House of the Dragon: Ramin Djawadi transforma a guerra em uma trilha espetacular

Foi preciso esperar até o último dia. Durante praticamente toda a terceira temporada de House of the Dragon, Ramin Djawadi deixou sua nova trilha existir apenas dentro dos episódios. A única exceção havia sido a nova versão do tema principal, agora com uma percussão mais forte, mais marcada, quase anunciando que a Dança dos Dragões finalmente havia se transformado em guerra. Na época, brinquei que Westeros tinha ganhado uma batida de Olodum.

Agora, ouvindo a trilha completa, fica claro que aquela mudança era apenas o começo.

Djawadi fez uma trilha espetacular para a terceira temporada. Mais sombria, mais pesada, mais orquestral e, em muitos momentos, surpreendentemente distante da sonoridade que imediatamente associamos a Game of Thrones. Ao mesmo tempo, ele não rompe com o passado. Faz algo muito mais interessante: recupera os temas que nos ensinaram a reconhecer personagens, casas, profecias e destinos e começa a misturá-los, deformá-los e recolocá-los em outro contexto.

Desde Game of Thrones, Djawadi nos acostumou a saber quem estava em cena antes mesmo de olhar para a tela. Sua música sempre teve identidade. Daenerys tinha um universo sonoro tão forte que parte dele acabou se transformando, em House of the Dragon, numa linguagem musical dos próprios Targaryen. Os Hightower ganharam um tema belíssimo e imediatamente reconhecível. Rhaenyra também foi construída musicalmente, assim como Daemon, Alicent e outras figuras centrais da história.

Mas talvez o tema que melhor represente House of the Dragon seja The Prince That Was Promised.

É uma das composições mais bonitas de Djawadi para a série e sempre carregou alguma coisa de ancestral, espiritual e quase religiosa. As vozes tinham um papel fundamental nessa sensação. Nas duas primeiras temporadas, Djawadi usou bastante esse recurso, especialmente quando a narrativa se aproximava de Rhaenyra, da profecia e da ideia de que os Targaryen estavam ligados a algo maior do que uma simples disputa pelo Trono de Ferro.

Na terceira temporada, essas vozes praticamente desaparecem.

No lugar delas, entram as cordas. Violoncelos, violinos, registros graves, movimentos repetitivos, camadas mais densas e uma sensação quase circular. A música avança, cresce, se transforma, mas muitas vezes parece girar em torno de si mesma. Musicalmente, Djawadi trabalha com estruturas repetidas que vão mudando de intensidade, harmonia e textura, criando uma sensação de inevitabilidade.

É impossível não pensar na própria Dança dos Dragões. Esta é uma história de uma família condenada a repetir seus erros. Pais e filhos, reis e herdeiros, profecias mal compreendidas, ambição, ressentimento e violência formando círculos que parecem impossíveis de romper. A guerra avança, mas todos parecem cada vez mais presos ao destino que acreditavam controlar.

A trilha faz exatamente a mesma coisa. Os temas continuam ali, mas não voltam intactos. Djawadi os mistura. Isso fica particularmente evidente em Rhaenyra Triumphant, uma das faixas mais impressionantes do álbum. Ele retoma The Prince That Was Promised, recupera o universo musical associado à própria Rhaenyra e ainda mescla elementos de Ashes and Blood. Não é uma simples reprise de temas conhecidos. Eles se atravessam, se contaminam e acabam formando algo novo.

E talvez essa seja a grande chave musical da temporada.

Rhaenyra chega ao poder carregando todas essas identidades ao mesmo tempo. A herdeira escolhida pelo pai. A mulher que acredita ocupar um lugar dentro de uma profecia. A Targaryen. A rainha em guerra. A personagem que começa a confundir destino, direito e missão. Djawadi coloca tudo isso dentro da mesma música.

Tudo sobre House of the Dragon

O título Rhaenyra Triumphant sugere vitória, mas a faixa não soa como uma celebração limpa. Há grandeza, claro, mas há também peso, ameaça e alguma coisa profundamente inquietante. O triunfo já chega contaminado. É como se a música acompanhasse exatamente a imagem de Rhaenyra entrando numa espiral cada vez mais escura: ela acredita estar finalmente cumprindo seu destino enquanto, ao redor dela, tudo começa a adquirir a textura de um pesadelo.

Em Salt and Sea, Fire and Blood, essa transformação também aparece com força. E Dark Hours talvez represente o outro extremo da nova trilha. É uma composição muito mais orquestral, quase filarmônica, com pouquíssima sombra imediata de Game of Thrones. As cordas deixam de funcionar apenas como um código para nos dizer quem está em cena e passam a sustentar uma peça dramática que poderia quase existir independentemente das imagens.

Isso é importante porque mostra o quanto House of the Dragon ganhou, finalmente, uma identidade musical completamente própria.

Nas primeiras temporadas, ainda era natural procurar na música ecos de Game of Thrones. Afinal, Djawadi estava voltando ao mesmo universo e precisava construir uma ponte entre as duas séries. Agora, essa ponte já não precisa ser tão visível. Westeros continua ali, mas a Dança dos Dragões passou a ter seu próprio som.

E esse som é menos vocal, menos declaradamente grandioso e muito mais denso. É épico sem ser triunfal. É música de guerra, mas principalmente música de inevitabilidade.

O mais impressionante é perceber que Djawadi conseguiu fazer isso sem abandonar aquilo que já havia criado. Ao contrário. Ele pega os temas mais bonitos e originais de House of the Dragon, mistura uns aos outros e os deixa carregar as cicatrizes da história. As melodias que conhecemos ainda estão ali, mas envelheceram junto com os personagens.

Talvez por isso ouvir a trilha completa depois do final da temporada seja uma experiência tão poderosa. Separada das imagens, fica ainda mais evidente que Djawadi estava contando a mesma história por outro caminho.

Enquanto os personagens acreditavam estar avançando em direção ao poder, a música já sabia que todos estavam entrando no mesmo círculo. E, no caso de Rhaenyra, cada vez mais fundo nele. Que trilha.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário