The Last House: monstros, pandemia e uma metáfora que não conecta

Se The Last House tivesse chegado há quinze anos, talvez sua premissa exigisse um pouco mais de imaginação. Em 2026, não. O pesadelo de acordar, descobrir que não podemos sair de casa, não saber exatamente o que está acontecendo do lado de fora e acompanhar os recursos diminuindo enquanto o medo cresce ainda está próximo demais. Seis anos depois da pandemia, não precisamos imaginar isolamento, incerteza ou a sensação de que nossa casa deixou de ser apenas proteção para se transformar também em prisão. Basta lembrar.

E talvez seja justamente por isso que a primeira parte de The Last House funcione melhor do que todo o resto. Ann e Jason, vividos por Greta Lee e Wagner Moura, começam um dia comum com os filhos até descobrirem que portas e janelas estão bloqueadas por uma força invisível. Lá fora, chove sem parar e estranhas silhuetas se movimentam enquanto a família tenta entender não apenas como escapar, mas também quanto tempo conseguirá sobreviver com aquilo que tem.

É um ponto de partida eficiente porque mexe com um medo que conhecemos. O desconhecido está do outro lado da parede, mas o verdadeiro terror está dentro de casa, no relógio correndo, na comida terminando, na necessidade de conviver sem saída possível e, principalmente, na ausência de respostas. Quanto tempo ficaríamos bem? O que sacrificaríamos primeiro? O que uma família faria para continuar sendo uma família depois que todas as referências externas desaparecessem?

Greta Lee contou que foi justamente essa ideia que a atraiu para o filme: como fazer o máximo possível com o mínimo disponível. Para a atriz, o confinamento também propõe uma reflexão sobre consumo e sobre aquilo que realmente importa quando tudo o que considerávamos necessário deixa de existir. No fim, diz ela, restam a família, os vínculos e o amor. É uma boa ideia. O problema de The Last House é que praticamente todas as suas boas ideias são melhores quando explicadas do que quando dramatizadas.

Louis Leterrier parece querer seguir aquela tradição que Stephen King domina tão bem e que M. Night Shyamalan transformou em assinatura: o monstro nunca é apenas o monstro. A ameaça externa existe para revelar alguma coisa sobre nós mesmos. Medo, culpa, intolerância, luto, fé, violência, arrogância. Quando funcionou, descobrimos que estávamos olhando para a criatura enquanto a história falava de seres humanos.

Em The Last House, porém, a metáfora chega antes da emoção.

Depois de mais de cinco anos de confinamento, descobrimos que as criaturas não são extraterrestres. São seres ancestrais dos oceanos, habitantes da Terra muito anteriores à humanidade, que finalmente emergiram depois que nosso consumo, nossa poluição e o aquecimento do planeta destruíram seu habitat. Leterrier define a inversão claramente: pensamos estar assistindo a uma invasão alienígena até percebermos que, sob o ponto de vista dessas criaturas, os alienígenas somos nós.

Não é uma ideia ruim. Pelo contrário. É até uma imagem interessante para nossa arrogância como espécie. O problema é que o filme parece acreditar que apresentar a metáfora é o mesmo que fazê-la funcionar.

Ruth, a filha, entende antes dos adultos que aquelas criaturas talvez não estejam simplesmente atacando. Enquanto Jason responde à ameaça tentando controlar, construir, consertar e destruir, ela observa. No final, quando ele finalmente aceita que talvez não possa vencer tudo pela força e confia na percepção da filha, as criaturas libertam a família. A mensagem também é explicitada pelo próprio Leterrier: elas querem descobrir se os seres humanos são capazes de coexistir em vez de dominar o mundo ao redor.

De novo, funciona no papel. Mas cinema não é apenas aquilo que uma história quer dizer. É aquilo que ela consegue nos fazer sentir enquanto diz.

E The Last House raramente assusta de verdade. Também raramente provoca a reflexão que imagina provocar. Em vez de permitir que o confinamento revele gradualmente as rachaduras daquela família, ou que o mistério das criaturas adquira uma dimensão verdadeiramente perturbadora, o filme vai acumulando elementos conhecidos de histórias que já vimos muitas vezes. A casa-prisão, a sobrevivência improvisada, o pai que precisa abandonar a necessidade de controle, a criança capaz de compreender aquilo que os adultos não enxergam, a natureza reagindo à arrogância humana e, finalmente, o monstro que talvez nunca tenha sido o verdadeiro monstro.

Está tudo ali. Só que nenhuma dessas ideias parece ganhar uma identidade própria.

Talvez o maior desperdício esteja justamente na proximidade da pandemia. Há uma experiência coletiva extremamente recente que poderia transformar The Last House em algo muito mais desconfortável. Nós sabemos o que significa olhar pela janela e sentir que o mundo se tornou inacessível. Sabemos como o tempo se distorce quando os dias começam a parecer iguais, como relações são pressionadas pela convivência forçada e como segurança e prisão podem ocupar exatamente o mesmo espaço.

O filme toca nisso, mas rapidamente prefere outra coisa. Quer ser suspense de sobrevivência, drama familiar, ficção científica, filme de criatura e parábola ambiental. Em algum momento, ao tentar ser tudo, deixa de aprofundar justamente aquilo que poderia torná-lo diferente.

Nem Greta Lee nem Wagner Moura são o problema. Os dois têm presença suficiente para sustentar a longa transformação da família, especialmente depois do salto temporal que revela que eles estão presos há mais de cinco anos. A própria casa vai sendo consumida para mantê-los vivos: objetos, paredes e equipamentos são desmontados e reaproveitados, enquanto o espaço doméstico se transforma lentamente em uma espécie de embarcação improvisada de sobrevivência.

É talvez a melhor imagem do filme. Uma família literalmente devora a própria casa para continuar existindo.

Mas The Last House parece desconfiar dessa imagem e de tantas outras. Precisa explicar o monstro, explicar a natureza, explicar Jason, explicar Ruth e explicar o que devemos entender sobre consumo e coexistência. Quanto mais explica, menos misterioso fica. E quanto menos misterioso fica, menos perturbador se torna.

No fim, sobra uma sensação curiosa: The Last House tem uma premissa que conversa diretamente com um dos maiores traumas coletivos de nossa geração, dois protagonistas excelentes e uma metáfora ambiental perfeitamente compreensível. Ainda assim, não dá exatamente medo, não emociona tanto quanto pretende e tampouco deixa aquela reflexão incômoda que os melhores filmes de monstros carregam conosco depois dos créditos.

Talvez porque monstros sejam mais assustadores quando revelam algo que ainda não sabíamos sobre nós.

Aqui, eles apenas repetem aquilo que já ouvimos muitas vezes.


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