O último episódio da terceira temporada de House of the Dragon começa justamente onde o anterior deixou sua maior bomba: Aegon está vivo, Sunfyre está vivo e os dois voltaram a voar juntos. Para Rhaenyra, a notícia é muito pior do que simplesmente descobrir que o irmão que julgava morto sobreviveu. Ela já havia anunciado sua morte, tomado o Trono de Ferro e tentado consolidar a ideia de que a guerra estava praticamente vencida. Agora, Aegon reaparece diante de Westeros como alguém que sobreviveu ao impossível, uma espécie de rei ressuscitado que pode transformar a própria sobrevivência em argumento político. Para ela, é além do imaginável.
A reação de Rhaenyra é de pânico e, pela primeira vez de forma tão explícita, também de revolta contra Viserys. Ela lembra a Daemon que foi o pai quem colocou sobre seus ombros não apenas a sucessão, mas também a profecia de Aegon, e insiste que passou a vida sendo testada por ela. Rhaenyra acredita ter enfrentado cada desafio porque foi escolhida para isso. Daemon, em vez de tentar freá-la, reforça exatamente o que há de mais perigoso nessa convicção: lembra que os Targaryen dominam porque possuem uma força que ninguém mais possui. Quando Rhaenyra pergunta como deve agir, ele responde que a única qualidade que o reino entende é a força. Algo que Daenerys descobre anos depois.

É essa conversa que sela Tumbleton. Rhaenyra ordena que Daemon ataque a cidade e elimine todos os Hightower, sem hesitação. Depois de passar boa parte da temporada tentando evitar que seus dragões transformassem Westeros em cinzas, ela finalmente dá a ordem que temia dar: usar toda a superioridade militar que possui. E, cara, como Daemon estava pronto e torcendo por esse comando!
Ao mesmo tempo, Baela cobra Rhaenyra pelo abandono de Corlys Velaryon, que continua prisioneiro dos Hightower em Tumbleton. Olha, falemos de escolher o pior momento e o pior tom para falar com sua rainha estressada. Na visão de Baela, Rhaenyra usa as pessoas enquanto elas são úteis e se afasta quando deixam de ser, um mantra que vem se repetindo entre supostos apoiadores. Para Baela, Corlys sacrificou sua família, frota e praticamente tudo o que tinha pela causa de Rhaenyra, além de ser sua Mão, sendo capturado por consequência das decisões da própria rainha. Oi?? Ela está vendo House of the Dragon?
Obviamente Rhaenyra não recebe bem a crítica, mas é sua reação que sinaliza a mudança que vimos ao longo da temporada: quanto mais ela se convence de que carrega uma missão superior, menos tolera quem questiona suas escolhas. E, no caso, aqui não foram delas. Corlys chantageou sua rainha; quando não conseguiu o que queria, a agrediu verbalmente e largou tudo para matar piratas. Foi pego porque estava sozinho dando bobeira. Nesse caso, Rhaenyra não tem NENHUMA culpa e a desavisada Baela não sabia que Rhaenyra já tinha mandado mais de 10 mil homens para tomar Tumbleton: claro que no meio disso Corlys seria resgatado. Adorei como Rhaenyra colocou Baela no lugar dela, mas suponho que perdeu mais uma aliada.


É também nesse contexto que Mysaria perde definitivamente seu lugar ao lado da rainha. Depois da aproximação emocional e física entre as duas e de uma temporada inteira em que a influência da Verme Branco sobre Rhaenyra cresceu, ela é dispensada do cargo de Mestre dos Sussurros e banida de Porto Real. Rhaenyra sequer conduz pessoalmente a despedida. Mysaria recebe recursos para partir, mas a relação termina de forma fria e abrupta.
Como essa mudança é uma das mais radicais em relação ao livro, aquela parceria anunciada entre ela e Alicent pode ser realidade na reta final da história. Mas, se ter Mysaria na cama e nos ouvidos era arriscado, tratá-la como lixo e perdê-la de vista é pior. Aqui, Rhaenyra deu outra bola fora.

Antes de ir embora, porém, Mysaria esbarra com Helaena e lhe deixa talvez a frase mais cruelmente honesta de todo o episódio: Rhaenyra jamais irá libertá-la.
Helaena já havia praticamente desistido de viver. Prisioneira em Porto Real, grávida e recusando comida, ela entende que deixou de ser irmã ou mesmo adversária política para se transformar em instrumento de negociação. Quando Rhaenyra tenta convencê-la de que jamais lhe faria mal, Helaena desmonta a ilusão moral da irmã. Ela pergunta se Rhaenyra realmente acredita que viver significa apenas não estar morta e afirma que Viserys odiaria vê-la naquela situação.
Rhaenyra responde lembrando uma verdade igualmente importante: foi a incapacidade de Viserys de resolver claramente sua sucessão que colocou toda a família ali. Mas Helaena encerra a conversa com algo ainda mais devastador. Para ela, tudo aquilo que Rhaenyra passou a valorizar é feio: Porto Real, o poder, o Trono e, finalmente, a própria Rhaenyra.
Pouco depois, a ordem da rainha torna a contradição impossível de ignorar. Helaena é alimentada à força pelos guardas. Rhaenyra pode continuar se considerando misericordiosa, mas é ela quem autoriza a violência contra uma mulher grávida que está presa e desesperada.


Enquanto isso, Rhaenyra também decide que precisa transformar sua conquista política em uma coroação religiosa legítima. Ela procura o Alto Septão e exige ser ungida como rainha. Ele se recusa. Ah, se Cersei tivesse vivido antes de seu tempo, Rhaenyra a teria copiado.
A reação mostra até onde a convicção de Rhaenyra já chegou. Ela não aceita a negativa como resistência religiosa ou política, mas como traição. Alyn recebe a ordem de matar o Alto Septão, e a execução acontece diante da população. É uma mudança enorme em relação ao livro e também um ponto sem volta para a personagem.
Depois disso, Rhaenyra se dirige ao povo e revela publicamente aquilo que, durante gerações, deveria permanecer como segredo da família Targaryen. Ela fala sobre a profecia e declara: “Eu sou o Príncipe que Foi Prometido.” É provavelmente o momento mais revelador de toda a temporada. Rhaenyra já não acredita apenas que deve ocupar o Trono porque Viserys a escolheu ou porque é sua herdeira legítima. Ela passou a acreditar que possui uma função quase messiânica. A guerra deixa de ser apenas uma disputa dinástica. Na mente dela, derrotá-la significa colocar em risco o futuro da humanidade.
Em Harrenhal, acontece outra mudança importante. Aegon procura Aemond e os irmãos finalmente se reencontram. Depois de tudo o que aconteceu entre eles, inclusive a responsabilidade de Aemond pela queda que quase matou Aegon, o rei decide perdoá-lo. É um movimento inesperado e importante para o arco de Aegon: ele está diferente, mais consciente do que precisa fazer para recuperar o poder e disposto a reconstruir alianças que antes pareciam impossíveis. Os dois começam a discutir como poderão retomar Porto Real. A guerra que Rhaenyra acreditava estar vencendo está, na verdade, longe de terminar.

Harrenhal ainda entrega outra revelação importante relacionada a Alys Rivers. A série estabelece que ela foi mulher de Lorde Harren, acrescentando uma nova camada à personagem e mudando sua posição dentro da história da fortaleza. Alys deixa de ser apenas a figura misteriosa que parecia existir quase fora das estruturas tradicionais de Westeros e ganha uma conexão muito mais direta com o passado de Harrenhal.
Enquanto os irmãos se reorganizam, Tumbleton chega finalmente ao ponto para o qual a temporada vinha caminhando havia vários episódios.
Gwayne Hightower tenta evitar o massacre e a morte do sobrinho. Corlys também acredita que ainda existe uma saída política. A proposta passa por poupar a cidade e encontrar uma solução que preserve Daeron, inclusive com a possibilidade de ele assumir uma posição de poder em Vilavelha. A guerra poderia terminar ali sem que milhares de pessoas morressem. Daemon recusa. Aliás, achei confuso Gwayne se apresentar a ele quando, no primeiro episódio da primeira temporada, os dois já tinham se enfrentado na Justa e Gwayne tinha perdido.
É particularmente irônico porque, antes do ataque, ele ainda orienta seus homens a evitar baixas desnecessárias, afirmando que a posição moral da rainha precisa permanecer absoluta. Mas ele está executando uma ordem que praticamente impossibilita qualquer pretensão de superioridade moral: Rhaenyra mandou eliminar os Hightower até o último homem.


Tumbleton está preparada para o cerco. Ormund sabe que não consegue enfrentar diretamente os dragões de Rhaenyra, então transforma a própria população em parte da defesa da cidade. Óleo fervente é lançado sobre os soldados que tentam escalar as muralhas e, em uma das decisões mais cruéis da batalha, crianças são colocadas diante do exército inimigo na esperança de que os homens de Daemon hesitem em atacá-las. Eles não hesitam.
Roderick Dustin, o temido Roddy, o Ruína, atravessa a defesa de Tumbleton de maneira brutal. Caraxes finalmente rompe os portões, e a vantagem militar dos Pretos parece tornar a derrota dos Hightower inevitável. Mas os dois cavaleiros de dragão que deveriam representar a grande superioridade de Rhaenyra estão em situações completamente diferentes.
Hugh Hammer ainda não está interessado em mudar de lado. Diferentemente do livro, ele entra em Tumbleton tentando encontrar Kat e salvá-la. A série mantém Hugh ligado aos Pretos durante a batalha e transforma sua futura posição em algo muito mais emocional do que simplesmente ambição por poder. Ulf, por outro lado, já está praticamente fora de controle.

Depois de muito procurar por ele, Ormund o encontra bêbado e desacordado no banheiro. Furioso, bate nele, humilha-o e ordena que monte Silverwing e cumpra sua obrigação. É a agressão final depois de uma sequência de ressentimentos e humilhações. Ulf obedece apenas até chegar ao céu. Já tinha aturado Daemon, mas Ormund também?
Então todos conhecem o verdadeiro Ulf: primeiro ele trai os Pretos sozinho. Silverwing começa a queimar Tumbleton indiscriminadamente. Não há mais Verdes ou Pretos para Ulf. Ele incendeia soldados dos dois exércitos, casas e civis. A cidade inteira se transforma em uma armadilha de fogo.
No meio do combate, Daemon enfrenta Jon Roxton enquanto Roderick Dustin chega até Ormund. Os dois travam uma luta grotesca e violenta. Ormund consegue arrancar um dos braços de Roderick, mas o nortenho ainda encontra forças para golpeá-lo por baixo, numa morte tão brutal quanto absurda.

Ormund Hightower morre em Tumbleton, tanto pelo golpe mortal de Roderick Dustin como pelo dracarys de Ulf para Silverwing, que cobre a região com fogo e termina de consumir todos no caminho. A grande ironia é impossível de perder. Ormund apostou em Ulf como a arma que poderia equilibrar a guerra contra os dragões de Rhaenyra. É justamente Ulf quem transforma sua última batalha em caos completo porque Ormund o trata como Daemon o tratou.
Aparentemente, Gwayne sobrevive, assim como Daeron. Portanto, a morte de Ormund não significa o desaparecimento dos Hightower da guerra.
Para Hugh, a batalha termina de maneira completamente diferente. Ele encontra Kat morta entre os escombros. A série, assim, evita por enquanto a traição conjunta dos dois Sementes de Dragão que existem em Fogo & Sangue. Em Tumbleton, apenas Ulf rompe abertamente com Rhaenyra. Hugh termina a temporada devastado e imprevisível, mas não como traidor declarado.
Daemon também sobrevive, mas sai da batalha profundamente abalado. Ele atravessa uma cidade destruída e encontra mães carregando crianças mortas. Aquilo que Rhaenyra temia desde o início da guerra finalmente aconteceu: seus dragões ajudaram a transformar milhares de inocentes em vítimas de uma disputa pelo Trono. Ironicamente, é Corlys quem consegue tirar Daemon daquele estado de choque.

E então vem Helaena.
Depois da alimentação forçada e da conversa com Mysaria, ela termina seu último bordado. Como tantas vezes aconteceu com seus desenhos e frases aparentemente desconexas, existe ali uma visão do futuro. Helaena finalmente vai até a janela e se joga para a morte, seguindo essencialmente o destino que possui no livro.
Quando Rhaenyra descobre o que aconteceu, encontra o último trabalho deixado pela irmã. A imagem mostra Helaena caindo e, depois, Rhaenyra sentada no Trono de Ferro cercada pelo fogo de dragão. Não é apenas uma despedida ou confirmação de nada, mas uma profecia codificada, mas Rhaenyra observa aquilo friamente como se fosse sim um reforço de sua visão e fecha a janela.
É assim que a terceira temporada termina. Aegon está vivo e novamente ao lado de Aemond. Daeron sobreviveu. Gwayne possivelmente sobreviveu. Ormund morreu. Ulf rompeu com os Pretos e se tornou um agente independente. Hugh perdeu Kat e terminou a batalha sem saber exatamente onde está sua lealdade. Corlys continua tentando encontrar uma saída política para uma guerra que já parece impossível de controlar. Mysaria foi expulsa de Porto Real. Helaena está morta.

E Rhaenyra, que começou a temporada tentando provar que poderia vencer uma guerra sem se transformar no tipo de governante que temia, termina convencida de que é a própria figura anunciada pela profecia, depois de ordenar uma execução religiosa, manter Helaena como prisioneira, autorizar sua alimentação forçada e mandar Daemon exterminar os Hightower em Tumbleton.
Ela conquistou o Trono de Ferro.
O problema é que, ao final da temporada, parece ter perdido quase tudo aquilo que pretendia provar que a tornava diferente de seus inimigos.
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