Faltam poucas horas para o final da terceira temporada de House of the Dragon e, embora a Primeira Batalha de Tumbleton prometa entregar fogo, sangue e provavelmente algumas despedidas importantes, há outra disputa sendo construída silenciosamente pela série. Não exatamente sobre quem tem direito ao Trono de Ferro, porque a essa altura cada lado já tem seus argumentos e sua torcida, mas sobre quem está aprendendo a lidar melhor com o poder. E, sobretudo, sobre o que a série está fazendo com Rhaenyra Targaryen justamente quando finalmente a coloca perto de se transformar na rainha que ela acredita ter nascido para ser.

Sete episódios atrás, a resposta pareceria óbvia. Rhaenyra foi criada sabendo que seria rainha, acompanhou Viserys, conheceu o Conselho, governou Dragonstone e passou a vida inteira convivendo com as consequências de ser a primeira mulher escolhida para herdar o Trono de Ferro. Aegon nunca quis ser rei, nunca foi preparado para isso e foi apresentado como um jovem mimado, irresponsável, cruel e absolutamente inadequado para qualquer posição de liderança.
Ainda assim, os dois chegam ao final da temporada em curvas quase opostas. Não porque Aegon tenha sido redimido ou porque Rhaenyra tenha se transformado em vilã. Seria simplificar demais personagens que House of the Dragon finalmente está tornando mais interessantes. Mas, enquanto Aegon começa a reconhecer suas limitações, Rhaenyra parece cada vez mais convencida de que existe algo maior dizendo que ela precisa prevalecer.
Curiosamente, os dois são produtos do mesmo fracasso: Viserys.
Viserys escolheu Rhaenyra, mas não a preparou
Como falei, Viserys nunca duvidou publicamente de sua escolha. Rhaenyra seria sua herdeira. O problema é que nomear alguém para um cargo não significa preparar essa pessoa para exercê-lo, muito menos construir a estrutura necessária para que consiga mantê-lo. Ao se casar novamente, ter filhos homens e passar anos fingindo que a evidente crise sucessória criada por suas próprias decisões desapareceria porque ele mandava que desaparecesse, Viserys deixou para a filha uma legitimidade que dependia essencialmente de sua palavra.

Quando morreu, Rhaenyra descobriu que ter sido escolhida pelo rei não significava possuir um reino disposto a reconhecê-la.
A terceira temporada escancarou outra fragilidade que talvez seja ainda mais importante: Rhaenyra tem enorme dificuldade para formar uma equipe. E isso é mais grave do que perder uma batalha. Se uma rainha não consegue administrar as pessoas que estão ao seu redor, estabelecer confiança, identificar competências, escutar conselhos e manter aliados próximos, como pretende administrar Westeros? Ela deseja conquistar um reino antes mesmo de conseguir organizar plenamente a própria corte.
Corlys Velaryon talvez seja um dos exemplos mais frustrantes dessa construção. Em Fire & Blood, ele representa exatamente o tipo de figura que Rhaenyra deveria querer ao lado: experiência, riqueza, frota, pragmatismo, enorme conhecimento político e uma vida inteira entendendo como o poder funciona. Na série, sua adesão à causa dos Pretos foi construída de forma muito mais relutante e, mesmo quando ocupa formalmente o lugar de Mão, raramente temos a sensação de que existe entre ele e Rhaenyra aquela parceria política forte capaz de estabilizar um governo em guerra. Ela possui um dos homens mais experientes de Westeros ao seu lado, mas a série não constrói a impressão de que sabe realmente utilizá-lo.


Daemon é um caso ainda mais revelador. Neste momento, ele está comprometido com Rhaenyra e com a causa dela, mas a própria série passou tempo demais plantando dúvidas sobre sua lealdade para que essas dúvidas possam simplesmente desaparecer. Daemon já cogitou o próprio poder, já desafiou Rhaenyra e conhece suas inseguranças talvez melhor do que qualquer pessoa.
Pode estar sendo absolutamente sincero agora e, mesmo assim, existe um histórico pronto para ser explorado sempre que alguém quiser despertar nela a sensação de que o marido deseja tomar aquilo que é seu. Mysaria entende isso muito bem.
Não significa que tudo o que Mysaria diz seja mentira ou manipulação. Significa que ela sabe ocupar emocionalmente um espaço no qual Rhaenyra é vulnerável. Sabe confirmar sua importância, sua visão de mundo e a ideia de que está enxergando algo que os outros não conseguem ver.
Quando Daemon apresenta uma verdade desagradável, Rhaenyra frequentemente se retrai, desconfia ou reage como se a crítica fosse uma ameaça à sua autoridade. Quando Mysaria oferece uma leitura que confirma aquilo em que ela já gostaria de acreditar, encontra uma rainha muito mais receptiva. E esse é um problema enorme para qualquer governante.


Quando a profecia deixa de ser responsabilidade
Talvez a transformação mais importante de Rhaenyra nesta temporada não esteja na guerra, mas na profecia. Ao longo dos sete episódios, ela se aproximou perigosamente de uma posição que conhecemos muito bem nas histórias dos Targaryen: aquela em que convicção política, identidade e destino começam a se misturar. Rhaenyra já não acredita apenas que possui direito ao Trono de Ferro. Começa a acreditar que existe um propósito maior justificando sua ascensão.
A Canção de Gelo e Fogo, transmitida por Viserys como um segredo e inicialmente apresentada quase como um peso associado à Coroa, começa a mudar de função. Deixa de ser apenas responsabilidade e passa a funcionar como confirmação.
Emma D’Arcy já falou sobre essa crescente religiosidade da personagem e sobre uma espécie de radicalização que pode se aproximar do fanatismo religioso. Ryan Condal também prometeu uma transformação profunda para Rhaenyra nesta temporada, e talvez a questão seja justamente observar onde termina a convicção de uma mulher que passou a vida tendo sua legitimidade questionada e onde começa a certeza perigosa de alguém que acredita ter sido escolhida.

É impossível não lembrar de Daenerys. Não porque Rhaenyra precise repetir seu arco ou porque toda mulher Targaryen precise necessariamente terminar consumida pela loucura. O paralelo interessante está em outra coisa: na transformação de uma reivindicação política em certeza messiânica.
Daenerys também passou progressivamente a interpretar sua trajetória como evidência de que havia algo maior em seu destino. Rhaenyra começa a se aproximar dessa mesma armadilha quando deixa de pensar apenas “este trono é meu por direito” e passa a acreditar “eu preciso estar neste trono porque existe uma razão maior para que eu esteja aqui”.
E é importante lembrar que essa dimensão messiânica de Rhaenyra é, em grande parte, uma construção da adaptação. Fire & Blood não oferece à personagem esse mesmo vínculo com a profecia de Aegon nem constrói sua atuação política por esse prisma. Portanto, não estamos falando apenas de uma pequena alteração de roteiro. A série está mexendo estruturalmente na personagem e criando para ela uma motivação que muda a forma como interpretamos suas decisões.
A Joana d’Arc Targaryen
A imagem mais evidente dessa transformação pode aparecer justamente no episódio final: Rhaenyra de armadura, pronta para participar pessoalmente da guerra.
Emma D’Arcy defendia havia tempo que a personagem deveria empunhar uma arma e assumir um papel mais ativo, e a série incorporou essa vontade. Isso também representa uma alteração importante em relação ao lugar que Rhaenyra ocupa na história original.

Não é apenas colocar uma espada na mão da protagonista porque visualmente fica bonito. É mudar a linguagem da personagem. Existe algo quase de uma Joana d’Arc Targaryen nessa imagem. Uma mulher de armadura, conduzida pela certeza de que existe uma missão maior, enfrentando homens que questionam sua legitimidade e decidida a participar pessoalmente de uma guerra em nome daquilo em que acredita.
E há ainda uma questão importante nessa mudança. Durante muito tempo, Rhaenyra foi escrita como personagem reativa. Sofreu perdas, hesitou, tentou evitar a guerra, ponderou consequências e assistiu a acontecimentos se acumularem ao redor dela. Agora, quando finalmente a série a transforma em agente da própria história, precisa tomar cuidado para não sugerir que a atividade feminina automaticamente equivale à radicalização. O interessante é justamente vê-la agir e, ao mesmo tempo, perceber que algumas dessas escolhas podem ser ruins.
O luto não torna ninguém automaticamente mais sábio
As perdas pessoais tornam tudo isso ainda mais complexo. Rhaenyra perdeu filhos, acumulou traumas e atravessou momentos em que deixou de reagir apenas como rainha para reagir como mãe. É impossível exigir racionalidade absoluta diante desse tipo de dor. Ao mesmo tempo, uma guerra não suspende suas consequências porque o luto é justificável. A dor pode produzir desejo de vingança, ressentimento e necessidade de encontrar sentido para aquilo que foi perdido.


Talvez exista aí outra questão importante sobre a forma como a série vem escrevendo Rhaenyra. Durante muito tempo, permitiu que ela sofresse, hesitasse e lamentasse, mas evitou dar a ela a mesma liberdade às emoções consideradas menos nobres, como raiva, ambição, ressentimento ou vingança.
Isso é particularmente curioso quando lembramos que estamos falando de uma guerra civil. Alicent também foi suavizada e reconstruída diversas vezes pela adaptação, e as duas mulheres centrais acabaram frequentemente colocadas na posição de tentar frear a guerra que os homens ao redor supostamente desejavam travar. Não é limitação de Emma D’Arcy ou Olivia Cooke. É escolha de escrita. Agora, quando House of the Dragon finalmente permite que Rhaenyra se torne mais ativa, a série precisa lidar com a consequência dessa decisão sem transformar atividade automaticamente em descontrole.
O povo não vive de profecias
Enquanto Rhaenyra mergulha em símbolos, profecias, dragões e destino, existe um elemento que insiste em permanecer brutalmente concreto: o povo. Ela parece acreditar que as pessoas reconhecerão nela aquilo que ela própria passou a reconhecer em si mesma. Mas Westeros já demonstrou inúmeras vezes que não funciona assim.
O povo está com fome, assustado, inseguro e, na maior parte do tempo, profundamente indiferente a quem ocupa o Trono de Ferro. A pergunta de quem tem o melhor argumento genealógico interessa muito menos do que comida chegando à mesa, segurança nas ruas e alguma possibilidade de sobreviver até o dia seguinte.
É uma das ironias mais interessantes desta temporada. Rhaenyra passa a acreditar cada vez mais em lendas e profecias justamente quando governar exige decisões concretas. Imagina que o povo poderá apoiá-la porque sua causa é legítima, mas legitimidade dinástica não alimenta ninguém. E voltamos ao problema inicial: se ela sequer consegue construir uma equipe sólida, como pretende conquistar a confiança de milhões de pessoas que não conhecem sua profecia, não convivem em Dragonstone e não têm qualquer razão pessoal para acreditar que sua vitória melhorará suas vidas?
Daenerys também descobriu que conquistar ou libertar um povo era muito diferente de governá-lo. Rhaenyra corre o mesmo risco ao confundir legitimidade com apoio popular. Talvez o povo simplesmente não se importe.

Dragões não substituem política
Tumbleton pode ser o lugar em que todas essas contradições finalmente se encontrem. Em teoria, os Pretos entram nessa etapa com uma vantagem extraordinária: dragões. Só que Rhaenyra cometeu um erro importante ao tratar os novos cavaleiros quase como se tivesse simplesmente aumentado seu arsenal. Ela não ganhou novas armas: distribuiu pessoas montadas em armas nucleares. Ulf continua tendo vaidade, desejos, ressentimentos e ambições depois de montar um dragão. Hugh também.
Colocar uma pessoa sobre uma criatura capaz de destruir um exército não elimina sua individualidade. Transforma essa individualidade em questão de Estado. E Ormund Hightower percebeu isso.


A adaptação ampliou bastante sua importância e transformou Ormund em algo mais do que comandante militar. Ele observa pessoas, identifica fraquezas e parece entender que talvez não seja necessário derrotar um dragão se for possível conquistar o homem que está sentado sobre ele. Política, afinal, pode derrubar aquilo que a força militar sozinha não consegue e essa pode ser justamente a tragédia da Primeira Batalha de Tumbleton.
Os Pretos podem perder uma batalha que, matematicamente, parecem ter condições de vencer porque os Verdes compreenderam algo que Rhaenyra ainda não aprendeu completamente: dragões não substituem política. Também existe uma questão curiosa sobre o destino de Ormund.
Em Fire & Blood, sua trajetória está diretamente ligada à Primeira Batalha de Tumbleton. Será que a série realmente vai abrir mão agora de James Norton, um dos reforços mais interessantes desta temporada?
Pode perfeitamente acontecer. Game of Thrones nunca teve medo de contratar atores excelentes para participações relativamente curtas.
Mas, considerando quantas tramas e personagens a adaptação já mesclou ou alterou, também não seria surpreendente se seu destino fosse modificado justamente porque Ormund ganhou uma função estratégica muito maior na versão televisiva.


Aegon começa a aprender aquilo que Rhaenyra esquece
E então voltamos a Aegon, porque o contraste entre os dois pretendentes ao trono ajuda a revelar o que está acontecendo com Rhaenyra. Viserys falhou ainda mais evidentemente com o filho. Como nunca planejou que Aegon reinasse, também não parece ter se preocupado em encontrar para ele propósito, disciplina ou função. Aegon cresceu sabendo que o pai havia escolhido a irmã e chegou à vida adulta sem qualquer preparação para governar.
Quando colocaram a coroa sobre sua cabeça, provavelmente era a pessoa mais despreparada possível para recebê-la. Ele fez exatamente o que alguém assim faria. Confundiu poder com capacidade, quis ser amado porque jamais se sentira amado, tomou decisões impulsivas, foi cruel e pagou um preço brutal. Nada disso desapareceu. Aegon não foi absolvido pelo sofrimento e a série não precisa pedir que esqueçamos quem ele foi para reconhecer que algo mudou nele.
Perder quase tudo parece ter produzido justamente aquilo que a vitória ainda não produziu em Rhaenyra: consciência das próprias limitações. Sua relação com Larys é central para essa mudança.


Larys lhe diz verdades desagradáveis. Explica aquilo que Aegon não deseja enxergar sobre seu corpo, sua condição política, suas possibilidades e sua dependência dos outros. A primeira reação é resistência, mas ele escuta. Mais tarde, quando encontra alguém incapaz de lhe oferecer o mesmo grau de franqueza, já percebe a diferença. Talvez seja a primeira verdadeira lição de liderança que Aegon aprende. A pessoa que concorda com o rei nem sempre é a pessoa mais leal ao rei. Às vezes, lealdade é justamente correr o risco de dizer aquilo que ele não deseja ouvir.
Esse movimento cria um contraste quase perfeito com Rhaenyra.
Aegon começou cercado por pessoas que pretendiam governar através dele e começou a identificar quem realmente pode ajudá-lo. Rhaenyra faz o caminho inverso: parece cada vez mais atraída por quem valida suas certezas. Ele começa a aprender a ouvir aquilo que não quer; ela corre o risco de ouvir apenas aquilo em que deseja acreditar.
Helaena pode mudar tudo
E existe uma última peça capaz de tornar esse arco ainda mais cruel: Helaena. Se o final realmente ligar a morte de Helaena a Rhaenyra, ou simplesmente fizer com que Porto Real acredite que a nova rainha foi responsável por ela, a questão deixa de ser quem deu a ordem.
Politicamente, a verdade pode se tornar quase secundária. Governar também significa disputar a história que será contada sobre você, e Rhaenyra pode estar prestes a descobrir que é possível vencer uma batalha, ocupar uma cidade e ainda assim perder completamente essa disputa. Helaena é provavelmente a pior vítima possível para ela.

Helaena nunca foi construída como alguém disputando ativamente o poder e é talvez a figura dos Verdes mais facilmente percebida pelo povo como inocente. É vulnerável, traumatizada e foi arrastada pelas decisões da própria família. Se morre e a população acredita que Rhaenyra mandou matar a própria irmã, os Verdes ganham algo mais poderoso do que uma proclamação. Ganham um mártir.
É aí que o grotesco “Maegor com tetas” deixa de ser apenas um insulto e passa a resumir perfeitamente o perigo político para Rhaenyra. Evidentemente existe misoginia na expressão, assim como existe misoginia em toda a resistência histórica à sua reivindicação. Mas propaganda não precisa ser justa para funcionar, afinal, Maegor representa a imagem do Targaryen cruel, sanguinário e disposto a usar o terror para manter o trono. Se essa imagem passa a ser associada a Rhaenyra, explicar que sua reivindicação era legítima já não basta.
E que ironia extraordinária seria se isso acontecesse justamente quando ela finalmente vestisse a armadura. Rhaenyra pode entrar no campo de batalha como uma espécie de Joana d’Arc Targaryen, convencida de que assumiu o controle do próprio destino, enquanto nas ruas de Porto Real a santa já começa a ser chamada de Maegor. Não importa sequer se a acusação é verdadeira. Importa que o povo acredite nela.

A linha fina entre rainha e salvadora
Esse talvez seja o maior choque entre a Rhaenyra que existe dentro de sua própria cabeça e aquela que começa a existir para quem ela pretende governar. Para si mesma, pode ser a herdeira escolhida por Viserys, guardiã de uma profecia, mãe que sofreu perdas insuportáveis e mulher finalmente disposta a lutar por aquilo que sempre lhe disseram que era seu. Para quem passa fome em Porto Real, pode ser apenas mais uma Targaryen voando sobre suas cabeças em um dragão enquanto pessoas comuns morrem.
Isso não apaga a misoginia que sempre marcou sua trajetória. Mas reconhecer a injustiça sofrida por Rhaenyra não significa considerar todas as suas decisões corretas. Talvez seja exatamente aí que House of the Dragon fique mais interessante: ela pode ter razão sobre aquilo que lhe foi tirado e estar profundamente errada sobre como recuperá-lo.
Por isso, Tumbleton pode revelar muito mais do que quem vence a batalha. Pode mostrar em que posição política e emocional Rhaenyra chega à última temporada e se ainda consegue distinguir a legitimidade de sua causa da certeza de que foi escolhida para cumpri-la.
Rhaenyra pode perder o controle sobre quem os súditos acreditam que ela se tornou. E essa é uma derrota para a qual nem mesmo um dragão oferece solução.
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