Rosalía chega ao Rio de Janeiro para a LUX Tour em um momento curioso de sua relação com o público brasileiro. Muita gente talvez não acompanhe todos os passos de sua carreira, não conheça seus discos inteiros e muito menos esteja familiarizada com a mistura cada vez mais ousada de flamenco, eletrônico, música sacra, ópera e pop. Mas é bem provável que reconheça sua voz. E há uma razão bastante brasileira para isso: Rosalía virou presença constante nas novelas da Globo.
Não deixa de ser uma trajetória interessante. Quando apareceu em Vai na Fé, em 2023, Rosalía já era uma estrela mundial. El Mal Querer, em 2018, tinha chamado a atenção para aquela espanhola capaz de desconstruir o flamenco sem abandoná-lo, mas foi Motomami, em 2022, que mudou definitivamente a escala de sua carreira. Rosalía passou a ocupar o estranho e fascinante lugar de artista experimental que também consegue produzir enormes sucessos populares.
“Despechá” talvez seja o melhor exemplo disso.
A música nasceu praticamente pronta para o verão, para a pista e, sim, para o rádio. Rosalía canta sobre deixar para trás um amor que já não merece seu sofrimento e escolher a liberdade, a festa e os amigos. Musicalmente, vai pelo mambo e pelo merengue, é curta, direta e tem um refrão que não exige nenhum esforço para ficar na cabeça. Foi um fenômeno antes mesmo de seu lançamento oficial e se transformou rapidamente em um de seus maiores sucessos.
No Brasil, ganhou ainda mais espaço quando entrou em Vai na Fé, em 2023, aparecendo especialmente no universo de Lui Lorenzo, personagem de José Loreto, e de seu núcleo musical. Era uma combinação quase óbvia: uma novela cheia de música, dança e cultura pop utilizando justamente a Rosalía mais imediatamente popular.
Mas no mesmo ano a relação da cantora com as novelas já começou a ficar mais interessante.

“LLYLM” e os amores complicados de Terra e Paixão
Também em 2023, “LLYLM”, abreviação de Lie Like You Love Me, apareceu em Terra e Paixão. A música foi associada especialmente à relação de Graça, interpretada por Agatha Moreira, com Daniel, vivido por Johnny Massaro.
E aqui a escolha já tinha uma ironia quase perfeita. “LLYLM” fala sobre aceitar uma mentira se ela for suficiente para manter a fantasia de ser amada. Graça, por sua vez, passaria boa parte da história tentando sustentar justamente uma relação que não existia da maneira que ela desejava, chegando a mentir sobre uma gravidez para tentar manter Daniel ao seu lado.
A música pop deixava de ser apenas trilha para começar a funcionar como comentário sobre o personagem.
La Fama em Vale Tudo
Dois anos depois, Rosalía voltou à faixa das nove com “La Fama”, parceria com The Weeknd incluída na trilha internacional de Vale Tudo.
A canção não foi apresentada oficialmente como tema exclusivo de Maria de Fátima, mas é impossível ignorar o quanto sua presença conversa com a novela. “La Fama” trata a fama quase como uma amante sedutora, perigosa e destrutiva. E poucas personagens representam tão bem o desejo de ascensão social a qualquer preço quanto Maria de Fátima.
É também uma música interessante dentro da própria carreira de Rosalía porque, embora mais acessível do que boa parte do que ela faria depois, já carrega essa característica que se tornaria cada vez mais forte: ela raramente parece interessada em repetir a mesma fórmula.
Rosalía sabe fazer um hit. “Despechá” prova isso. A questão é que ela aparentemente não está muito interessada em passar a carreira inteira fazendo “Despechá”.
Sexo, Violencia y Llantas muda o jogo
É por isso que a presença de “Sexo, Violencia y Llantas” em Quem Ama Cuida talvez seja a mais interessante de todas.
A faixa abre LUX, o disco mais ambicioso e musicalmente complexo da carreira de Rosalía até agora. Não é exatamente uma música construída para tocar no rádio. Ela muda de textura, de intensidade e de linguagem, faz parte de um álbum que mistura arranjos orquestrais, referências religiosas, música clássica, flamenco, eletrônico e uma exigência vocal que está muito distante da fórmula tradicional de um hit pop.
Mesmo assim, virou tema de Adriana, personagem de Letícia Colin, e passou a acompanhar alguns dos momentos mais importantes de sua trajetória na novela, incluindo sua condenação, a chegada à prisão e também sua relação com Pedro, personagem de Chay Suede.
E aconteceu algo curioso: a novela ajudou a tornar familiar uma das músicas menos óbvias de Rosalía.

Talvez essa seja a melhor maneira de entender a relação que ela construiu com o público brasileiro. Em 2023, a Globo colocou nas telas o grande hit que o mundo inteiro já conhecia. Três anos depois, é uma novela brasileira que ajuda a popularizar uma faixa experimental de um álbum que dificilmente seria descrito como radiofônico.
É quase o caminho inverso.
Rosalía já não precisa provar que sabe produzir música popular. “Despechá”, “Con Altura” e boa parte de Motomami fizeram isso muito bem. O que LUX parece perguntar é até onde uma artista pop pode ir depois de conquistar esse público sem precisar simplificar sua música para mantê-lo.
No Brasil, curiosamente, parte dessa resposta pode estar acontecendo diante da televisão.
Quem ouviu “Despechá” em Vai na Fé, “LLYLM” em Terra e Paixão, “La Fama” em Vale Tudo e agora “Sexo, Violencia y Llantas” em Quem Ama Cuida talvez tenha acompanhado, sem perceber, a própria transformação de Rosalía.
Das músicas feitas para conquistar imediatamente até aquelas que exigem que a gente pare e escute.
E agora todas elas cabem na mesma arena.
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