a mesma coisa.

Murphy, porém, não é exatamente um realizador inclinado a deixar espaços vazios. Ellis consegue nos manter dentro da incerteza. Murphy quer que alguma coisa aconteça.

Por enquanto, essa diferença funciona surpreendentemente bem.

Em The Shards, privilégio também significa abandono

Esses adolescentes fumam em restaurantes de toalhas brancas, atravessam Los Angeles sem horário para voltar, usam drogas, fazem sexo escondido e vivem em casas enormes nas quais os pais mal parecem existir.

No começo, essa liberdade parece invejável. Depois, torna-se inquietante. Bret está praticamente sozinho enquanto seus pais viajam pela Europa. Outros adolescentes conseguem desaparecer sem que suas famílias percebam imediatamente. Eles vivem como adultos não porque sejam maduros, mas porque quase ninguém ao redor deles está realmente se comportando como um. E os adultos que aparecem dificilmente oferecem segurança.

Terry Schaffer, pai de Debbie e poderoso produtor de Hollywood interpretado por Wes Bentley, demonstra interesse crescente tanto pelo romance que Bret começa a escrever quanto por sua vida sexual. Liz, vivida por Evan Rachel Wood, parece anestesiar a própria infelicidade com drogas, álcool e explosões emocionais. Steven, assistente de Terry interpretado por Jordan Roth, completa uma casa na qual os adolescentes talvez sejam justamente as pessoas menos alarmantes.

Então Robert chega.

Homer Gere precisa apenas entrar em cena para entendermos por que Bret não consegue parar de olhar para ele. Robert é bonito, seguro e impossível de decifrar. Também parece perceber muito rapidamente aquilo que Bret tenta esconder. Quando começa a se aproximar dos amigos de Bret e, principalmente, de homens com quem ele teve relações secretas, a atração se transforma em paranoia.

Em determinado momento, Robert sugere que, quando Bret fala com ele, talvez esteja na verdade falando consigo mesmo. Pode ser apenas uma provocação. Também pode ser a chave de toda a história.

Robert é o monstro ou o espelho?

O Trawler entra na vida secreta de Bret

O mistério se torna pessoal através de Matt. Alguém telefona para ele, invade seu espaço, o aterroriza e deixa sinais que parecem conectados ao Trawler. Matt suspeita de Bret e revela que Robert andou fazendo perguntas sobre a relação dos dois. Depois, Matt desaparece.

Quando Bret recebe uma gravação com os sons de sua tortura, a natureza da ameaça muda completamente. Quem enviou aquela fita não conhece apenas Matt. Conhece Bret e sabe o que ele está escondendo. O serial killer atravessou a fronteira entre o horror distante noticiado pelos jornais e a vida sexual secreta do protagonista.

Robert se transforma no suspeito óbvio, talvez óbvio demais. Ele mente, faz perguntas, aparece perto demais das pessoas certas e parece quase se divertir com a desconfiança de Bret. Mas também existem os Riders of the Afterlife, invasões, símbolos e indícios de que mais de uma ameaça pode estar agindo ao mesmo tempo.

Robert pode ser o assassino. Pode conhecer o assassino. Pode estar envolvido sem ser o Trawler. Ou Bret pode estar forçando acontecimentos diferentes a caberem dentro de uma mesma narrativa porque conectar fragmentos já está se tornando parte da maneira como ele enxerga o mundo.

Essa incerteza é muito mais interessante do que simplesmente perguntar quem cometeu os assassinatos.

Ryan Murphy transforma 1981 em espetáculo

Enquanto o horror cresce, Murphy constrói um 1981 quase obscenamente bonito. E é importante que não sejam os anos 80 transformados na caricatura neon que a televisão tantas vezes recria. A década mal começou. Os anos 70 ainda estão visíveis nos interiores, nas roupas, nos carros e no cinema, enquanto outra paisagem cultural começa a surgir.

A New Hollywood está desaparecendo. Heaven’s Gate se tornou símbolo de seu colapso. A MTV está chegando. Os videoclipes começam a transformar a cultura pop. Bret, enquanto isso, atravessa a passagem da adolescência para a vida adulta e começa a imaginar o escritor que será.

Há também outra transformação chegando, uma que ele não consegue enxergar.

Bret é um adolescente gay descobrindo sexo e desejo em 1981, quando os primeiros casos de AIDS começam a ser identificados nos Estados Unidos. Isso torna especialmente difícil ouvir de maneira inocente sua descrição de Robert como um “vírus” entrando naquele grupo e ameaçando destruí-lo. Os personagens vivem sexo, drogas e liberdade como descoberta sem imaginar como a década transformará brutalmente o significado de tudo isso. Esse conhecimento histórico dá à série sua camada mais eficiente de nostalgia. As piscinas, os carros, a música, as festas e as roupas impecáveis seduzem, mas há melancolia por baixo.

A beleza importa porque sabemos que o mundo deles está prestes a mudar.

Kaia Gerber e Homer Gere transformam o nepo baby em metalinguagem

E então chegamos ao elenco, onde Ryan Murphy talvez tenha conseguido ser ainda mais Ryan Murphy.

Como falei, Kaia Gerber, que interpreta Susan, é filha de Cindy Crawford e Rande Gerber. Homer Gere, que vive Robert, é filho de Richard Gere e Carey Lowell. Cindy Crawford foi casada com Richard Gere entre 1991 e 1995. Ou seja, Murphy escalou a filha de Cindy Crawford e o filho de seu ex-marido para interpretar dois jovens bonitos e privilegiados numa história sobre a elite de Los Angeles, e seus personagens ainda sentem atração um pelo outro. Eles obviamente não têm qualquer parentesco, mas a conexão pop é boa demais para ser ignorada.

A brincadeira ganha outra camada porque American Gigolo, estrelado por Richard Gere e lançado em 1980, pertence exatamente ao universo de sexo, beleza, dinheiro e Los Angeles que The Shards está reconstruindo. Homer entra nessa ficção carregando no próprio rosto uma das referências culturais daquele período. E, de algum modo, a árvore genealógica consegue ficar ainda mais improvável: Carey Lowell foi casada com Griffin Dunne, sobrinho de Joan Didion, cuja obra é uma referência importante para Ellis e para o jovem Bret mostrado aqui.

Chamar Gerber e Gere simplesmente de nepo babies quase perde a graça. Há uma espécie de arqueologia de celebridade acontecendo diante da câmera: descendentes da mitologia de Hollywood interpretando os filhos privilegiados de uma Hollywood ficcionalizada.

Artificial? Claro.

Perfeito para Ryan Murphy? Absolutamente.

Existem duas versões de The Shards

Esse casting também ajuda a entender por que The Shards parece funcionar em dois níveis diferentes.

Na superfície, pode ser assistida como um thriller adolescente caro: política escolar, sexo, romances, segredos, gente bonita e assassinato. Algo como uma prima mais elegante de Riverdale ou Pretty Little Liars. Mas há outra série escondida por baixo.

Temos O Iluminado, Chinatown, Heaven’s Gate, American Gigolo, Joan Didion, o fim da New Hollywood, a MTV, a América de Reagan e a AIDS surgindo no horizonte. Todas essas referências importam porque Bret não está simplesmente sobrevivendo ao último ano da escola. Ele está assistindo ao desaparecimento de um mundo cultural enquanto se transforma na pessoa que depois escreverá sobre ele.

A questão é se Murphy conseguirá manter essas duas séries juntas.

Ryan Murphy e Bret Easton Ellis: combinação perfeita ou impossível?

Essa pergunta também explica a recepção crítica tão dividida. Há quem veja The Shards como uma volta de Murphy à boa forma e beleza visual, à música e à capacidade de transformar reconstrução de época em verdadeiro desejo por uma juventude desaparecida. Mas outros enxergam algo mais contraditório porque Murphy e Ellis compartilham interesse por provocação, cultura pop, assassinos, sexualidade e pela experiência de crescer gay mais ou menos no mesmo período, mas seus instintos narrativos são fundamentalmente diferentes. Enquanto Murphy amplia e explica, Ellis desconfia das explicações.

Uma terceira vertente argumenta que Murphy praticamente “Glee-ificou” Ellis, transformando parte da incerteza e da distância emocional do romance em melodrama televisivo convencional. Isso deixa a pergunta mais interessante para os próximos episódios: Murphy está retratando a superficialidade daquele mundo ou a própria série acabou seduzida pela superfície?

Porque Ellis sempre se interessou por pessoas bonitas cercadas de dinheiro, sexo e cultura pop enquanto alguma coisa apodrece por baixo. Se The Shards se tornar apenas bonita, sexy, violenta e cheia de referências, a adaptação corre o risco de reproduzir aquilo que deveria estar observando. Depois de dois episódios, porém, isso ainda não aconteceu.

O excesso continua sedutor e inquietante. Igby Rigney faz de Bret alguém suficientemente distante para que desconfiemos dele, enquanto Homer Gere transforma Robert numa figura simultaneamente atraente e ameaçadora sem determinar exatamente o que qualquer uma dessas características significa. Mais importante: ainda não sabemos se estamos vendo Bret descobrir um criminoso ou criar um personagem.

E talvez essa seja a verdadeira história de The Shards. Enquanto um serial killer transforma pessoas em corpos, Bret Easton Ellis começa a transformar pessoas em ficção.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário